17 de agosto de 2021

‘Quem diz tolices sobre black bloc nunca esteve perto de um’



Para Murilo Corrêa, do Departamento de Direito de Estado da universidade paranaense, diferente do que circunda a opinião pública, os black blocs são táticas não-violentas, já que não praticam, e nem preconizam, qualquer violência contra pessoas e se trata de uma ação defensiva

 
 

Desde 2013 o termo black bloc vem sendo usado com para qualificar atos em manifestações de rua. O emprego da expressão black bloc que circula na mídia povoou as redes sociais e gerou debates sobre a necessidade tática de se compor ou não black blocs nos recentes atos contra Jair Bolsonaro (sem partido). Nas manifestações do dia 3 de Julho, chegou a se levantar a possibilidade de que agentes policiais infiltrados, comumente chamados de P2, estariam incitando os manifestantes a danificar patrimônio privado. Do outro lado do debate há aqueles que defendem a tática como legítima, mas mesmo dentre esses existem os que preferem a derrubada de estátuas ao invés das vidraças de bancos e concessionárias de carro.

Além das redes sociais e dos programas televisivos, não é incomum que expressão seja usada dentro da esfera jurídica, como no caso do promotor de justiça Sérgio de Assis, que apoiou a conversão da prisão preventiva de Matheus Machado Xavier, no dia 3 de julho, fazendo uso do termo para afirmar que “filmagens referidas pela autoridade policial e os depoimentos dos agentes de segurança informam atuação de grupo denominado Black Bloc, notoriamente envolvido com a prática de crimes graves em meio a manifestações de cidadãos ordeiros e pacíficos”. No entanto, essa tática que é tantas vezes criminalizada e outras celebrada, carece de uma melhor compreensão. Para aprofundar nessa questão, entrevistei Murilo Duarte da Costa Corrêa, professor adjunto do Departamento de Direito de Estado na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e autor do livro Filosofia Black Bloc (2020, Circuito / Hedra).

Em seu livro, Murilo aborda o black bloc como “uma política que precede o ser e uma ética de composição e de encontro dos corpos”, num sentido oposto ao que se propaga no debate público. Apesar de desfazer esse e outros preconceitos despejados sobre os black blocs, ele não se basta nisso: o livro é mais uma proposição do que uma reflexão sobre a tática que aqui é compreendida como um processo reflexivo em si.

Black bloc como uma filosofia se antepõe aos falsos testemunhos sobre a incapacidade dos adeptos ao diálogo, e entrega outras questões: “Quem é capaz do diálogo? O Estado? Os congressistas, para além dos seus interesses, ou dos interesses daqueles a quem realmente representam? As polícias são capazes do diálogo? E os militares? E o mercado financeiro, os faria limers, são eles capazes do diálogo – ou entendem apenas a sua única e própria linguagem?”

Assim, Murilo nos convida a pensar não sobre os black blocs, mas junto deles.

 

Ponte – De 2013 para cá as táticas black bloc (BB) seguem sendo incorporadas em manifestações de rua no Brasil. Contudo, existe muita confusão sobre o que é black bloc, alguns trazem como sinônimo de ação direta, outros interpretam como um movimento, muitos reproduzem black bloc como tática, mas ainda pouco se explica sobre black bloc. Como você lê o BB?

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Algoritmos da política, políticas dos algoritmos

14 de maio de 2021

"Artificial whiteness": sobre a política da Inteligência Artificial


 

À primeira impressão, tudo, em Artificial Whiteness, se parece muito com os repetidos discursos críticos das tecnologias digitais e algorítmicas, que as reconhecem como um fenômeno global cercado de perigos e chances. A beleza do gesto que orienta seu livro está em não se render ao aparato crítico prêt-à-porter dos liberais-progressistas americanos, que circulam com facilidade nos salões de Estado, entre os heads das Big Techs, obtêm grants milionários e – sem jamais se perguntarem “o que de fato é” a IA – se metem a tagarelar sobre ela como “uma força posta para mudar tudo, para trazer utopia ou desastre” (Katz, 2020: 03). Outra beleza do livro de Katz está em encontrar o ponto em que a tecnofilia e a tecnofobia se mostram como o que verdadeiramente são: impotência política compartilhada; um ponto de efetivo estrangulamento que deve ser imediatamente dispensado.

