A fatoração de Junho: as multidões e o Príncipe, treze anos depois

02 novembro, 2026

 

No último domingo, 64.256.232 eleitores brasileiros votaram em Lula para presidente da República, levando-o, a dois dias de completar 81 anos de idade, à sua segunda reeleição.

A façanha incontornável de Lula é, sob todos os aspectos, impressionante. Não apenas nenhum presidente da República jamais havia sido democraticamente eleito para governar o Brasil por quatro mandatos, como, na história da democracia nacional, “nunca antes na história desse país…” um candidato que chegasse em segundo lugar no primeiro turno havia conseguido virar a mesa e triunfar no segundo. No último dia 25, Lula realizou ambos os feitos. No entanto, a virada imponderável só não é maior do que os potenciais que ela carrega.

Lula é certamente o mais maquiaveliano dos príncipes que as democracias liberais representativas jamais conheceram. Não apenas por encarnar uma combinação única de fortuna e virtù, nem tampouco somente por saber – ao que parece, melhor do que ninguém – cavalgar o corcel negro da política tumultuária com um pé enquanto mantém o outro no cavalo branco das instituições. Lula é o político prático da teoria dos dois humores. O vencedor insuspeitável do perene conflito entre os grandes e os muitos.

Não é que Lula não governe com os grandes. Esta, aliás, é a crítica que recai sobre ele desde a Carta ao Povo Brasileiro, de junho de 2002. Mas, sob sua sombra protetora, os muitos se sentem salvos do ânimo dos grandes. Maquiavel o sabia bem: os grandes “só querem dominar e oprimir o povo, e o povo só quer não ser dominado”. 

Outra coisa que Lula sabe tão bem quanto Maquiavel é que é mais fácil governar com o povo do que com os grandes. Primeiro, porque, entre o povo, não se está entre iguais — muito embora Lula seja o único presidente da história do Brasil originário da classe operária; segundo, porque “os fins do povo são mais justos que os dos grandes”.

Sem dúvida, do marketing eleitoral às estatísticas colhidas das urnas, a vitória de Lula admite explicações múltiplas. Mas, se eu tentasse desfiá-las aqui como a um rosário, talvez soassem como as menores gotas que, sem saber bem ao certo como, foram dar no mar. 

Correndo o risco de ser acusado de manter uma ideia fixa – tão retrospectiva quanto obsessiva –, prefiro tentar explicar o triunfo de Lula por uma via intuitiva: Junho de 2013 venceu as eleições de 2026. Estranha ideia, concordo – mas ela não cessa de me acossar.

Junho foi um levante, um tumulto multitudinário de trabalhadores precários das metrópoles brasileiras. Uma emergência selvagem e indisciplinar dos corpos que tentavam, por meios próprios, conduzir-se como se fossem uma única mente. Naquela ocasião, com Dilma no poder, o PT negou-se a fazer corpo com os manifestantes de Junho. Isso fez de Junho uma multidão sem príncipe. 

Treze anos depois, derrotado no primeiro turno das eleições de 2026, Lula era um príncipe sem multidão. Nessa dialética positiva, multidão-príncipe-multidão, tocamos o enigma metafísico, prático e político da constituição do Estado e das instituições. Sob formas e dinâmicas relativamente novas, a eleição de Lula em 2026 consiste em uma fatoração de Junho, a ponto de arriscarmos pensar: a eleição de Lula é um expressionismo de Junho continuado por outros meios. 

O cerne de Junho, cujo catalisador inicial foi o passe livre, era o tempo livre e o acesso igualitário ao direito de circular insubmisso nas cidades. Era, ainda, a pressão indevida que a relação custo-qualidade do transporte urbano — ineficiente, caro e lento — imprimia sobre a renda. Afinal, no mundo do capital e do trabalho, falar de tempo é falar de dinheiro (e vice-versa). Mas falar de trabalho e renda é, por extrapolação, falar de lazer: o tempo liberado das atividades servis que a pólis grega enunciou como condição para aceder às benesses da cidade.

Por isso, quando o fim da escala 6x1 finalmente emplaca, ao lado de medidas de valorização dos trabalhadores MEI (precários pejotizados), e se soma a isso a proposta do passe livre nacional aos fins de semana, Lula fatora precisamente a equação que movia as revoltas de Junho: tempo livre-renda-acesso à metrópole. Diante de componentes de liberdade efetiva, a “liberdade de negociar com o patrão” e de “receber por hora trabalhada, como nos Estados Unidos” proposta pelo bolsonarismo soa como um deboche ou um disparate.

Não se tratava de votar em Lula por gratidão ou esperança, mas em função de uma estratégia de escolha com maior probabilidade de consolidar conquistas justas, alcançadas pela via democrática. Com essas medidas, a multidão começava a encontrar seu Príncipe, porque ele tateava a matéria do seu desejo: impedir que os grandes desafoguem sobre os muitos o seu apetite — este, muito mal disfarçado na promessa flaviana de um tesouraço sem liquidação em massa de direitos sociais.

