Mostrando postagens com marcador Inteligência Artificial. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Inteligência Artificial. Mostrar todas as postagens

A billionformação dos mundos: Musk, Altman e o cão na vitrine

26 julho, 2023


O úmido e o vivo

Olho a noite lá fora e recolho tudo o que tenho. Dirijo-me à sentinela do quinto andar da Biblioteca Nacional Mariano Moreno, situada numa bela Babel brutalista, que um dia foi dirigida por Jorge Luis Borges, e hoje parece dirigida por seguranças terceirizados.

– “¿Te retiras?”, disse ela apanhando a caneta.

– “Sí, me retiro.”, e lhe estendo minha credencial. Ela anota 19:04, e eu lhe digo “Gracias, buenas noches”. Escuto um “A vos” enquanto caminho na direção do locker número 08.

Encasacado e de mochila nas costas, desço pelas escadas até o térreo. Lá, me aguarda uma catraca eletrônica, onde deposito o cartão que libera minha saída. Um enorme vão livre e dois lances de rampas depois, um pequeno trecho da Agüero me faz desaguar na Gen. Las Heras.

Caminho da Recoleta até o Alto Palermo. Ando por Las Heras até cruzar a Sánchez Bustamante. Logo me deparo com uma loja. Espelhos e molduras. Síntese de uma civilização global, as suas imagens narcísicas e os seus enquadres sensíveis prêt-à-emporter.

Na vitrine cheia de espelhos, em que os passantes costumam parar para tirar selfies, vejo que dois olhos me olham de volta lá de dentro. Hesito por um momento. Não consigo saber se o que me olha é uma estátua ou um cão. Tiro uma foto.


Sinto uma pequena vertigem. A aceleração de uma micro-alucinação perceptiva embaralha os sentidos. Preciso olhar mais uma vez, e outra vez, e fixamente dentro daqueles olhos. Preciso examiná-los para descobrir ali uma doce umidade, e perceber que aqueles olhos me olham de volta com vivo interesse. Um átimo depois, como mágica, a estátua começa a menear a enorme cabeça, como se tentasse captar o cheiro do estranho através da vidraça. As orelhas balançam como um feltro, que quase sinto tocar.

Eppure si muove!, pensei, e ao invés de evocar Galileu, minha cabeça foi parar muitos séculos antes, e me lembrei de Aristóteles. Embora hoje saibamos que as plantas também viajam no espaço à sua maneira, ele atribuía ao movimento, e à capacidade de locomover-se, a diferença entre a vida vegetal e a animal.

E olhando mais uma vez os seus olhos viscosos, o seu brilho incomum, me veio à mente a anamnese platônica; a metáfora do olho que se reconhece, e ao Ser, olhando-se por dentro, ou ao reconhecer a própria imagem refletida no olho de um outro. As duas mediações do “conhece-te a ti mesmo” – uma obsessão que não era nossa, mas a História mundial acabou por torná-la. Antes disso, talvez a obsessão fosse “conhece os mundos”, ou não houvesse obsessão – mas quem saberia?

E então me lembrei de Borges, em Deutsches Requiem, dizendo que todos os homens nascem aristotélicos ou platônicos; que não há debate abstrato que não seja um momento da eterna polêmica entre Platão e Aristóteles: “através dos séculos e latitudes”, escreveu ele, “mudam os nomes, os dialetos, as faces mas não os eternos antagonistas.”

Para mim, era substância demais. Ali, face a face com o indeterminado, eu não me sentia nem platônico, nem aristotélico. Não reconhecia nada. Nem a estátua, nem o cão, nem a mim mesmo no visgo escuro dos seus olhos úmidos. Não havia espelho, nem moldura. Nada de anamnese, ou hilemorfismo para encher os quadros. Ali estávamos, o cão e eu, em meio a outra coisa – como são os pequenos acontecimentos. Era só um visgo escuro, em cujo centro calmo eu via boiar um brilho especial no meio da noite. Era só um meneio curioso, uma cabeça imensa.


Agarrando usuários pelo bolso
 

Poucas horas antes, eu havia lido que Sam Altman, CEO da OpenAI, e Alex Blania, da coinvestida startup UBI, haviam lançado um batalhão de orbes pelo mundo para escanear a íris das pessoas. Em troca, elas receberiam tokens de uma criptomoeda que foi batizada de Worldcoin (WLD). Uma criptomoeda baseada em tecnologia blockchain, negociável a mercado, e que poderia subsidiar uma renda básica universal – só não se sabe como.

A aposta é de que, nos próximos anos, na medida em que a IA evolua para uma Inteligência Geral Avançada (AGI, em inglês), a IA deve criar um salto de produtividade e uma tal disrupção nas cadeias de remuneração das atividades humanas que não seria nem justo, nem moral, deixar de dar um fim à pobreza num mundo que enriquece cada vez mais.

