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"Democracy versus people": Slavoj Žižek e o Haiti

17 janeiro, 2010




O haiti: sob os escombros, um deserto

* O texto abaixo foi escrito por Slavoj Žižek, publicado em 18.08.2008, em New Statesman e republicado em www.lacan.com. Sinto muito não poder traduzir – em pleno janeiro, o tempo anda escasso; de todo modo, creio que se poderá aproveitar algo disso. Prefiro, contudo, pensar no Haiti como um deserto a sucumbir ao espetáculo televisionado da catástrofe. Há sempre um deserto político e afectivo sob os escombros. É sempre isso que resta quando tudo foi retirado: o deserto, o corpo-sem-órgãos: o ponto em que uma vida... dá o bote na morte.

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[arquivo] - Noam Chomsky once noted that "it is only when the threat of popular participation is overcome that democratic forms can be safely contemplated". He thereby pointed at the "passivising" core of parliamentary democracy, which makes it incompatible with the direct political self- organisation and self-empowerment of the people. Direct colonial aggression or military assault are not the only ways of pacifying a "hostile" population: so long as they are backed up by sufficient levels of coercive force, international "stabilisation" missions can overcome the threat of popular participation through the apparently less abrasive tactics of "democracy promotion", "humanitarian intervention" and the "protection of human rights".

This is what makes the case of Haiti so exemplary. As Peter Hallward writes in Damming the Flood, a detailed account of the "democratic containment" of Haiti's radical politics in the past two decades, "never have the well-worn tactics of 'democracy promotion' been applied with more devastating effect than in Haiti between 2000 and 2004". One cannot miss the irony of the fact that the name of the emancipatory political movement which suffered this international pressure is Lavalas, or "flood" in Creole: it is the flood of the expropriated who overflow the gated communities that protect those who exploit them. This is why the title of Hallward's book is quite appropriate, inscribing the events in Haiti into the global tendency of new dams and walls that have been popping out everywhere since 11 September 2001, confronting us with the inner truth of "globalisation", the underlying lines of division which sustain it.

Haiti was an exception from the very beginning, from its revolutionary fight against slavery, which ended in independence in January 1804. "Only in Haiti," Hallward notes, "was the declaration of human freedom universally consistent. Only in Haiti was this declaration sustained at all costs, in direct opposition to the social order and economic logic of the day." For this reason, "there is no single event in the whole of modern history whose implications were more threatening to the dominant global order of things". The Haitian Revolution truly deserves the title of repetition of the French Revolution: led by Toussaint 'Ouverture, it was clearly "ahead of his time", "premature" and doomed to fail, yet, precisely as such, it was perhaps even more of an event than the French Revolution itself. It was the first time that an enslaved population rebelled not as a way of returning to their pre-colonial "roots", but on behalf of universal principles of freedom and equality. And a sign of the Jacobins' authenticity is that they quickly recognised the slaves' uprising - the black delegation from Haiti was enthusiastically received in the National Assembly in Paris. (As you might expect, things changed after Thermidor; in 1801 Napoleon sent a huge expeditionary force to try to regain control of the colony).

Tradução: Žižek, repressão, de Jean-Clet Martin

05 janeiro, 2010



Filósofo. Professor do Collège International de Philosophie em Paris, França. Autor de « Variations. La philosophie de Gilles Deleuze », publicado originalmente em 1993 pela coleção Petite Bibliothèque Payot.

Deleuze pensaria já como Hegel, mas sem querer – puro hegeliano reprimido. É uma tese de Žižek, em verdade, nada original, sabido que Deleuze não é nada acessível a essas categorias estreitas que constituem a repressão, ou a palavras terminadas em “...iano”. Aliás, ele não é mais bergsoniano que nietzschiano: ele é Deleuze. Um pensamento cujo percurso integra pontos e contrapontos segundo um dobramento que lhe pertence completamente, e no qual ele renova os trajetos, os limiares, em função dos conceitos que inventa. Trata-se, sobretudo, de uma maneira de retroceder seu pensamento, revelando no interior de uma filosofia algo que ali não figura, criando-se precursores, virtualidades que não existiriam não fosse essa criação.

Diríamos, melhor, que o efeito não se reduz à causa, que aquele que lê não é o reflexo daquilo que se lê, quase como se o modelo invocado não existisse em si mesmo senão pelo eco da leitura, enquanto a obra aguarda a onda capaz de renová-la por meio de um esclarecimento que marcha ao revés. Não há nada de mais pobre, pois, que procurar em uma criação os piolhos herdados de seus predecessores. Dizer, ao ler Deleuze, que Hegel já havia pensado isso ou aquilo, não é dizer coisa alguma! É duplamente mal-compreendido o processo do pensamento que passa por Hegel, ignorando o que Hegel faz, e que se passa de Deleuze, criador de conceitos que não encontramos alhures, conceitos tributários da assinatura que os caracteriza. Deleuze não é mais hegeliano que Hegel, kantiano, ou Kant, cartesiano. A história da filosofia é um lance de dados, e a queda não é jamais sem consequência sobre o lance, a ponto de modificar a força das procedências. Longe de mim a ideia de hegelianizar Deleuze ou de apontar uma “repressão” de qualquer natureza quanto à maneira deleuziana de tratar a história da filosofia.