No entanto, não foram apenas esses fatores ideais de Junho — pautas que, com Lula, começam a tomar a forma de políticas públicas, relativamente mutiladas pela “reserva do possível” na gestão capitalista do Estado — os que contribuíram para a vitória de Lula. Há um fator material tumultuário que talvez possa explicar não apenas a transversalidade, mas também a dispersão dos votos em Lula. 

Pela primeira vez em muito tempo — desde 2013/2014 —, voltamos a ver mobilizações de massa nas ruas das principais cidades do país. Atos pró-Lula, anti-Bolsonaro que, embora pudessem ter focos mais ou menos centralizados de convocação, desenvolviam-se de fato como mobilizações horizontais, espontâneas, múltiplas e dispersas. Isso não se deu apesar dos carros de som, das palavras de ordem e das entidades organizadoras, mas ao lado deles, em concomitância. 

Se Junho contava com “lideranças informais”, as manifestações pró-Lula em 2026 testemunharam a concorrência convergente entre fatores verticais e horizontais de organização. Um intercâmbio poderoso entre duas lógicas que se alternavam e retroalimentavam: um fazer multidão que recorria a estratégias verticais para se concentrar e reconhecer (a procura pelo príncipe que pudesse encarná-la) e a estratégias horizontais para dispersar e diversificar os excessos da concentração (a retomada do principado pela multidão tumultuária).

O janonismo cultural não explica essa dinâmica até o fim. O “exército do Lula” e seus “soldados”, com marechais e generais, participam dessa dinâmica de acumulação primitiva de democracia e ajudam a catalisá-la, mas não a encerram nem a causam. O mérito de André Janones está na percepção intuitiva, antecipada e talvez contra todas as evidências disponíveis, desse desejo social difuso de concertação democrática. Reside, também, na inegável capacidade de transportar a democracia das ruas às redes e aos algoritmos. Nesse campo, o fato novo é a constituição de uma democracia algorítmica: incontestável contribuição de Janones para o pleito e, esperemos, para muito além dele.

Seu desafio, muito maior do que o do bolsonarismo, foi criar um público, um tipo de subjetividade transversal replicável e mobilizadora. Não apenas encampar um conflito, reagindo às fake news da extrema-direita ou desmentindo-as, mas – prescrevendo a recusa em participar da bolha da mitagem bolsonarista – agenciar ações positivas, criar uma trincheira algorítmica e transformar os termos do conflito social em participação política ativa e cotidiana. Um trabalho estratégico de organização e concertação, mas também, e essencialmente, afetivo: conjurar o derrotismo e as inclinações ao ressentimento e à culpabilização dos muitos pelos muitos.

Isso não apenas isolou a bolha da extrema-direita, mantendo-a idêntica a si mesma. Sob o símbolo de certo dirigismo militar, mobilizador de automatismos acéfalos, a democracia algorítmica de Janones nos convenceu a pagar o preço da servidão maquínica pela chance de preservar as instituições comuns da liberdade política.

Claro que é justo e necessário perguntar: se Junho negava a forma-partido, os pactos sociais hipnóticos e a ficção da representação política, como explicar que, 13 anos depois, demandas e dinâmicas de Junho possam explicar a eleição de Lula? A novidade política, e o enigma, talvez estejam justamente aí: na intempestiva monstruosidade dessa hipótese e na irreal sensação de distanciamento em que ela nos introduz.

As causas da virada de Lula – como ele próprio reconhece no discurso da vitória – não se deveram ao culto de sua personalidade, nem à mutação de seu marketing político, nem mesmo a fatores estatísticos, mas ao povo: à indomável labilidade soberana de seu desejo. Diante de Junho, as eleições de 2026 atualizam politicamente, e sob novas formas, o diferendo de Junho entre anarquia e instituições. De um lado, as multidões e os tumultos, sua horizontalidade e espontaneidade; de outro, o Príncipe, a verticalidade e a concertação organizada do povo que deseja conduzir-se como que por uma só mente.

Tardou, mas Lula finalmente acenou a um Junho que ainda espera por nós. Junho acena de volta a Lula como uma multidão tumultuária que — por ora, e uma vez mais — aceita viver sob a sombra protetora do Príncipe, que só tem de protegê-la contra os grandes. Para repetir um bordão caro a Lula — príncipe maquiaveliano, anomalia nordestina —, “nunca antes na história desse país” um príncipe precisou tanto governar com o povo, e nunca um povo precisou tanto da proteção de um príncipe. 

Com um Congresso majoritariamente de centro e extrema-direita, e uma Constituição ameaçada pela crise de legitimidade do STF, a acumulação primitiva de democracia das ruas e das redes agora precisa governar. Cabe a Lula, com o recurso às multidões que precisarão seguir mobilizadas, tornar possível não apenas um hiato democrático de mais quatro anos, mas sua radicalização nas instituições. Eis aqui Junho em sua inteireza e plenitude: democracia real, omnino absolutum imperium.