Seus propósitos seriam, portanto, distributivos e anticocentracionários quanto à riqueza da IA. Nas palavras de Altman, “Se nós temos uma sociedade suficientemente rica para dar fim à pobreza, então nós temos a obrigação moral de encontrar um jeito de fazer isso”.

Mas os orbes, na verdade, são máquinas de certificação identitária. Na medida em que as IAs se desenvolvem a ponto de passar no teste de Turing, se torna cada vez mais difícil saber quando estamos diante de um humano ou de um não-humano, de um vivo ou de um não-vivo. Sobretudo, fica difícil saber com quem estamos falando, ou com o quê.

Ao invés de prolongarmos as proliferações dessa indeterminação, os orbes de Altman e Blania se propõem a verificar e autenticar a humanidade de cada um biometricamente. Assim que alguém encontra um orbe em New Delhi, Londres, Pretoria ou São Paulo, escaneia sua íris, recebe uma identificação única, um punhado de criptomoedas, e passa a ser um “humano verificado”. Fizeram até camisetas. Altman jura de pés juntos que a OpenAI não guarda dados das íris das pessoas, e dá a elas a opção de estocá-los de forma criptografada.

Enquanto isso, Elon Musk preparava um avanço no seu projeto de fazer do Twitter um Everything App. Musk rebatizou a plataforma objeto de uma aquisição hostil, no valor de 44 bilhões de dólares, matando a logo do passarinho. A logo havia sido criada em 2010 em homenagem a Larry T Bird, jogador do Boston Celtics.

Chega a ser irônico pensar que as fazendas de painéis solares, que estão no horizonte das alternativas de energia “limpa” para abastecer, entre outras coisas, os Teslas de Musk, sejam responsáveis por matar dezenas de milhares de pássaros nos Estados Unidos todos os anos.

Trágicas ironias à parte, Musk quer mais do que matar passarinhos azuis com o rebranding que transformou o Twitter em X Corp, e os tweets em xs. Ele quer empurrar a plataforma e seus usuários para dentro de uma nova cena de competição em que já estão o WeChat chinês, o PayTM indiano e o GoJek indonésio.

Embora o X de Musk pareça uma cópia ocidental de lógicas plataformadas de subsunção financeira e biopolítica que já existem no Leste asiático, Linda Yaccarino, CEO da X Corp., definiu X como o estado da arte dos Everything Apps: “X é o futuro estado de interatividade ilimitada – centrada em áudio, vídeo, mensagens, pagamentos e serviços bancários – criando um marketplace global para ideias, bens, serviços e oportunidades”.

Como a Meta, de Zuckerberg, X é a tentativa de fazer um mundo, mas um mundo não necessariamente à parte deste. Porque ele se instancia nos corpos, nos usuários, no seu tempo livre, na sua produtividade e força de invenção, bem como no valor dos efeitos de rede; estes, que podem dar valor, por exemplo, a uma moeda tirada do nada.

É o que, de repente, fez a Worldcoin, de Altman e Blania, adquirir alguma relevância. A partir de um empuxo neocolonialista que recrutou seu primeiro meio milhão de usuários em países de Terceiro Mundo por meio de táticas que foram descritas como “práticas de marketing enganosas”, e que “falharam em obter consentimento informado” dos usuários, o que começou como “uma base de dados biométricos dos corpos dos pobres” começa a se generalizar para todo o globo.

Isso porque a própria estratégia de Altman e Blania é fazer bola de neve com os efeitos de rede que a Worldcoin pode ajudar a desencadear: “o primeiro milhão de pessoas, os early adopters, as pessoas mais avançadas, convencem os próximos 10 milhões. Então, os próximos 10 milhões estão próximos dos normies [a subjetividade online mainstream, o “gado” da Internet]. Eles convencem os próximos 100 milhões. E estes são realmente os normies que convencem os outros poucos bilhões”, diz Blania.

Toda estratégia de negócios bem-sucedida na era das redes é, na verdade, uma gigantesca operação de silogismo social. Uma grande engenharia cibernética para se normalizar no socius, que começa levando algumas dezenas de milhares de pessoas a se engajarem e aceitarem as premissas da sua operação (geralmente, pobres e racializados do Terceiro Mundo). Então, com a mediação das ações de marketing adequadas e ajustadas ao público que se quer subsumir, os efeitos de rede fazem o resto, conseguindo embarcar uma boa parte do resto do mundo na sua propagação contaminante.

Uma moeda, como a Worldcoin, só adquire valor porque algumas pessoas a aceitam e acreditam nela; porque lhe atribuem valor, e imputam suas crenças a um instrumento de circulação social. Um pouco como as pessoas acreditam nas previsões oraculares de Musk sobre o Bitcoin. Basta que ele “tuíte” – perdão, que ele “éxe” –, e os efeitos de rede e o comportamento de rebanho dos seus seguidores funcionam como gigantescas alavancas distribuídas. Elas se encarregam de fazer com que suas profecias se tornem realidade.
 

