Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens

O grau zero: o que significa votar em Tiririca?

03 setembro, 2010




“Então, meus senhores, já viram alguém gabar-se das suas doenças, e mais, bazofiar com elas?”
Fiódor Dostoiévski, In: Cadernos do subterrâneo.

“[...] man-
tenho fe-
chado o que arru-
íno;”.
Pádua Fernandes, Do único senhor dos senhorios, glebas, ofícios, céus, casas e frutos. In: Cinco lugares da fúria.


O horário eleitoral obrigatório é prenhe de pequenos e grandes mamíferos tão notáveis quanto anódinos. Entre as bizarrices deste ano, a fim de limitar-me aos candidatos a Deputado Estadual, Federal e Senador por São Paulo, poderíamos citar Ronaldo Ésper, Marcelinho Carioca, Maguila, “Mulher Pêra”, Agnaldo Timóteo, Raul Gil Júnior, Frank Aguiar, Netinho de Paula, (se não estou enganado) o “K” e o “L” daquele Beegees tropicaliente com baixo custo orçamentário e falsetes sopranos de tipo asmático (o KLB, lembra? Não? Sorte a sua...), e assim por diante, quase indefinidamente. Ainda, há, também, o Tiririca, candidato a Deputado Federal por São Paulo.
Quase não tenho dúvidas de que Tiririca será eleito. Aparece na televisão e diz: “O que é que faz um Deputado Federal? Na realidade, eu não sei. Mas vote em mim que eu te conto.”; ou “eu já construí muitas escolas... era servente de pedreiro”, ou então, o bordão “Pior não fica. Vote no Tiririca”...
Diante das excelentes opções – desde as mais tradicionais, à la “Dr.” Paulo Salim Maluf até D. Luiza Erundina, chegando às menos convencionais, do tipo “Netinho de Paula, dos manos da COHAB, da periferia comunista”, ou “Maguila defendendo a educação e o esporte contra o crack”, não será digno de estranheza que Tiririca seja eleito. Não porque se trate do político cínico por excelência; nem por ser uma figura midiática, ubuesca, desdentada, incompetente e farisaica; tampouco porque “o povo se identifica” com o palhaço; mas, simplesmente, porque Tiririca não significa: o palhaço é puro significante.
De Kafka a Dostoiévski, há toda uma literatura que relaciona o escárnio e as figuras de poder. Clastres e Foucault nos advertiram de que a zombaria que sempre rondou o soberano político nunca significara uma simples desqualificação do poder, mas a prova de sua mais absoluta incontornabilidade.
Tiririca é um político, sim, e paradigmático. Uma espécie de resto, de irredutível, presentificado em quase todo discurso eleitoral brasileiro contemporâneo. Os vãos do discurso do palhaço – a figura infantil e, ao mesmo tempo, assustadora e digna de horror que é o palhaço -, marca o momento em que o soberano político se torna indiscernível em relação ao bobo da corte; eis o que deixa à mostra os vazios da maioria dos significantes eleitorais mediatizados pelas campanhas televisivas.
Os signos são “a felicidade”, “a sustentabilidade”, “a continuidade”, “o futuro, o progresso”, “o bem comum”, “a família”, “a segurança”. Nada disso significa, no entanto. Quando Tiririca diz “o povo não é palhaço. Eu sou! Vote no abestado!”, rindo, reencarna o cinismo fundador da soberania: o cinismo que protege todo o vivente ao preço de subjugá-lo ao poder da morte que cabe, unicamente, ao soberano; que, ao prometer a felicidade, captura, como diria Giorgio Agamben, esse desejo demasiadamente humano no próprio princípio de sua governamentalidade. Arrepia-me ouvir um político determinando que devo – e como devo! – gozar e ser feliz, porque gozar e ser feliz, em quaisquer acepções eleitorais, nada significam. São signos vazios, impotentes.
Votar em Tiririca não é uma opção menos consequente do que votar em quase qualquer outro candidato, e é isso o que prova a profundidade de nossa crise política. Aqueles que votarão em Tiririca como forma de protesto apenas chancelam aquilo que Tiririca melhor pode representar: uma espécie de grau zero do discurso eleitoral brasileiro. Sua fala reticente, aberta, vazia, por vezes incongruente, não passa de um instante resplandecente desse vazio que povoa boa parte do discurso eleitoral brasileiro. Esse é o indício de que, no Brasil, enquanto os discursos políticos são permanentemente desintensificados e desalojados, os discursos eleitorais tomam seu lugar e, esvaziando-os, implantam os aparatos linguísticos mais heterogêneos - desde a “gestão à moda empresarial” da coisa pública até a moralidade subterrânea de uma ficha limpa com a mesma água com que se lava dinheiro; desde o discurso do crescimento econômico com sustentabilidade e distribuição de renda até o discurso de proteção da família, do divino e da tolerância zero com criminosos sanguinários que, por supuesto, não são filhos de Deus (?).
Por tudo isso, Tiririca é uma espécie de figura eleitoral paradigmática. É o grau zero de um discurso eleitoral que mostra, de um lado, o esgotamento da maior parte dos discursos políticos brasileiros – tanto à esquerda quanto à direita – e, de outro, a paulatina substituição do espaço público de discussão política pela recepção privada da emissão midiática de signos vazios. O privado é, por excelência, o espaço da vergonha não-compartilhada; trocamos, finalmente, o debate político, pela recepção passiva e massificada de palavras reticentes, salientes ou risíveis, que podem, quem sabe, divertir os inadvertidos, mas nada significam.


