15 de abril de 2019

Necropolítica da memória escrava no Brasil pós-abolição

A guerra do cânone não ocorreu


por Nadia Yala Kisukidi (Université Paris 8)
Tradução de Murilo Duarte Costa Corrêa



No final dos anos 1980, o filósofo Alan Blomm publica The Closing of the american mind (1987). Ele fustiga os pequenos narcisismos e consumerismos dos estudantes americanos: direito à diferença, reivindicações de minorias que deixam a universidade empobrecida e exangue. O ensino superior não oferece mais os recursos necessários para transpor os limites desse “eu odioso”, que “se faz o centro de tudo”, para retomar as palavras de Pascal. A educação humanista autêntica possui sua biblioteca ideal: os clássicos que povoam a aventura da razão, do espírito e moldam a epopeia intelectual ocidental. Essa publicação lança as guerras de cânone (canons wars) que se apoderam das universidades anglo-saxãs no final do século XX. O cânone é o ideal que fixa as normas do saber (textos, autores etc.) ao qual é preciso conformar-se. As bibliotecas filosóficas, literárias, devem se limitar às obras de “homens brancos mortos” (os Dead White Men) ou se abrir a outras vozes - as das mulheres, das minorias raciais, a que atravessam todos os continentes do mundo e que são sistematicamente apagadas da odisseia do saber?
Da boca dos conservadores, postados sobre as duas margens do Atlântico, essas canon wars são descritas como o sintoma da deriva multiculturalista do ensino universitário. O saber é hoje submetido aos caprichos das crianças mimadas da mercantilização cultural. Esses pequenos príncipes renunciam ao universal; eles se cercam nos seus guetos, seus pequenos provincialismos - aqueles do gênero, da raça, da deficiência, da interseccionalidade, da religião - ou remoem, patologicamente, as velharias do passado colonial.

 

A invasão americana e o veneno identitário


Hoje, na França, a palavra de ordem está lançada: é preciso proteger a universidade. Proteger a instituição da invasão americana e do veneno identitário. Esse veneno que contamina o cérebro dos garotos e garotas da França pós-colonial, embebidos em ideologia vitimista nos bancos das faculdades.
Erraríamos, com efeito, em não contestar a injunção da produtividade da universidade neoliberal. No campo das ciências humanas, a “identidade” constitui  efetivamente um mercado; ela garante a profusão, a produção contínua de novidades: novas cadeiras, novos conceitos, novos stars, novos ricos, novos rótulos, novas radicalidades de fachada... mas erraríamos ainda mais em reduzir o conflito das bibliotecas à expressão de uma pulsão infantil. Ou melhor, a uma enésima metamorfose das metafísicas do desejo que saturam a era do capitalismo tardio.
Em muitas obras (Yearning : Race, Gender, and Cultural Politics (1990) ; Black Looks : Race and Representation (1992) ; Teaching critical theory (2010)), a intelectual Bell Hooks fixa os termos do conflito que confisca as bibliotecas universitárias e os conteúdos de ensino. Nossos corpus de conhecimentos são construções culturais que manifestam igualmente as conflitualidades da ordem social - através dos corpos e das vozes que eles invisibilizam. A aposta da guerra do cânone não é satisfazer narcisismos feridos. Tampouco repousa sobre um princípio de caridade: estabelecer cotas para tornar visíveis as figuras esquecidas do saber e do espírito. Essas guerras lançam luzes sobre a maneira como as desqualificações sociais (raça, gênero, classe) e ideológicas estruturam e organizam as desqualificações científicas.
Na universidade francesa, tais debates não tiveram de fato lugar. Mas o medo de sua chegada próxima assombra os cérebros conservadores. A emergência tardia dos studies (postcolonial, gender...) e mais recentemente de um conjunto de reflexões trazidas pelo “giro descolonial”, no seio da instituição, semeia o pânico. Tribunas apressadas e pouco sérias, caça às bruxas, editoriais mal articulados... É preciso salvar a universidade, talvez mesmo a República, dessas novas fantasias obscurantistas.


Árvore morta contra explosões de seiva

Contra as ferozes cargas das modas anglo-saxãs e do narcisismo minoritário, não tem mistério: reafirmar, sem complexo, os direitos do chauvinismo intelectual. Recusar a travessia dos mares e oceanos, abolir migrações e viagens, pisotear de pés juntos toda forma de curiositas, defender os sedentarismos continentais. A resistência a uma suposta invasão yankee no campo universitário se exibe como uma versão sublimada do famoso “Estamos em casa” que confisca todas as cabeças empoeiradas da França! Porque, meus caros compatriotas, na universidade da França, estamos na França! As fronteiras do saber são fixadas pelos limites do território nacional. A universidade não é nem mundo, nem universo. A universidade é questão de raiz e de tronco. Árvore morta contra explosões de seiva. E para esconder essa miséria, cabeças ruins tiveram a triste ideia de brandir, como um espantalho, o Espírito das Luzes.
Seria então preciso acalmar os ânimos - se ainda for possível, nesses tempos febris. Recordar mesmo, sempre, a longa história intelectual de nosso belo país. Lembrar Paulette e Jeanne Nardal. Lembrar Fanon e Césaire. Lembrar Glissant e Condé. Lembrar Sartre e Bergson. Lembrar De Beauvoir e Derrida. Lembrar todos os demais, ainda. Aquelas e aqueles do presente, do passado. Aquelas e aqueles que anunciam sua chegada e batem à porta.
A identificação de geografias do pensamento nas fronteiras do Ocidente vacilou - e isso desde há mais de um século. Na  França, bem antes da dominação financeira e intelectual da universidade-empresa norte-americana. “Pós-coloniais-pós-modernos-descoloniais-feministas-relativistas” de todo gênero, como se aprazem em chamá-los por um só título, recordam-no todos os dias, convocando, para alguns entre eles, um “universal autenticamente universal” (Souleymane Bachir Diagne). Um “universal” que não dê lição, nem prescreva moral. Que não se branda como um fetiche - objeto de superstição ao qual se atribuem poderes mágicos de pacificação.
A guerra do cânone não ocorreu na França porque ela já ocorreu. E a boa notícia é que ela já foi vencida. Esperemos que essa vitória, ainda por demais discreta e tímida, brilhe agora em mil luzes. Que ela ilumine a vida intelectual de nosso país de sua fulgurante luz - é tudo o que podemos desejar.


"La guerre du canon n’aura pas lieu”, originalmente publicado em 09.04.2019 pelo Nouveau Magazine Littéraire. Disponível: <https://www.nouveau-magazine-litteraire.com/universit%C3%A9/la-guerre-du-canon-n%E2%80%99aura-pas-lieu>