Isso só acontece porque o que instancia o valor de uma moeda, tirada ou não do nada, é o tecido vivo e micrológico das relações estruturadas e estruturáveis entre os corpos e os vivos. Os conteúdos das suas crenças e desejos. A maior ou menor confiança que se atribui a ela, como Bruno Cava e Giuseppe Cocco explicaram em A vida da moeda.
 

O que Altman e Musk sabem bem – a par de seus primos asiáticos WeChat, PayTM  e GoJek – é que não há forma melhor de agarrar usuários do que pelo bolso. Não apenas distribuindo free money por dez segundos de scan da sua íris, mas sendo o gatekeeper dos fluxos financeiros dos usuários, seu garantidor e seu milieu privilegiado de transações.


A billionformação dos mundos


Ao contrário do que afirmam bitcoiners e fintechers, não caminhamos para uma sociedade desbancarizada, mas na direção da vertiginosa multiplicação e dispersão da bancarização e da financeirização. A horizontalização das moedas e das finanças, facilitadas por sua abstração e digitalização, andam de mãos dadas com as desterritorializações que se impõem às atividades dos corpos e dos vivos. Então, não é que os bancos desapareçam; nem que os bancos estejam por toda parte. É que tudo vira banco, inclusive nós mesmos.

Mesmo os trabalhadores precisam gerir sua carreira como ativos de capital humano, suas férias e seu tempo livre como bancos de horas, sua aposentadoria e inatividade como uma reserva de ativos para o futuro – e que não pode acabar enquanto se estiver vivo. E, nas horas vagas, os usuários ainda pilotam os aplicativos de seus bancos para gerir recursos, fazer investimentos, adquirir seguros, pagar boletos, relatar golpes cibernéticos, aderir a ofertas etc.

Na medida em que atividade, dinheiro e informação se tornam fluxos intercambiáveis e fungíveis, ficamos muito próximos do que William Burroughs descrevia em The limits of control. Há um grupo de controladores que tenta governar pelo poder do dinheiro. E mil outros grupos de usuários que não param de fugir. De passar de uma plataforma a outra. Criar fakes. Bots. Hackear usos. Cancelar contas. Deletar dados. Desertar. Migrar para outros espaços de assemblage. Voltar. E reencontrar tudo alterado.

Por um lado, o poder do dinheiro não pode ser violento. Ele é soft, modulador, um ourives da liberdade individual. Isso não faz a violência desaparecer, mas implica uma nova articulação entre dinheiro, poder e violência e, possivelmente, uma distribuição de agenciamentos desiguais entre territórios centrais e periféricos. Fazer um ecossistema de relações e fluxos consistir numa nova Umwelt, na criação de um mundo circundante, é a operação de controle que anima todas as demais.

Como nos vídeos do Mr. Beast, um jogo é arranjado e escolhe os seus competidores, que estão lá por livre e espontânea vontade, e vão se submeter a seja lá o que for que o jogo proponha – porque conservam a crença de terem uma oportunidade de jogar e ganhar, mantendo a liberdade de sair a qualquer momento.

Mas sair é perder, ou deixar de ganhar. Então, o fear of missing out governa. O dinheiro tem poder, não só porque ele cria uma estrutura, institui as regras do jogo, inventa os mundos e os informa, mas porque ele canaliza os fluxos, apela à sua liberdade, os faz ceder, tenta ganhar dos corpos pelo cansaço.

Não sei se estamos saindo do capitalismo de plataforma, ou se já atingimos uma etapa verdadeiramente monopolista, que Nick Srnicek chamou de “Platform Wars”. O que a atual fase do desenvolvimento do capitalismo deixa claro são duas coisas. Primeira, que vivemos a época da billionformação dos mundos. Não é, nem nunca foi, sobre terraformar Marte, ou a própria terra – mais e mais informe a cada ano do Capitaloceno. Sempre foi sobre billionformar os mundos. Sobre o poder do dinheiro e o poder dos grupos de controle.

Segunda, que a billionformação dos mundos não nos deixará sair das antigas hierarquias e dimorfismos, nem das racializações, embora suas técnicas contenham (no duplo sentido de possuir e limitar) o potencial para produzir esse êxodo. Ainda que, nas técnicas de controle, nada esteja determinado de uma vez por todas.

Isso fica claro nos orbes autenticadores de humanos de Altman. Nos everything  apps que já estão entre nós. Os controladores não podem deixar espaços nos controles, como a indeterminação que faz a percepção hesitar entre o deserto apagado do olhar de uma estátua e os olhos úmidos e vivos de um cão. Precisamos saber, sempre, em que mundo estamos. Precisamos saber de onde procede o que estamos vendo, e com quem, ou com o quê, estamos falando.