 

* Publicado originalmente em: https://uninomade.net/a-fatoracao-de-junho-as-multidoes-e-o-principe-treze-anos-depois/ 

Como não votar em Flávio Bolsonaro?

06 outubro, 2026

 

 

 

Não tomemos 2026 por 2022. Em 2022, havia um histórico recente de mais de 700 mil mortes causadas por uma gestão assassina das políticas de saúde durante a pandemia de Covid-19. O governo Lula 3, embora tenha trabalhado para punir o golpismo do 8 de janeiro de 2023, não mexeu nem uma palha sequer para responsabilizar o bolsonarismo por seus crimes de Estado na gestão da pandemia. A omissão de um partido que se acreditava consolidado no poder – afinal, retornado das cinzas, Lula parecia invencível – deu às extremas direitas a chance de recontar mil vezes a história da pandemia fazendo dela uma tragédia espontânea, tão incontrolável quanto remota, e sem responsáveis diretos.

No campo das promessas, em 2022 o retorno de Lula sobrevinha no centro de um movimento de restauração democrática. Uma fantasia que talvez fosse muito mais lulista, e instrumental à hegemonização de um centrismo enfraquecido em torno de sua figura, do que uma fantasia propriamente popular. Ainda assim, uma fantasia algo popular, que se contentava com a reconstrução de políticas públicas que se acreditavam conquistas republicanas.

O que explica que ontem Lula tenha perdido a dianteira para Flávio Bolsonaro no primeiro turno é que já não estamos em 2022, e em 2026, para grande parte do eleitorado, Lula não parece ter nada a oferecer. Sua campanha teve o tom da defesa de um legado político histórico – incomparável, de fato, com o de qualquer outra liderança política pós-ditadura. Essa defesa, no entanto, levou-o a fazer uma campanha sobre si próprio, narcisista, esperando das urnas uma redenção popular final. 

Isso o impediu de captar um tipo de subjetividade emergente desde 2018 e que hoje se cristaliza em novas formas. Se as eleições de 2018 consolidaram nas instituições um sentimento socialmente difuso de antipetismo, na forma de uma paradoxal torção da desobediência antissistema, e se as de 2022 foram marcadas por um contido, mas resoluto, desejo de restauração democrática, 2026 consolida um outro tipo de subjetividade, muito menos reativa do que se imagina – mas nem por isso menos perigosa.

*

Em 2014, às portas da reeleição de Dilma, os intelectuais liam o sociólogo Jessé de Souza para tentar compreender a recalcitrância que uma nova classe média, constituída pelas políticas sociais dos governos FHC e Lula, tinha em reelegê-la. Tudo se passava como se, em meio a um turbilhão de escândalos, o lulismo tivesse se tornado uma vítima de seu próprio sucesso – a começar pela “anomalia” de Junho.

Em 2026, talvez precisemos nos perguntar pelas causas do estrondoso sucesso do best-seller Coisa de Rico, do antropólogo do luxo Michel Alcoforado. Um livro que, de 2025 pra cá, tem sido lido no Brasil por um espectro muito mais amplo do que antropólogos, sociólogos ou “intelectuais”. Quem sabe isso se explique menos por uma súbita curiosidade antropológica plebeia do que pela ambição revelada por um desejo social de mimetismo. Uma vontade generalizada de “pagar de bacana” que dirige seus interesses aos códigos sociais da riqueza. Alcoforado os tornou pop, mas trata-se de uma nova volta num velho parafuso que o carnavalesco Joãozinho Trinta já havia captado bem no fim dos anos 1970-1980: “Pobre gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual”.

A soberba lulista (“Gente, eu estou achando que vamos ganhar no primeiro turno”, disse ele no Flow podcast, às portas do primeiro turno) impediu-o de captar a emergência de uma transversal de subjetividade comum às classes no Brasil: o narcisismo se tornou coletivo. O lulismo é um narcisismo, mas um de tipo individual e edificante: a inequivocamente bela história de Lula que procura fazer povo, coletivizar-se. O filo-bolsonarismo, por outro lado, hoje corresponde a um narcisismo coletivo singular e poliforme, alimentado pelas muitas e violentas fantasias de luxúria, dominação e liberdade, as quais procuram um indivíduo no qual se recompor e totalizar.

Enquanto os “batalhadores” sonham com um Estado que não os atrapalhe no caminho ideologicamente pavimentado até a riqueza, as classes médias altas (que, na extrema desigualdade, sentem-se “ricas”) votam para conservar sua sensação de privilégio de classe, e os ricos de verdade agem estrategicamente para continuar exercendo o pathos da distância que os separa dessas massas plebeias. Esse composto divergente de desejos grandes e pequenos, nobres e plebeus, formam uma só transversal de subjetividade que se torna política. Constituindo um Eros de massas, ele liquida a poética lulista dos pobres. Por isso, e apesar de tudo, não é em Lula que devemos procurar as causas da vitória de Flávio no primeiro turno, mas, sim, nesse novo tipo de narcisismo coletivo que encontrou em Flávio um representante sob cuja autoridade desafogar o seu desejo.