Hegel pensa o conceito como processo e o processo como diferença. Eis o que é de todo modo importante. Deleuze, entretanto, não se reduz a essa linha.  Ele viaja uma outra, que não é nem de Platão, nem de Lacan, nem de ninguém, e que nós não saberíamos ver se nos contentássemos em rebater Deleuze sobre o já existente. É uma linha que marcha de revés e que reencontra seus precursores no ponto de sua queda. Dizer que Deleuze é hegeliano reprimido – eis uma relevante farsa da não-criação que caracteriza as grandes declarações de princípio, calamitosas quando se veem repisadas nos assim chamados meios midiáticos.


Deleuze, pensador das multiplicidades e das variações, não deve absolutamente nada a Hegel, pensador da diferença e da negatividade. Um se exercita na topologia, enquanto outro se exercita na dialética, e os dois momentos não são de mesma natureza, mesmo se um e outro contestam o Ser em nome do Devir, ou a Moral em nome da Lógica. É essa contestação que me interessa e motiva meu livro sobre um e outro. Quanto a Deleuze, ele é tomado em um pensamento que não pode ser aquele de Hegel – uma Lógica do sentido em que a distribuição é problemática, tributária de um problema cujo mapa não é superponível a Hegel, senão em certos pontos – o do movimento ou o do processo. De resto, o que faz Deleuze, sua problemática é a das multiplicidades nas quais as variáveis não se dividem sem mudar de natureza: um caos que não poderá apontar ao infinito de Hegel transfigurado por um real que não é aquele que compartilhamos com Deleuze.

JCM

PS: Aproveito esta oportunidade para esclarecer, na passagem, ainda um outro ponto: se o capitalismo tem a ver com a avidez universal pelo prazer e pelo consumo, nada há nisso, porém, de comum com o prazer, como não se cansa de afirmar Slavoj. Ele recolhe da alegria, ou da felicidade, aquilo de que a moral e o terror suspeitaram desde sempre, e que Lacan nos deixou a pensar  ainda recentemente que é impossível. O “Elogio do amor”, tão em voga, por sua suspeição açucarada das hordas desejantes, não diz mais o que é o prazer de que a filosofia fizera seu objeto de Plotino a Deleuze.


Texto originalmente publicado em língua francesa, em 20.11.2009, no blog de Jean-Clet Martin, sob o título "Zizek refoulement". O autor, muito gentilmente, autorizou-nos sua tradução e a republicação em 29.12.2009.
P.S. Em tempo, o site O Estrangeiro.net, com o qual às vezes colaboro, republicou essa tradução aqui, na seção esquizoanálise.


Slavoj Žižek, no Roda Viva (75 min)

02 janeiro, 2010




Antes da tradução do texto de Jean-Clet Martin, vale a pela conferir o Roda Viva exibido em 02.02.2009, pela TV Cultura de São Paulo, com o filósofo, sociólogo e psicanalista Slavoj Žižek. Aí vai o vídeo completo, com aproximadamente 75 minutos, de Žižek falando um inglês fluente e genuinamente ex-iuguslavo.
Quanto à sua leitura de Deleuze, antes mesmo do texto de Jean-Clet Martin, queria propor uma breve reflexão que pode iluminar essas relações – um tanto subjetivista, reconheço, mas, como me ocorreu, então, vá lá!
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É claro que Žižek acha que Deleuze é, no fundo, hegeliano, e reprimido. É claro que Deleuze discordaria tanto de uma alcunha como de outra. (A propósito, lembro do que Deleuze escrevia em Carta a um crítico severo: “você tenta me edipianizar? Injetar em mim a má-consciência?”, e isso ele escrevia muito ternamente). Está claro, também, que os deleuzianos discordam de Žižek. Mas o que me parece interessante nessa redução - em sentido químico mesmo -, que Žižek faz da filosofia de Deleuze, é o afecto; assisto a esse vídeo de Žižek, leio o texto de Martin, sonho em comprar Organs without bodies, e só consigo encontrar uma estranha ressonância em Jacques Lacan: penso em quanto Žižek deve amar Deleuze para crer que ele é, ainda que reprimido, um hegeliano... que coisa mais digna e bonita... Filosoficamente, estou com Martin: afirmá-lo, como Žižek faz, é um filosoficídio - mas não era precisamente Lacan, outro importante intercessor de Žižek, que costumava dizer que quem ama, mata? 
Ah... oui , mes amis , certainement: c’est l’amour !