Que os índices biométricos e, no fundo, os corpos, funcionem como as instâncias que permitem verificar os humanos é prenhe de consequências. Basta lembrar que Roberto Esposito, em Persons and things, afirmou que o corpo era precisamente o limiar de indeterminação entre pessoas e coisas que tornava possível determinar a diferença significante entre uma pessoa e uma coisa na experiência do direito romano antigo.

O corpo de um escravizado, então, pode ser mais coisa do que pessoa, e estar suscetível à apropriação e à circulação em dado regime. O corpo de um cidadão pode ser mais pessoa do que coisa, e ter seu corpo e sua personalidade gravado pela indisponibilidade de certos direitos sobre o próprio corpo.

Tomando os corpos como substância estável, toda natureza e todo artifício podem ser verificados num dimorfismo, e isso nos deixa a sós com os ecossistemas da billionformação dos mundos. O sistema só diz “sim” às alucinações perceptivas programadas, e nenhuma delas muda nada. Nenhuma alteração de mundos é permitida. Assim como os controles, o corpo aparece como a sede da determinação dos dimorfismos e como leito de indeterminação que poderia levar a novas lutas.

Por isso, deveríamos nos perguntar o que acontece quando tudo devém-banco, ou fluxos financeiros livres. Quando a atividade do vivo, a informação e o dinheiro se tornam perfeitamente intercambiáveis. Acontece a billionformação dos mundos. Bilhões são gastos na esperança de fazer trilhões concorrerem para dentro do mesmo meio, da mesma plataforma, participando constitutivamente de um mesmo ecossistema de relações a que o dinheiro dá consistência.

Já não é mais o capitalismo liberando fluxos com uma mão e axiomatizando com a outra. São os bilionários liquidando o mundo com uma mão e destilando mundos com a outra.

A única boa notícia, que Burroughs percebeu com precedência, é que embora o dinheiro tenha poder, os controles não são totalmente determinados pelo dinheiro. Aliás, nem o dinheiro é determinado pelo dinheiro – mas pelas relações e pelos corpos, pelas curvas de crença, confiança e desejo.

Isso insere um vetor de indeterminação social e pragmática na equação dos mundos billionformados que estão na soleira das nossas portas. Mais que isso, o impasse dos controles, sob pena de se autossuprimirem, é o controlar sem jamais poderem ir até o fim do domínio da vontade, ou na automação do desejo.

Para mim, bastou o encontro com um cão na vitrine. Mas eu me pergunto que evento de percepção será necessário para entendermos que aí está toda a política do nosso tempo. As lutas pelos ritmos das modulações da vida e dos mundos. E que somos nós contra eles. Os grupos de usuários contra o grupos dos controladores.

Regular ou não regular a Inteligência Artificial?

10 julho, 2023


 

Como politizar a discussão sobre a regulação da Inteligência Artificial? 

Este vídeo situa o papel da regulação na fase atual do desenvolvimento do capitalismo contemporâneo a partir de Foucault e Lazzarato. Isso nos distancia do falso dilema que parece se impor, entre um excesso de regulação (ou de Estado) e um excesso de livre iniciatica (ou de mercado). 

Em seguida, mostra como a desregulação pode ser compreendida como função da regulação e como fator de constituição de um domínio econômico. 

Num terceiro momento, situa e discute a regulação da IA, contextualizando o aparente paradoxo da atual indústria. 

Por um lado, modelos de inteligência artificial não cessam de ser liberados e distribuídos nas mãos das pessoas, tornando-se uma força produtiva imediata; por outro, bilionários, cientistas e empresas responsáveis lançam cartas e manifestos pedindo uma moratória - isto é, um freio no seu desenvolvimento. 

Por fim, tenta delinear algumas linhas de ataque biopolítico face ao problema, articulando o nível das lutas e o nível das políticas públicas. 

Hipóteses, delineamentos ou "chutes" sobre algumas das direções segundo as quais o social poderia impor desenvolvimentos antagonistas ao controle das Big Techs.

 

Link para o VanFilosofia: <https://youtu.be/C7n5CVx1q0A>

ChatGPT. Novas ecologias de relações, trabalho e renda

25 junho, 2023

 

Este vídeo contém a palestra "ChatGPT. Novas ecologias de relações, trabalho e renda", apresentada em 22.06.2023 a convite do IHU Ideias, Unisinos. 

 A versão completa, com perguntas, está acessível no canal do@ihucomunica :    • ChatGPT. Novas ec...   

* Alguns textos de referência: 

- Pierre Lévy. As tecnologias da inteligência. São Paulo, Editora 34.

- Karl Marx. Grundrisse. São Paulo: Boitempo. 

- Vladan Joler e Matteo Pasquinelli. The nooscope manifested. Disponível em: https://nooscope.ai/ - Félix Guattari. Lignes de fuite. Paris: L'Aube. 