Esse texto foi inspirado em uma interpretação (muito sagaz) de Alexandre Nodari a respeito dos signos que a TV Globo visava a pôr novamente em circulação com as entrevistas dos três presidenciáveis mais bem-colocados nas pesquisas eleitorais no Jornal Nacional. O texto de Nodari pode ser lido aqui. Agradecendo-lhe, recomendo fortemente a leitura.

VII Jornada de Direito e Psicanálise: "O Senhor das Moscas"

11 maio, 2010


(clique sobre a imagem para ampliar)


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO DA UFPR
VII JORNADAS DE DIREITO E PSICANÁLISE:
INTERSEÇÕES E INTERLOCUÇÕES A PARTIR DE “O SENHOR DAS MOSCAS”

INSCRIÇÕES ABERTAS
As inscrições devem ser feitas na SECRETARIA DO PPGD (Praça Santos Andrade, número 50, terceiro andar) das 8h às 12h e das 18h às 22h

INVESTIMENTO:
GRADUAÇÃO: R$ 50,00
PÓS-GRADUAÇÃO: R$ 100,00
PROFISSIONAL:R$ 150,00

REGULAMENTO PRELIMINAR:
1) Ofertam-se 250 vagas, em cadeiras não marcadas. A definição do lugar se dará por ordem de chegada.
2) Das 250 vagas ofertadas, 147 referem-se ao auditório do “Salão Nobre” da Faculdade de Direito (Praça Santos Andrade, 50, primeiro andar), local onde serão proferidas as conferências. As demais vagas se referem à “Sala de Videoconferências” da Faculdade de Direito (Praça Santos Andrade, 50, terceiro andar) e/ou à “Sala de Atos” da Faculdade de Direito (Praça Santos Andrade, 50, segundo andar), na(s) qual(is)  haverá a transmissão audiovisual simultânea das conferências.
3) As vagas das Tribunas (cadeiras laterais) do Salão Nobre são reservadas aos palestrantes e convidados.
4) A Comissão Organizadora do evento se reserva ao direito de alterar a ordem de fala dos conferencistas e palestrantes, bem como de determinar sua eventual substituição caso ocorram motivos de força maior dos quais decorram sua ausência.
5) Certificados serão emitidos (em prazo a ser comunicado pela organização) aos participantes que obtiverem no mínimo 70% de presença. A presença será aferida por leitura ótica de cartão específico (de uso pessoal e intransferível), entregue pela organização a cada inscrito, que desde então se responsabiliza integralmente por seu porte e manutenção, devendo submetê-lo à leitura ótica ao início de cada painel e/ou conferência.
6) Os pagamentos efetuados não serão devolvidos em hipótese alguma.
Fonte: site do PPGD/UFPR;

Na colônia penal: direito e desativação

31 janeiro, 2010




Quando o oficial da Colônia Penal vai até o aparelho e precisa as pequenas agulhas para escreverem em seu próprio corpo a sentença que ele mesmo (e talvez tenha sido o único!) reconhece na escrita retorcida, “sê justo.”, o que se passa? Algo que é da ordem do devir e da desativação; da ordem da inscrição do movimento do devir, da justiça, do desejo, da imanência, no interior do aparelho judiciário, no qual não se conhece a lei ou a sentença, mas se sofre a pena e o suplício no próprio corpo, e se conhece a condenação e a culpa interrogando as próprias chagas; a justiça, “sê justo.”, desativa o sistema do juízo, como prova de que, no âmago de toda decisão, está um interior indeterminado, mas diferenciante, que é o próprio devir: a indecidibilidade, a paixão desativadora, mas criadora e positiva, do “I would prefer not to” de Bartleby. Ela implica, em si mesma, uma outra relação com a morte, um outro encontro com ela – a morte não mais como a obra de um aparelho judiciário, mas o encontro venturoso com a morte no devir: só assim a vida pode escapar a ela.