A essa grande parcela do eleitorado (filo-bolsonarista), Lula e o PT não passam de um entrave para uma nova composição libidinal e aspiracional que já tomou forma. A própria democracia, seus procedimentos, ritos, sua infinita judicialização, o Estado de Direito, não soam senão como molestos obstáculos a serem removidos ou contornados. Com uma virtual vitória de Flávio no segundo turno – que os mercados já começam a precificar – e a eleição de um Congresso esmagadoramente filo-bolsonarista, alguns irão deplorar a implosão dos freios e contrapesos democráticos enquanto outros estarão ocupados instalando aceleradores e embreagens para o motor protofascista do seu desejo. Ao patriarca da família Bolsonaro, anistia e direitos políticos; aos ministros do STF, impeachment e degredo. Às mulheres, pessoas LGBTQIAPN+ e negros, com sorte, talvez alguma representatividade circunstancial “sem vitimismo”, para provar que o filo-bolsonarismo também combate os feminicídios, as violências sexuais e as execuções sumárias de jovens negros pobres que, no entanto, não cessarão de aumentar. Eis o cenário institucional que nos espera num futuro próximo.

O trágico é que essa dinâmica é menos de ressentimento que de afirmação de fantasias alternativas que a estratégia de hegemonia lulista, orquestrada “por cima”, já não consegue capitalizar. O voto em Lula (e falo por mim, mas provavelmente não só por mim) é um voto triste e desapaixonado. Carece de desejo e de crença. Ele só nos faz acreditar num freio às direitas, num contrapeso ao fascismo, numa desaceleração da ruína. Adornos às avessas, só queremos retardar o desabamento. Em algum momento entre 2006-2014, o lulismo tornou-se uma frente democrática sem demos. Desde então, já não consegue oferecer nenhuma fantasia alternativa exceto “um pouco mais” do real conhecido, e que já não basta a quem aspira. As promessas são melancólicas. Todo mundo sabe que depois do último gole da garrafa, ou da última tragada do cigarro, é isto: fim de festa.

No Brasil de 2026, as pessoas já não querem só comer, elas querem luxar como os influencers do Instagram, os banqueiros ponzi das páginas policiais, os senadores putanheiros dos vídeos vazados, os consortes de ministros do STF com contratos milionários. Como a eleição em peso de políticos ligados à vorcaroesfera mostra, as pessoas estão dispostas a serem moralmente tolerantes com todas as corrupções que as permitam fantasiar com a abundância e com o supérfluo, por mais distante que isso esteja das suas realidades – porque é de situar-se na distância social das massas aquilo de que se trata. Sua coerência não é cognitiva, mas afetiva. Por isso, nenhuma verdade adequada jamais será suficiente. É preciso de um afeto antagônico e mais forte, que o lulismo já não consegue usinar.

Os votos filo-bolsonaristas encarnam a subjetividade nouveau riche da garota que encantou a CPI das bets, Virgínia Fonseca, o brilho das lentes de contato dentais na pegada agro da Ana Castela, a promessa infinita das bets e dos Tigrinhos, o carro importado dos influencers das máquinas de vendas, a teologia da prosperidade que diz “A nação cujo Deus é o senhor, prospera”. Não se trata apenas do capitalismo como religião, mas da religião como capitalismo – uma empresa espiritual e materialista. 

Se assim se compõe essa transversal de subjetividade – nada distante daquela do homem tirânico que Platão descreveu no livro IX da República –, é de se perguntar como o Bolsa-Família, corrigido pelo IPCA às pressas, e pouco antes das eleições, poderia competir com “fontes de renda” fácil ao alcance das mãos, e que, assim como o Deus próspero, prometem o paraíso abundante dos ganhos ilimitados? Enquanto Lula proíbe as bets (e mais de 60% da população afirma estar de acordo com ele), sua bancada se reelege quase integralmente e o dinheiro promete jorrar dos celulares como fontes de leite e mel para os zangões, tenham ou não ferrão.

Essa subjetividade nova, feita de fantasias alternativas de abundância para si mesmo e para a própria família (não nos esqueçamos, uma unidade tão econômica quanto afetiva), se sustenta em um materialismo de novo tipo. Um materialismo que já não é o marxiano, das necessidades humanas elementares, mas o do abundante. “Que nunca nos falte o supérfluo”, dizia a socialite Val Marchiori ao brindar com champagne no extinto programa televisivo “Mulheres Ricas”. A frase não virou meme por acaso. O supérfluo não corresponde à figura do excesso, nem à do dispensável. Ele materializa o ilimitado – a mecânica do próprio desejo –, que Deus, a imagem plataformada e a finança também nomeiam em um novo arranjo epocal. O Brasil de 2026 não se define por um materialismo do supérfluo, mas por um materialismo do infinito e do ilimitado que o supérfluo, o luxo e a luxúria prolongam em fantasia de distância social, a qual só está à procura de um território para se inscrever (Instagram, Igreja ou urna, no fundo,  pouco importa).