- Yann Moulier-Boutang. La lune de la grande démission, le doigt de la valeur-travail. https://www.multitudes.net/la-lune-de... 

Tradução de uma versão inicial em português: https://revistas.ufrj.br/index.php/lc... 

- Como as novas configurações tecnológicas reconfiguram as lutas sociais? Entrevista especial com Bruno Cava, Carolina Salomão e Murilo Duarte: https://www.ihu.unisinos.br/categoria... 

- Murilo Duarte Costa Corrêa. Chapação maquínica, alucinação estatística. Pensar como o Chat GPT: https://www.ihu.unisinos.br/categoria...

"isso vai dar repercussão"

06 maio, 2023

Isso vai dar repercussão (2004) é o título de um álbum do percussionista Naná Vasconcelos e do cantor, ator, baixista, compositor e poeta Itamar Assumpção. Pequena joia da genialidade negra brasileira. Ou, como diria um outro projeto de Itamar, joia da genialidade Pretobras.

Acabei me lembrando desse álbum - e vou levar seu título de "arrastão" para esse post. Vocês já vão entender o porquê.

Arrastão era a estética que Tom Zé reivindicava em Esteticar, faixa de Com defeito de fabricação (1998) - o álbum que me deu o dom de conhecer sua música no início dos anos 2000. Coincidência ou não, esse álbum explorava a possibilidade de os humanos se tornarem androides, mas defeitos "genéticos" - como o desejo de dançar - talvez pudessem impedi-lo. É o tema da sobrecodificação, do capitalismo mundial como força de organização de uma semiótica mista que afeta, conforma e conflagra territórios  existenciais. O álbum foi produzido, entre outros, por David Byrne - que poucos anos antes, havia descoberto Estudando o samba (1976) [Playlist], de Tom Zé, num sebo carioca, e mais tarde ajudaria a tirar Tom Zé tanto do ostracismo quanto da penúria.


Mas, cutting right to the chase, tudo isso importa porque esse post é quase um autoplágio - prática que é condenada e celebrada hipocritamente nos meios acadêmicos. Porque os que mais condenam o autoplágio são os que mais se autocitam.

Parece errado levar de arrastão uma coisa de si mesmo. Não é uma violação da lei da inovação, mas um ódio à própria possibilidade de repetir. E o paradoxo está precisamente aí:

- Nada de autoplágio. Esquentou a marmitinha de ideias uma vez, come logo. Está proibido requentar;

- Autocitação, tudo bem, mas moderadamente.

- Republicações, quem quer saber? (Spoiler: eu quero. Porque elas me dizem como um conjunto de ideais circula no regime de nonrivalry da informação).

Esse é um dos sistemas mais malucos que existem, o acadêmico. Porque impede de perseguir sadiamente aquilo que é a força do nosso trabalho: a obsessão. Impede que a pesquisa seja, também, uma clínica de si mesmo e dos outros. A força de obsessão é uma certa ideia fixa. Não era o narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas quem rogava: "Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa!"?

Uma ideia fixa nunca é uma ideia, e jamais é fixa. Ela esconde uma pluralidade de repetições discretas, íntimas, imperpectíveis. Uma série de deslocamentos insensíveis, de reviravoltas na maneira de perceber e de colocar problemas. Uma ideia fixa contém inumeráveis repetições capazes de fazer diferença (essa não era a definição de informação para Bateson? "Uma diferença que faz a diferença?").

Mas, claro, os sacanas das boas maneiras editoriais vão nos impor ler x, y, w, z, fazer todo um escarcéu da literatura secundária, inventar um cânone ali onde ele sequer existe como tal - e, talvez, até bendizer as repressões intelectuais, os quadradismos e o culto das formas científicas porque - sem o saber -, elas produzem fugas e deformidades que podem de fato se revelarem maravilhosas! Isso, é claro, quando não produzem mais do menos - o que, reconheçamos, é o mais frequente. É a doença de todo dia. O nome da patologia é "diferença que só produz repetição" (autocitação autolaudatória). A saúde - preciso dizer? - é o exato oposto (autoplágio, divergência no arrastão de si).

Mas por que divago?

Porque quero compartilhar alguns links com vocês. Celebrar a repetição em rede, que arrisca produzir mais com menos. São links para dois textos que vocês já conhecem:

A Edição n. 66 da Lugar Comum (UFRJ) acabou de republicar:

1. Chapação maquínica, alucinação estatística: pensar com o Chat GPT;

2. A entrevista com Bruno Cava, Carol Salomão e comigo, saída no IHU.

É um número, muito para além disso, fenomenal em si mesmo. E destaco (entre outros) os textos de Bárbara Szaniecki, o núcleo temático sobre IA - textos de Mathieu Corteel, Bruno Cava e Lucio Mello -, e o texto de Yann Moulier-Boutang sobre A grande demissão. E tem muito mais coisa nesse número que contou com o trabalho editorial da Carol Salomão.

