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Cosmo, vida e velamento: “Criação imperfeita”, de Marcelo Gleiser

26 março, 2010


  


[resenha / lançamento] - O físico e professor da Dartmouth University, Hanover, nos Estados Unidos, Marcelo Gleiser, lançou, há pouco, o livro Criação imperfeita: cosmo, vida e código oculto da natureza, pela Editora Record. O prefácio e o primeiro capítulo podem ser lidos em PDF aqui. Gleiser é doutor em física pela University of London, realiza pesquisas na área de filosofia das ciências, e é conhecido por buscar tornar acessíveis ao grande público algumas investigações científicas que possuem raízes no seio da cultura ocidental, e que podem ser consideradas como uma espécie de extensão dela: “quem somos?”, “de onde viemos?” e “para onde vamos?”.
A sofisticação das funções e proposições científicas, sua linguagem própria, apela à partilha do saber preconizada por Gleiser. Para isso, o professor de filosofia natural utiliza uma linguagem que mistura o poético, o concreto e o quotidiano, envolvendo o leitor desde a primeira página em uma leitura agradável e interessante. Esses problemas (“quem somos?”, “de onde viemos?” e “para onde vamos?”), aparentemente tão ingênuos, mas ao mesmo tempo, insolvidos até hoje por nossa tradição ocidental de pensamento – que já apelou desde a soluções metafísicas e impalpáveis até a obturação dos possíveis pela proposição de uma realidade confundida com o puramente atual – nos permitem atravessar, ombro a ombro com Gleiser, em direção a uma outra margem; precisamente, a das funções e proposições próprias ao conhecimento epistêmico.
A proposta é das mais instigantes: abandonarmos definitivamente, ao pensar cientificamente, a noção de uma ordem transcendente à natureza, organizadora, para conceber uma espécie de imperfeição imanente, caótica, plena de possibilidades, sempre-aberta ao novo. Evidentemente, trata-se de um ponto de partida filosófico para passar à ciência, que já não pleiteia uma objetividade absoluta, mas tampouco admite a ingerência da subjetividade racionalista e organizadora do caosmos, para utilizar uma expressão cara a F. Guattari.
Ao contrário de apegar-se à razão como uma forma organizadora daquilo que existe, procurando uma lei ou uma ordem para o mundo natural, supondo-o exterior à natureza humana, o livro de Gleiser nos auxilia a perceber que, no fundo da natureza-naturante - o movimento, a um só tempo, criador e destruidor que a filosofia de Heráclito supunha, e que nos fora legado em um seu fragmento insólito (physis philein krypthestai) [1] -, há uma solidariedade unívoca com o organismos e com os verdadeiros acidentes que são o plaeta terra, os homens e a vida inteligente no corpo inorgânico do cosmos.
Matéria organizada e inorganizada, orgânica e inorgânica, como já as encontramos na filosofia de Henri Bergson, não passam de duas linhas divergentes que expressam diferencialmente um só movimento do cosmo; movimento, esse, que se confunde com a radical imprevisibilidade dos devires. A intuição dessa íntima e singular solidariedade entre os homens, o pensamento e a natureza permite a Gleiser dar-nos algo em que pensar: como essa reformulação de uma solidariedade imanente e íntima entre cosmo, vida e velamento da natureza poderiam auxiliar-nos a repensar a fundamentação das ciências, da ética e da ecologia, já que são precisamente os acidentes de que participamos no seio da natureza que nos fazem absolutamente singulares?


[1] Como Pierre Hadot observa, physis philein krypthestai, pode ter significado tanto “a natureza ama/tende a ocultar-se” quanto “aquilo que nasce deve perecer”. HADOT, Pierre. O véu de Ísis. Ensaio sobre a história da ideia de natureza. Tradução de Mariana Sérvulo. São Paulo: Loyola, 2006, p. 27-34.

Poéticas do devir: Heráclito e Jorge Luis Borges

26 novembro, 2009




Fragmentos
de Heráclito
 “Transformando-se, repousa.” (Heráclito, Fragm. 82);
“O mesmo é vivo e morto, vivendo-morrendo a vigília e o sono, tanto novo como velho; pois estes se alterando são aqueles, e aqueles se modificando são estes.” (Heráclito, Fragm. 88);
“Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio.” (Heráclito, Fragm. 91);
“O frio se esquenta, o quente se esfria, o úmido seca, o seco se umidifica.” (Heráclito, Fragm. 126).

*  *  *

Arte Poetica
de Jorge Luis Borges

Mirar el río hecho de tiempo y agua
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
en una música, un rumor y un símbolo,

ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre.
La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
Y es otro, como el río interminable.


*  *  *
Uma prosa sobre o tempo
por Murilo Duarte Costa Corrêa

O devir é o que põe em movimento a substância, sem confundir-se com seu movimento, nem com a substância mesma; o devir é o princípio do movimento, o que o faz principiar, um seu começo. Por isso, Borges escreve “el rio hecho de tiempo y água”. O rio não é feito só de água; no fluir da água está o fluir do tempo – de um tempo que não é uma sucessão de instantes, mas precisamente um diferenciador de instantes que se sucedem: o tempo real não se confunde com os instantes, mas passa entre um instante e outro. É, como já ouvi Deleuze dizer a respeito da diferença, “o precursor sombrio, o entretempo”. O tempo é um outro rio, e flui por si, sem ser sustentado nem fundado: o tempo é imanente apenas a si mesmo. Perdemo-nos como o rio; os rostos perdem-se, esfumam-se, deformam-se, “pasan como el água.” A substância real é o contínuo passar daquilo que passa. O tempo é eterno, mas não sob a forma do mesmo – sob a forma do diferenciar. A vigília é o sonho que sonha em não sonhar, em “ver en la muerte el sueño.” A morte é a possibilidade de nos tornarmos apenas sonhadores inconscientes, sem vigília, sem sonharmos em não mais sonhar. Morrer é viver o sonho, devir inconsciente – encontrar em si a íntima solidariedade inorgância que sentimos com a dureza das pedras que ladeiam os rios. A poesia, imortal e pobre, é como o devir, e retorna: “vuelve como la aurora y el ocaso.” Como o rio interminável que permanece passando, assim como o tempo presente - como a inconstância de um Heráclito que diz “o ser é fogo, que tudo consome” -, a arte é, diz Borges, “como el rio interminable.”, “es el mismo / Y es otro.” O mesmo e outro, a arte é o que é o mesmo e o outro; a arte é o presente, que é o mesmo e o outro: rio interminável: o que fica e, ficando, passa; o que passa e, passando, fica em seu pasearse.