O supérfluo se tornou o essencial, e nenhuma economia funciona melhor na chave do ilimitado do que a economia da finança e da imagem plataformadas e em curto-circuito. Existem quatro figuras de um materialismo do ilimitado ou do infinito que se tornam a efígie do Brasil contemporâneo: 1/ a finança, cuja circulação foi liberada entre os plebeus pelo Pix, pela bancarização das fintechs, e potencializada entre as castas dos três poderes pela participação ambidestra na corrupção sistêmica; 2/ a atividade potencialmente liberada do trabalho sujeitado pelo “empreendedorismo”, como nova forma de organização do trabalho e da renda. Diante de uma monadologia empresarial dispersa por toda a sociedade, a redução da jornada 6x1 pode muito bem soar como um engodo ou uma armadilha da servidão 5x2. Afinal, “todo mundo sabe” que “bom mesmo” é trabalhar para si próprio, sem patrão, com flexibilidade de horários e, se possível, em home-office. As condições da atividade e seu arquétipo importam psiquicamente mais do que o imobilismo das garantias da CLT ou a intensificação das horas de trabalho como MEI; 3/ a renda virtualmente ilimitada do empreendedorismo desregulado, das bets e dos jogos irregulares, que encontra seu ponto de fuga na miragem de um dia poder participar do pathos da distância e dos privilégios exclusivos dos ricaços (ou, pelo menos, conseguir tirar uma casquinha do lifestyle); 4/ por fim, as imagens dos modos de vida dos influencers de sucesso vlogando em loop infinito nas plataformas digitais como um convite à sua mímese social. A finança, a atividade, a renda, a imagem. Tudo está liberado, como numa festa do Vorcaro. Suíça ou sueca, tanto faz. Quem não quer pegar carona no jatinho?

Nessas condições, as pessoas vão defender a concentração de renda com unhas e dentes se acreditarem que terão chances de participar do seu privilégio. Não se importarão em eleger uma casta de corruptos privilegiados (como o congresso da vorcarosfera) se esse for o preço a pagar para reciclar os privilégios de outra casta tradicionalmente corrupta, mas intocável pelo voto, como a dos ministros do STF e a dos membros do Poder Judiciário. Entre políticos que parecem se fingir de juízes e corruptos que se fazem de políticos, elas ficarão com os últimos, os espécimes originais.

Acesso, e não liberdade. Exclusividade, não igualdade. Prosperidade, não solidariedade. Esse é o mote do narcisismo coletivo que, ao que tudo indica, é a formação subjetiva que deve eleger Flávio Bolsonaro. A aspiração é o melhor cabo eleitoral da cobiça, e a ambição só se vê representada quando a ganância se elege. Ontem, as urnas mostraram que a tragédia é que a Lula (o Narciso individual) falta um povo que lhe corresponda. Não foi Lula, nem o PT, que chegaram ao fim, mas a poética dos pobres. Já ao Narciso coletivo – pródigo, avaro e carecido de tudo –, não faltam Bolsonaros dispostos a lhe dar um corpo. Num país como o Brasil, erigido historicamente por projetos patrimonialistas de exclusão e concentração de renda, o voto brilha como uma pulseirinha VIP para o camarote, que expulsa e tranca do lado de fora os inimigos da nossa festa Top. Essa é a conta que as almas fazem, e se perguntam: “Como não votar em Flávio Bolsonaro?”.

 

*Publicado originalmente em: https://uninomade.net/como-nao-votar-em-flavio-bolsonaro/ 

Tradução: A sessão de saco, de Henry Michaux

08 julho, 2026

 Henri Michaux (1889–1984), Sem título, 1962.
 

Cuspo em minha vida. Rompo com ela.

Quem não faz melhor que sua vida?

Isso começou quando eu era criança. Havia um adulto grande e incômodo.

Como me vingar dele? Eu o pus num saco. Lá, eu poderia bater nele à vontade. Ele gritava, mas eu não escutava. Não era interessante.

Conservei sabiamente esse hábito de infância. Desconfiava das possibilidades de intervenção que se adquirem ao se tornar adulto. Além de não irem muito longe. 

Não se oferece cadeira a quem já está na cama.

Esse hábito, digo eu, eu o preservei devidamente, e dele fiz segredo até agora. Era mais seguro.

Seu inconveniente - porque há um - é que, graças a ele, eu tolero pessoas impossíveis com muita facilidade. 

Sei que as espero no saco. Eis o que me dá uma paciência maravilhosa.

De propósito, deixo durar situações ridículas. Deixo demorarem meus estraga-prazeres.

A alegria que eu teria em enxotá-los é contida, no momento da ação, pelas delícias incomparavelmente maiores de tê-los, em breve, no saco. No saco onde eu os cobria de porrada, impunemente, com uma ferocidade capaz de cansar dez homens robustos revezando-se metodicamente.

Sem essa minha pequena arte, como teria vivido minha vida desanimadora, não raro pobre, sempre no lombo dos outros?