Mas o mais interessante - e voltamos ao título desse post -, é como essa entrevista tem repercutido em meios de trabalhadorxs organizadxs e meios universitários muito heterogêneos para nós e entre si.  Até agora, isso (Ça?) "deu repercussão" no:

- Fórum Acidentes de Trabalho da USP-UNESP;
- Centro de Estudos Estratégicos da FioCruz;
- Democracia e mundo do trabalho em debate (pesquisadores independentres);
- Fetraconspar (Federação dos trabalhadores da Ind. e Com. do Paraná);
- Nova Central Sindical de Trabalhadores do Estado do Paraná; além, é claro, do IHU (Unisinos), a que somos muito gratos.

Então, podem escolher o link mais ergonômico para ler essa proliferação que, "logo menos", também chega na forma dos eps. #5 e #6 do podcast Chapação maquínica. E aproveitem para se perder entre as navegações do n. 66 da Lugar Comum.

Até lá, ou até logo ali!

Inteligência Artificial e lutas sociais: trabalho e novas tecnologias

02 maio, 2023



Ontem, no dia Internacional do Trabalhador, o Instituto Humanitas (Ihu, Unisinos) publicou uma longa entrevista com Bruno Cava, Caroina Salomão e comigo, Murilo Duarte (aka Murilo Corrêa, ou como queiram, kkkk) sobre novas tecnologias, inteligência artificial e as lutas sociais, especialmente sua reconfiguração no campo do trabalho.O trabalho jornalístico é de Patricia Fachin e João Vitor Santos.

Os links de acesso estão abaixo, seguidos de um teaser escrito por Patricia e João Vitor.

* Link 1: <https://www.academia.edu/101110386/Novas_tecnologias_e_lutas_sociais_IHU_entrevista_com_Bruno_Cava_Carolina_Salomao_e_Murilo_Duarte>

* Link 2: <https://www.ihu.unisinos.br/628277-como-as-novas-configuracoes-tecnologicas-reconfiguram-as-lutas-sociais-uma-questao-para-refletir-no-dia-do-trabalhador-entrevista-especial-com-bruno-cava-carolina-salomao-e-murilo-duarte>

 

Como as lutas dos trabalhadores e trabalhadoras serão transformadas com a incorporação da Inteligência Artificial – IA no mundo do trabalho é o "x da questão" a ser investigado neste momento em que a aceleração tecnológica tem modificado não só o trabalho, mas também diversas esferas da vida humana. "Essa é a pergunta que menos temos ouvido ser formulada a respeito da incorporação massiva das tecnologias de IA no cotidiano das atividades, que incluem o trabalho assalariado, mas, evidentemente, se referem a horizontes muito mais amplos de ação. Para nós, a questão de fundo de toda essa discussão é renitente: como compreender as condições em que já estamos de tal forma que essa compreensão sirva para articular lutas, para reconhecer as transformações por que passam hoje, e por onde as lutas escoam nessas novas condições. Isto é, como as novas configurações tecnológicas reconfiguram as lutas, e como as lutas podem avançar por sua vez reconfigurações do presente", sublinham Bruno Cava, Carolina Salomão e Murilo Duarte, integrantes do podcast Chapação Maquínica, na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Neste 1º de maio, Dia do Trabalhador, os pesquisadores refletem sobre os efeitos da aceleração tecnológica no mercado de trabalho e propõem uma terceira via de olhar para esta realidade, em contraposição aos dois polos do debate: o "deslumbramento-diurno-iluminista", apregoado "por vertentes progressistas eufóricas que não enxergam futuro nas lutas dos trabalhadores que não estejam alinhadas às tendências industriais e pós-industriais", e o "depressivo-noturno-romântico", "ocupado por críticos românticos ou antimodernos, que desde as fornalhas da revolução industrial vaticinam criaturas monstruosas e moinhos satânicos tomando o lugar dos seres humanos e suas relações concretas". Essa polarização, pontuam, "própria da modernidade, funciona como um transtorno ciclotímico: o primeiro momento tecnutópico da adesão incontida ao desenvolvimento das tecnologias é seguido pelo momento tecnofóbico, marcado pela percepção agônica e a sensação de dilaceramento ante perturbações e mazelas técnicas".

Outra via de examinar o impacto das máquinas no mundo do trabalho, asseguram, consiste em recolocar o problema, uma vez que os dois polos "tropeçam na mesma pedra". "O problema não está, propriamente, nas tecnologias em si (meios de produção), mas no sistema de organização da sociedade e do trabalho (modo de produção), que compele as máquinas a serem dispostas em oposição ao humano, ou seja, voltadas a comprimir os salários e aumentar a taxa de exploração por meio do mais-valor relativo". Outra parte da abordagem do problema, acrescentam, "depende de políticas públicas desenhadas para amparar os trabalhadores sem as mesmas condições de adaptação, políticas voltadas a compensar os desarranjos estruturais, com a redução da jornada de trabalho e mais direitos".