Um dos argumentos mais interessantes e centrais de Artificial Whiteness: politics and ideology in Artificial Intelligence (Columbia University Press), livro publicado em 2020 pelo pesquisador do departamento de sistemas biológicos da Harvard Medical School, e doutor em ciências cognitivas pelo MIT, consiste na descrição consequente da IA como uma expressão do poder e como uma ferramenta adaptativa do projeto social e político totalizante da branquitude.

Afirmá-lo só é possível ao reconhecer uma relação ontogenética entre técnica e sociedade: “desenvolvimentos em computação são moldados por, e por sua vez também moldam, condições sociais” (Idem: 04). Isso explicaria, por exemplo, a obsessão dos pesquisadores de IA com modelos de self: numa imbricação entre psicologia e biologia, entender os tipos de seres que somos, nossos limites, nossas capacidades. Derivar loucamente numa ambição de fixar (pindown) o self, tanto para reproduzi-lo quanto para, quem sabe, ultrapassá-lo (e daí, as narrativas enfadonhas sobre o pós-humano), ou mesmo chegar a um ponto neutro da inteligência: desenvolver uma view from nowhere a fim de montar sistemas capazes de aprender, raciocinar e agir independentemente do contexto social.

O problema com esse exercício é que “A view from nowhere acabou sendo uma visão que vinha de um lugar específico, branco e privilegiado”. Ela é uma view from now-here, e também uma visão sobre as condicionantes históricas (somewhere else) que dão forma ao now-here.

Então, seria preciso situar esse mito e esse falso universal em um contexto político de mais amplo espectro, compreendendo que a IA e os sistemas de computadores se desenvolvem “em uma sociedade baseada na supremacia branca que trabalhou por reabastecer seus mitos” (Idem: 07). Assim, o que o livro de Katz oferece é antes uma imensa pergunta do que uma definição – embora as definições tampouco faltem: do que estamos falando precisamente ao dizer IA, e quando consideramos que seu desenvolvimento é inexoravelmente situado?

Katz afirma que existe uma isomorfia entre sociedades baseadas na supremacia branca – ordens raciais, ou de branquitude – e a IA. Assim, IA não é nem um conceito nem uma técnica pronta e acabada, mas “um espelho dos projetos políticos de seus técnicos e poderes investidos”. Isto é, a IA não seria, para Katz, uma tentativa veraz de dar conta do “pensamento humano” ou uma tecnologia para reproduzi-lo em máquinas (a chamada singularidade tecnológica). Sob esse pensamento humano universal demais, insiste na verdade uma tecnologia da branquitude, e esta é a tese de Artificial Whiteness.

Essa afirmação tem pelo menos duas dimensões, em que a isomorfia entre IA e branquitude se desdobra: i) Uma isomorfia morfológica: IA espelha projetos políticos da branquitude, sua ordem social como um todo; portanto, assim como as sociedades baseadas em hierarquias raciais, a IA é instável, possui uma flexibilidade ideológica relativamente incoerente; ii) Uma isomorfia estratégica: assim como as sociedades racializadas, a IA colocaria em funcionamento uma estratégia de “colcha de retalhos improvisada (makeshift patchwork)” que, apesar da mutabilidade e da inconsistência, serviria muito bem a “um conjunto estável de interesses” (Idem: 07).

Então, a relação entre IA e branquitude é a aquela entre um conjunto mutante e adaptável de técnicas computacionais e um conjunto de transformações sociais e de governança globais, isomorficamente flexíveis, relacionados a projetos como o capitalismo, o imperialismo, o patriarcado e a heteronormatividade (Idem: 09). Sua tese, em uma linha, é a de que “[IA] deveria ser vista como uma tecnologia de branquitude: uma ferramenta que não apenas seve aos objetivos da supremacia branca, mas também reflete a forma da branquitude como ideologia” (Idem: loc. cit.).