Como poderia ter continuado essa vida por décadas atravessando tantas desilusões, sob tantos senhores, próximos ou distantes, sob duas guerras, duas longas ocupações por um povo em armas que acredita em pinos derrubados, sob outros incontáveis inimigos?

Mas o hábito liberador me salvou. Por um triz, é verdade, e eu resisti ao desespero que parecia dever não me deixar nada. Medíocres, maçantes, brutos de quem eu poderia ter me livrado cem vezes - eu os guardava para minha sessão de saco.

 

Michaux, H. (1982). "La séance de sac". In: La vie dans les plis (poèmes). Paris: Gallimard.

*Tradução: Murilo Corrêa, do original [FR]:  https://www.wikipoemes.com/poemes/henri-michaux/la-seance-de-sac.php


 

Felca e nós

13 agosto, 2025

Murilo Corrêa


O efeito-Felca


Há seis dias, o youtuber Felca publicou um vídeo sobre a “adultização” e a exploração sexual de crianças e adolescentes nas redes sociais. Todo mundo viu. Ou quase todo mundo. Enquanto escrevo essas linhas, o Youtube contabiliza mais de 36 milhões de visualizações em um canal de humor irônico que, hoje, conta com 5,88 milhões de inscritos. Muito provavelmente, quando o leitor as ler, esses números já terão se multiplicado.

No vídeo, Felca denuncia a lógica plataformizada de exploração e sexualização de menores em redes sociais através de casos. Entre os principais, está o do influenciador Hytalo Santos, acusado de submeter adolescentes — como “Kamylinha”, presente no programa desde os 12 anos até os 17 — a um “reality show” com clima adulto, incluindo danças sensuais, festas, bebedeiras e um vídeo de pós-operatório de implante de silicone. Também são abordados conteúdos sensíveis, como a venda de imagens íntimas de menores em grupos fechados, e o canal “Bel para Meninas”, investigado sob suspeita de exploração emocional.

Com a estrondosa repercussão do vídeo, o Ministério Público instaurou investigações dos casos citados, apurando possível exploração infantil e violação do Estatuto da Criança e do Adolescente. O Conselho Tutelar e a Polícia Civil passaram a acompanhar os menores envolvidos, enquanto plataformas como Instagram e TikTok removeram contas denunciadas e afirmaram estar revisando políticas de proteção infantil. 

Felca fez um trabalho jornalístico que nenhum jornalista fez. Gerou um impacto afetivo que nenhuma mídia tradicional de massas gerou. De quebra, produziu efeitos políticos e sociais que nenhum partido político ou formador de opinião conseguiu obter. É que o vídeo de Felca não é apenas factual e jornalístico, mas produz uma operação sensível, formula um problema concreto e situado e, por fim, convoca à ação. Isso faz dele mais do que um mero vídeo que denuncia aquilo que todo mundo sabe que está nas redes.

Talvez estejamos diante de uma operação subjetiva original e, com sorte, de uma nova possibilidade de luta em rede: as lutas dos usuários, daqueles que são tratados como usuários pelas Big Techs e plataformas que gostariam de modular nossa existência, subjetividade e possíveis. Trata-se de uma luta que se desenvolve no cerne da economia de atenção que as redes mobilizam, e que no fundo é, como o vídeo de Felca parece mostrar exemplarmente, uma economia do desejo e da sua perversão.




Mais vigilância, por favor!


Felca e nós estamos no capitalismo. Sua crítica à monetização de conteúdos que exploram o tratamento de crianças e adolescentes como adultos, bem como sua exposição hiperssexualizada, não é e está longe de ser uma crítica ao capitalismo. Assim como o uso crítico e judicioso que o Sleeping Giants Brasil faz das redes como meio de denúncia e mobilização para desmonetizar fake news e (permitam-me usar esse atalho cognitivo) “discursos de ódio”, tampouco é uma crítica ao capitalismo de plataforma. Trata-se de uma luta no cerne dos fluxos de desejo, crença e finança que alimentam monstros que nos parecem intoleráveis – enquanto a outros talvez possam soar inteiramente familiares.

Ao criticar a monetização da exploração sexual de crianças e adolescentes nas redes, Felca se pergunta como isso ainda é possível. É que, apesar de estarmos no capitalismo, ele não é tão de “vigilância” assim, como supôs (entre muitxs) Shoshana Zuboff. O capitalismo em que vivemos é, sem dúvida, algorítmico e de dados, mas o que Felca mostrou é que os algoritmos vigiam apenas quando “querem”, “se querem”, e só nas hipóteses em que “fazer vistas grossas” não se mostrar mais rentável. A mesma lógica vale para a dispersão infinita e a ilimitação das bets, plataformas de jogos de azar digitais regulados e tributados de maneira soft no Brasil, e que Felca também denunciou.

Assim como no caso das bets, no da exploração sexual de crianças e adolescentes em “redes sociais de propósito geral” – curiosamente, plataformas 18+ talvez disponham de maior vigilância contra as práticas de pedofilia –, tudo se passa como se o que faltasse ao capitalismo de vigilância fosse, paradoxalmente, vigilância.