Se, no futuro próximo, reiteram, os empregos desaparecem numa "velocidade impossível de ser acompanhada por políticas públicas de requalificação do capital humano", será fundamental investir em políticas de renda. "A aparente parada econômica, seguida do que Giuseppe Cocco chamou de sua 'aceleração algorítmica', que vimos acontecer durante os lockdowns da pandemia de covid-19, mostrou que não estamos nem um pouco preocupados com o trabalho, mas com a renda. Ela é a questão transversal que atravessa as lutas do século XXI, que continuam a ser um conjunto de lutas biopolíticas num meio tecnopolítico, em que vida e técnica se atravessam, constituem e bloqueiam mutuamente", concluem.

"Artificial whiteness": sobre a política da Inteligência Artificial

14 maio, 2021


 

À primeira impressão, tudo, em Artificial Whiteness, se parece muito com os repetidos discursos críticos das tecnologias digitais e algorítmicas, que as reconhecem como um fenômeno global cercado de perigos e chances. A beleza do gesto que orienta seu livro está em não se render ao aparato crítico prêt-à-porter dos liberais-progressistas americanos, que circulam com facilidade nos salões de Estado, entre os heads das Big Techs, obtêm grants milionários e – sem jamais se perguntarem “o que de fato é” a IA – se metem a tagarelar sobre ela como “uma força posta para mudar tudo, para trazer utopia ou desastre” (Katz, 2020: 03). Outra beleza do livro de Katz está em encontrar o ponto em que a tecnofilia e a tecnofobia se mostram como o que verdadeiramente são: impotência política compartilhada; um ponto de efetivo estrangulamento que deve ser imediatamente dispensado.

Um dos argumentos mais interessantes e centrais de Artificial Whiteness: politics and ideology in Artificial Intelligence (Columbia University Press), livro publicado em 2020 pelo pesquisador do departamento de sistemas biológicos da Harvard Medical School, e doutor em ciências cognitivas pelo MIT, consiste na descrição consequente da IA como uma expressão do poder e como uma ferramenta adaptativa do projeto social e político totalizante da branquitude.

Afirmá-lo só é possível ao reconhecer uma relação ontogenética entre técnica e sociedade: “desenvolvimentos em computação são moldados por, e por sua vez também moldam, condições sociais” (Idem: 04). Isso explicaria, por exemplo, a obsessão dos pesquisadores de IA com modelos de self: numa imbricação entre psicologia e biologia, entender os tipos de seres que somos, nossos limites, nossas capacidades. Derivar loucamente numa ambição de fixar (pindown) o self, tanto para reproduzi-lo quanto para, quem sabe, ultrapassá-lo (e daí, as narrativas enfadonhas sobre o pós-humano), ou mesmo chegar a um ponto neutro da inteligência: desenvolver uma view from nowhere a fim de montar sistemas capazes de aprender, raciocinar e agir independentemente do contexto social.

O problema com esse exercício é que “A view from nowhere acabou sendo uma visão que vinha de um lugar específico, branco e privilegiado”. Ela é uma view from now-here, e também uma visão sobre as condicionantes históricas (somewhere else) que dão forma ao now-here.

Então, seria preciso situar esse mito e esse falso universal em um contexto político de mais amplo espectro, compreendendo que a IA e os sistemas de computadores se desenvolvem “em uma sociedade baseada na supremacia branca que trabalhou por reabastecer seus mitos” (Idem: 07). Assim, o que o livro de Katz oferece é antes uma imensa pergunta do que uma definição – embora as definições tampouco faltem: do que estamos falando precisamente ao dizer IA, e quando consideramos que seu desenvolvimento é inexoravelmente situado?

Katz afirma que existe uma isomorfia entre sociedades baseadas na supremacia branca – ordens raciais, ou de branquitude – e a IA. Assim, IA não é nem um conceito nem uma técnica pronta e acabada, mas “um espelho dos projetos políticos de seus técnicos e poderes investidos”. Isto é, a IA não seria, para Katz, uma tentativa veraz de dar conta do “pensamento humano” ou uma tecnologia para reproduzi-lo em máquinas (a chamada singularidade tecnológica). Sob esse pensamento humano universal demais, insiste na verdade uma tecnologia da branquitude, e esta é a tese de Artificial Whiteness.

Essa afirmação tem pelo menos duas dimensões, em que a isomorfia entre IA e branquitude se desdobra: i) Uma isomorfia morfológica: IA espelha projetos políticos da branquitude, sua ordem social como um todo; portanto, assim como as sociedades baseadas em hierarquias raciais, a IA é instável, possui uma flexibilidade ideológica relativamente incoerente; ii) Uma isomorfia estratégica: assim como as sociedades racializadas, a IA colocaria em funcionamento uma estratégia de “colcha de retalhos improvisada (makeshift patchwork)” que, apesar da mutabilidade e da inconsistência, serviria muito bem a “um conjunto estável de interesses” (Idem: 07).