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O texto de Katz é muito forte em termos descritivos. Afirmar que a IA é uma ideia, ou um conceito, que não está dado, nem pronto ou acabado, encerra a possibilidade de uma leitura crítica socialmente situada – ligada à branquitude, a sistemas sociais racialmente ordenados, a todas as confluências estratégias que esse tipo de dominação estrutural envolve (capitalismo, imperialismo, colonialismo, machismo, heteronormatividade etc.). Por outro lado, ela franqueia uma dimensão que poderia ser melhor explorada: a IA como uma técnica mutante, ligada a uma estratégia política historicizável, e como uma expressão mutante, isomórfica a uma ideologia.

Outro ponto forte do texto está no uso de uma sócio-tecnopolítica mobilizada em sentido forte. Isso está presente tanto na afirmação de uma circularidade entre IA e estruturas sociais de branquitude (como espelho e como expressão de poder de um regime racial), quanto numa dimensão crítica que vai “além do óbvio”. Isso fica claro quando Katz dirige críticas ponderadas, mas contundentes, à cumplicidade dos teóricos e técnicos da IA, situados em um espectro político liberal ou progressista (em sentido norte-americano), com o capitalismo, o imperialismo, o racismo e ao sexismo.

A preocupação constante deles com os vieses raciais e de gênero, e com a dimensão ética da técnica, não cessa de desviá-los, segundo Katz, do real problema. E o argumento da isomorfia funciona muito bem aqui: a pretexto de impedir que sistemas de reconhecimento facial apresentem vieses de gênero ou raça, as críticas dos liberais progressistas – que muitas vezes se originam de movimentos sociais radicais – forçam os sistemas de IA a chegarem na final frontier para se aperfeiçoarem, identificando pobres, mulheres e negros com precisão, e engajando-se com ainda mais vigor em uma lógica carcerária positiva da qual todos (uns mais, outros menos) participam. Eis o paradoxo (entre ingênuo e hipócrita) em que se envolvem os teóricos e técnicos críticos de IA nos EUA.

A maneira mais positiva de explorar o que Katz escreve, para além de suas próprias premissas e preocupações demonstrativas – que já são boas o bastante –, seria procurar pensar mais profundamente a correlação (muito interessante) entre a natureza mutante da IA e das formações sociais. No fundo, o que Katz está dizendo é que a IA participa de um agenciamento concreto. Veremos que Katz dispensa a ideia de que a IA é uma técnica neutra sujeita a usos diversos como um argumento liberal porque conserva, no fundo, a ideia de que a sociedade, através da sua instabilidade estratégica, consegue se manter estruturalmente estável. A questão verdadeiramente política, a meu ver, é que esse agenciamento que envolve a IA também é mutante em si (e não apenas nos seus termos, isto é: IA e ordem social dada).

Todo o problema é que estamos diante um agenciamento concreto (branco, macho, capitalista, imperial, hétero... – a lista é interminável...) que mobiliza o aspecto mutante da IA como um subproduto e um aliado estratégico de determinados vetores políticos da ordem social. E essa ordem, com seus vetores, mudam para manter-se sempre a mesma (o sistema de privilégios, para falar como Katz).

Um uso novo, portanto, depende de um agenciamento coletivo novo; isto é, da mutação estratégica que confina o potencial mutante da IA à univocidade política de uma formação social dada. Algo com que Gilbert Simondon estaria de inteiro acordo, e Félix Guattari também, seria especular que talvez não se trate de “liberar os homens das máquinas”, mas de liberar as máquinas deste agenciamento (demasiado humano) em que o potencial mutante delas em nos afetar encontra-se desde logo bloqueado pela nossa impotência em afetá-las.

A IA não está substancialmente fadada a ser o desenvolvimento de uma view from nowhere (imaginação branca) ou limitar-se a uma view from now-here (imaginação crítica, que serve, finalmente, à primeira). No fundo, como as próprias sociedades, a IA assim como todas as tecnologias algorítimicas precisa implicar uma view from erewhon; imaginação clínica, que assume o ponto de vista do devir e a política de forçar sua emergência.

20 de março de 2021

Em que se pode reconhecer a alteridade? Política, virada narrativa e usos pragmáticos


25 de janeiro de 2021

Filosofia das máquinas de guerra: modos de usar os possíveis