Da mesma forma como às empresas que ingenuamente se utilizam do Google ou dos Ads do Facebook e do Instagram, e terminam alavancando fake news e discursos de ódio, faltaria ao capitalismo de plataforma e às redes sociais a mesma vigilância que permite aos algoritmos serem tão eficientes ao entregar a usuários anúncios personalizados baseados em dados. 

Os casos de adultização e de exploração plataformizada sexual de menores – exploração que prolonga online explorações que ocorrem também offline – relatados por Felca parecem dobrar a aposta política do capitalismo de vigilância prolongando-o na forma de uma ética técnica mínima: se vamos ser vigiados, então façam o favor de vigiar direito! Incluam os pedófilos e os exploradores de menores… Mais vigilância, por favor!





A virada moral


Em setembro de 2017, o Santander suspendia com um mês de antecedência a exibição do Queermuseum – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, até então em cartaz no Santander Cultural de Porto Alegre. As acusações que motivaram a interrupção da exibição foram veiculadas em protestos agenciados por redes sociais e afirmavam que as obras blasfemavam contra símbolos religiosos e promoviam a zoo e a pedofilia. Tratava-se de uma exibição composta por 270 obras de 85 artistas brasileiros desde o início do século XX ao século XXI, e que tratavam de temáticas da diferença, como LGBTQIAPN+, gênero e questões sexuais.

Esse período, que se confundiu com a emergência e cristalização do Bolsonarismo, foi também o período de um pânico moral generalizado que tinha por objeto o combate à assim chamada “ideologia de gênero”, à “escola sem partido” e à “comunistização” (em larga medida imaginária) das crianças e adolescentes pela via da educação e do acesso à cultura. Uma prédica que seria cômica se não fosse trágica num país como o Brasil, assolado pelos obstáculos e desigualdades de acesso de crianças e jovens a direitos fundamentais como educação, cultura e lazer.

Não muito distante dessa atmosfera conspiranoica de pânico moral ao redor da infância, estavam a denúncia de Damares Alves sobre uma rede de exploração sexual de crianças no Pará, e a corrida de evangélicos e bolsonaristas aos cinemas para assistirem à exibição de Sound of Freedom (2023), filme baseado em fatos reais e dirigido por Alejandro Gómez Monteverde que retrata a exploração sexual e o tráfico internacional de crianças e adolescentes dentro de uma trama de ação previsível à la americana.

No seio desses movimentos é que as direitas brasileiras avançavam sobre a pauta da proteção das crianças e adolescentes como um dos elementos centrais da estratégia de capturar temas relacionados à família e à sua proteção contra a decadência do seu perfil tradicional e sua “corrupção moral” – ambas atribuídas a um progressismo das esquerdas quanto à pauta de costumes. De seu lado, as esquerdas ficaram capturadas na trincheira da guerra cultural da defesa da diferença inespecífica, das múltiplas formas de amor abstratas e da liberdade de expressão descorporificada.

Até há pouco tempo, essas oposições se distribuíam estavelmente entre direitas e esquerdas no Brasil. Enquanto Lula esteve preso, desapareceu a esquerda punitiva de que falou Maria Lúcia Karam, e emergiu a esquerda garantista e defensora de direitos humanos, enquanto a direita brasileira brandia o discurso judicialista, punitivista e anticorrupção, surfando politicamente nas pautas de segurança pública. Já agora, quando Bolsonaro enfrenta uma prisão domiciliar em caráter cautelar, e Carla Zambelli aguarda presa na Itália uma provável extradição, os papeis se invertem. Surge uma direita garantista, crítica do ativismo judicial que incensou em Moro (embora os papeis de Moro e Moraes estejam muito [muito mesmo!] longe de se equivalerem), e repentinamente defensora de direitos humanos. Por outro lado, retorna a esquerda punitivista, que não abdica do discurso dos direitos humanos, mas que os compreende subsumidos à forma democrática do Estado (os quais, de fato, estão).

Poderíamos multiplicar os exemplos até o aborrecimento. O que importa aqui é compreender a virada moral que hoje atravessa esquerdas e direitas. É evidente que ela se segue de uma virada situacional. No entanto, mesmo essa virada parece manter a oposição entre esquerdas e direitas em seu lugar. Enquanto, nos últimos anos, todo mundo falou de “polarização” sem cessar – palavra que gastamos a ponto de se tornar proscrita e odiosa no vocabulário político corrente –, sempre preferi falar em oposição em sentido tardiano.

Gabriel Tarde, genial jurista e sociólogo do final do século XIX, início do XX, definiu as oposições como fenômenos inteiramente regulados por relações de simetria, identidade e neutralização. Onde parece haver uma diferença abissal, é precisamente onde Tarde a vê desvanecer na forma de uma variação meramente aparente, que mantém um estado de coisas em equilíbrio e no seu lugar de costume. É que as oposições supõem uma identidade subliminar entre os dois termos opostos. A estratégia da oposição passa por conservar a diferença meramente aparente que encarna, ao mesmo tempo em que doma e aniquila qualquer diferença que fuja da identidade de fundo que sustenta a oposição.