Então, a relação entre IA e branquitude é a aquela entre um conjunto mutante e adaptável de técnicas computacionais e um conjunto de transformações sociais e de governança globais, isomorficamente flexíveis, relacionados a projetos como o capitalismo, o imperialismo, o patriarcado e a heteronormatividade (Idem: 09). Sua tese, em uma linha, é a de que “[IA] deveria ser vista como uma tecnologia de branquitude: uma ferramenta que não apenas seve aos objetivos da supremacia branca, mas também reflete a forma da branquitude como ideologia” (Idem: loc. cit.).

*

O texto de Katz é muito forte em termos descritivos. Afirmar que a IA é uma ideia, ou um conceito, que não está dado, nem pronto ou acabado, encerra a possibilidade de uma leitura crítica socialmente situada – ligada à branquitude, a sistemas sociais racialmente ordenados, a todas as confluências estratégias que esse tipo de dominação estrutural envolve (capitalismo, imperialismo, colonialismo, machismo, heteronormatividade etc.). Por outro lado, ela franqueia uma dimensão que poderia ser melhor explorada: a IA como uma técnica mutante, ligada a uma estratégia política historicizável, e como uma expressão mutante, isomórfica a uma ideologia.

Outro ponto forte do texto está no uso de uma sócio-tecnopolítica mobilizada em sentido forte. Isso está presente tanto na afirmação de uma circularidade entre IA e estruturas sociais de branquitude (como espelho e como expressão de poder de um regime racial), quanto numa dimensão crítica que vai “além do óbvio”. Isso fica claro quando Katz dirige críticas ponderadas, mas contundentes, à cumplicidade dos teóricos e técnicos da IA, situados em um espectro político liberal ou progressista (em sentido norte-americano), com o capitalismo, o imperialismo, o racismo e ao sexismo.

A preocupação constante deles com os vieses raciais e de gênero, e com a dimensão ética da técnica, não cessa de desviá-los, segundo Katz, do real problema. E o argumento da isomorfia funciona muito bem aqui: a pretexto de impedir que sistemas de reconhecimento facial apresentem vieses de gênero ou raça, as críticas dos liberais progressistas – que muitas vezes se originam de movimentos sociais radicais – forçam os sistemas de IA a chegarem na final frontier para se aperfeiçoarem, identificando pobres, mulheres e negros com precisão, e engajando-se com ainda mais vigor em uma lógica carcerária positiva da qual todos (uns mais, outros menos) participam. Eis o paradoxo (entre ingênuo e hipócrita) em que se envolvem os teóricos e técnicos críticos de IA nos EUA.

A maneira mais positiva de explorar o que Katz escreve, para além de suas próprias premissas e preocupações demonstrativas – que já são boas o bastante –, seria procurar pensar mais profundamente a correlação (muito interessante) entre a natureza mutante da IA e das formações sociais. No fundo, o que Katz está dizendo é que a IA participa de um agenciamento concreto. Veremos que Katz dispensa a ideia de que a IA é uma técnica neutra sujeita a usos diversos como um argumento liberal porque conserva, no fundo, a ideia de que a sociedade, através da sua instabilidade estratégica, consegue se manter estruturalmente estável. A questão verdadeiramente política, a meu ver, é que esse agenciamento que envolve a IA também é mutante em si (e não apenas nos seus termos, isto é: IA e ordem social dada).

Todo o problema é que estamos diante um agenciamento concreto (branco, macho, capitalista, imperial, hétero... – a lista é interminável...) que mobiliza o aspecto mutante da IA como um subproduto e um aliado estratégico de determinados vetores políticos da ordem social. E essa ordem, com seus vetores, mudam para manter-se sempre a mesma (o sistema de privilégios, para falar como Katz).

Um uso novo, portanto, depende de um agenciamento coletivo novo; isto é, da mutação estratégica que confina o potencial mutante da IA à univocidade política de uma formação social dada. Algo com que Gilbert Simondon estaria de inteiro acordo, e Félix Guattari também, seria especular que talvez não se trate de “liberar os homens das máquinas”, mas de liberar as máquinas deste agenciamento (demasiado humano) em que o potencial mutante delas em nos afetar encontra-se desde logo bloqueado pela nossa impotência em afetá-las.

A IA não está substancialmente fadada a ser o desenvolvimento de uma view from nowhere (imaginação branca) ou limitar-se a uma view from now-here (imaginação crítica, que serve, finalmente, à primeira). No fundo, como as próprias sociedades, a IA assim como todas as tecnologias algorítimicas precisa implicar uma view from erewhon; imaginação clínica, que assume o ponto de vista do devir e a política de forçar sua emergência.