Ao contrário da ideia de polarização, a oposição talvez seja um conceito ainda útil do relicário tardiano, na medida em que ele nos permite pensar a variação apenas aparente das trocas de posições entre uma esquerda que já não tem nada a nos oferecer e uma direita que tem tudo a nos tirar. Nesse contexto politicamente desolador é que o vídeo de Felca produziu um dos fatos políticos mais poderosos dos últimos tempos, e ele está ligado às lutas dos usuários.




Lute como um usuário


Certa vez ouvi de um teórico que respeito e admiro muito uma pergunta à queima-roupa, e muito sagaz: como os usuários farão política num mundo que os trata precisamente como usuários? Não estaria aí um limite bastante incômodo à teoria guattariana dos grupos de usuários - ideia que elaboro em La jurisprudencia de los cuerpos para dar sentido à filosofia do direito de Deleuze? A resposta poderia ser: “do mesmo modo como operários fazem política num mundo fabril que os trata como operários, ou mulheres e negros fazem política num mundo machista e racista que os trata como mulheres e negros”, e assim por diante.

O limiar aparentemente político que tocamos aí não é outro senão a da própria estrutura que uma singularidade tensiona, a do próprio meio no qual seu potencial de disparação se introduz. Chamemos a isso singularidade, operário, mulher, negro ou usuário: os usuários fazem grupos precisamente num mundo em que os trata como usuários por toda parte. Isso talvez seja menos uma limitação do que as condições muito materiais de um chamado à ação.

Com seu vídeo Felca não apenas “Furou a bolha”, mas lutou como um usuário e produziu uma cascata de efeitos offline. Ao enunciar um problema situado, cartografá-lo, dimensioná-lo, pesquisá-lo como talvez coubesse a jornalistas ou antropólogos, Felca produziu uma política de usuários e reconectou singularidade e meio estruturável, micro e macropolítica. Uma transformação que só podemos conhecer pelos efeitos que dispara. 

Um deles foi alcançar grupos de todos os espectros políticos no WhatsApp, de acordo com monitoramento realizado pela consultoria Palver. Outro foi produzir um curto-circuito nas extremas direitas. Entre todos, a senadora Damares Alves deu declarações em que reputava o tema da adultização como um cavalo de Tróia que permitiria à esquerda avançar seu projeto de regular as redes. No mesmo sentido, o deputado Nikolas Ferreira acusou a esquerda de criar uma cortina de fumaça para passar a proposta de regulação.

Em que consiste essa política de usuários? Ela consiste em embaralhar os termos da oposição entre as direitas (garantistas, mas golpistas) e as esquerdas (punitivistas, mas democráticas). A adultização e a exploração monetizada da sexualização de menores – um tema da subjetividade social e dos fluxos de desejo que atravessam e ajudam a constituir redes, algoritmos e valor econômico – tiraram por um momento das mãos das direitas o debate público sobre a proteção de crianças e adolescentes, ao mesmo tempo em que municiaram um debate contextualmente caro às esquerdas sobre a regulação de megaplataformas e redes sociais.

As direitas foram confrontadas com sua hipocrisia moral, e terão de escolher entre seguir seu discurso de pânico sexual até o fim, ou seguir o discurso de liberdade de expressão nas redes até as últimas e potencialmente autofágicas consequências. Já as esquerdas foram forçadas a ingressar no campo do debate dos valores e da moralidade, um território pantanoso antes entregue ao monopólio das direitas. A ver como vão se virar com isso.

Mas o efeito-Felca foi muito mais profundo. Ele não só produziu uma revisão nas políticas de megaplataformas, como deu o ensejo para que grupos de usuários heterogêneos se formassem em torno do problema – um problema que só se torna efetivamente visível sob a condição de ter sido enunciado como tal. Além disso, também, gerou efeitos macropolíticos de larga-escala em todos os setores inertes da política legislativa nacional, que se apressaram em formular mais de 32 projetos na Câmara dos Deputados do dia para a noite, sob o empuxo do efeito-Felca.

Lutar como um usuário é afundar-se nas condições materiais circundantes de um meio habitável. Felca o fez na condição de um usuário de plataformas e de um formador de público majoritariamente Gen Z, como ele próprio. A mesma garotada que anda tirando fotos de cybershot e comprando dumbphones para tentar aguentar o vórtice digital interminável que se tornou a vida de cada um de nós. Lutar como um usuário é formular um problema que mude a partição sensível e dê consistência a um grupo de usuários que não tinham grupo – até se verem alvejados por um enunciado que contém um problema que faz sentido. Eis o ponto em que a subjetivação acontece e o transindividual opera suas conversões.

Lutar como um usuário, como no efeito-Felca, ou no efeito-Sleeping Giants BR, é saber converter a figura do inventor na do repetidor, fazendo uma singularidade mobilizar circuitos cada vez mais vastos, heterogêneos e inesperados.