Escritura de si e do mundo

01 dezembro, 2009




“Vou escrever”. Não, não. Simplesmente “escrever”, sem “vou”. Porque em “vou” tem eu, e eu é indesejável quando se escreve. Eu se mete em tudo, tropeça, corre, chora, fuça todos os vãozinhos das letras na folha; passa pelas palavras atordoado, perguntando “isso aí que você escreveu, é comigo?”. Eu só atrapalha a escritura, o gesto, o blanchotianismo da mão que escreve. Eu só dá desgosto. Quem escreve é a mão, é a prova da escritura; para escrever, a mão ata o pescoço do eu, aperta, sufoca, segura, não deixa respirar – e, por uns instantes, tão necessários, tão essenciais à escrita, eu morre. Fica só o impessoal, só aquele espaço em que não digo, e sobre o qual não posso dizer “sou eu, é meu”. Escritura é mundo, é sem domínio. A mão que pode ser a sua, traçando o corpo nas letras; aliás, poesia erótica é isso, não? Desenhar uma silhueta de mulher sem traçar uma linha sequer. Quando se consegue isso, então é febre, é festa, é gozo, é desterro, é dissolução. De escrever também faz parte nutrir-se, lavar-se, pentear-se, preparar-se para o amor. Aquela silhueta, mais atrás, deixou cair seu eu quando tirou as roupas para o poema – claro, na escrita também se fica nu. Escrever seria, então, um modo de exibicionismo? Para alguns; escritores medíocres, a todo momento, querem fazer aparecer seu eu por cima da escrita. Para os bons escritores, contudo, é uma forma de erotismo, um modo do em-dois, uma maneira de fazer o mundo e a vida passarem inteiros por si, rasgando o sujeito que diziam ser. É a constituição de um outro, é uma despedida de eu e a abertura de um alhures. A escritura de si é também uma escritura do mundo, porque si não se confunde com eu. “Eu” poda. Si faz germinar; faz infiltrar hastezinhas terra adentro. Si deixa a terra, as larvas, os vermezinhos virem à luz para acarinhar nossos pés, para lamber as pedrinhas e banharem-se na chuva. Escrever é uma das coisas mais baixas que existem. Manoel de Barros o sabe muito bem, sabe que escrever e rastejar são verbos irmãos, que comungam do gosto, da umidade da terra; escritor, ele parece dizer-nos, é preciso largar a caneta, pegar do barro, é preciso ser uma larva... É viver, deixar viver – embora sempre quando se escreve, eu morra.

Poéticas do devir: Heráclito e Jorge Luis Borges

26 novembro, 2009




Fragmentos
de Heráclito
 “Transformando-se, repousa.” (Heráclito, Fragm. 82);
“O mesmo é vivo e morto, vivendo-morrendo a vigília e o sono, tanto novo como velho; pois estes se alterando são aqueles, e aqueles se modificando são estes.” (Heráclito, Fragm. 88);
“Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio.” (Heráclito, Fragm. 91);
“O frio se esquenta, o quente se esfria, o úmido seca, o seco se umidifica.” (Heráclito, Fragm. 126).

*  *  *

Arte Poetica
de Jorge Luis Borges

Mirar el río hecho de tiempo y agua
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
en una música, un rumor y un símbolo,

ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre.
La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
Y es otro, como el río interminable.


*  *  *
Uma prosa sobre o tempo
por Murilo Duarte Costa Corrêa

O devir é o que põe em movimento a substância, sem confundir-se com seu movimento, nem com a substância mesma; o devir é o princípio do movimento, o que o faz principiar, um seu começo. Por isso, Borges escreve “el rio hecho de tiempo y água”. O rio não é feito só de água; no fluir da água está o fluir do tempo – de um tempo que não é uma sucessão de instantes, mas precisamente um diferenciador de instantes que se sucedem: o tempo real não se confunde com os instantes, mas passa entre um instante e outro. É, como já ouvi Deleuze dizer a respeito da diferença, “o precursor sombrio, o entretempo”. O tempo é um outro rio, e flui por si, sem ser sustentado nem fundado: o tempo é imanente apenas a si mesmo. Perdemo-nos como o rio; os rostos perdem-se, esfumam-se, deformam-se, “pasan como el água.” A substância real é o contínuo passar daquilo que passa. O tempo é eterno, mas não sob a forma do mesmo – sob a forma do diferenciar. A vigília é o sonho que sonha em não sonhar, em “ver en la muerte el sueño.” A morte é a possibilidade de nos tornarmos apenas sonhadores inconscientes, sem vigília, sem sonharmos em não mais sonhar. Morrer é viver o sonho, devir inconsciente – encontrar em si a íntima solidariedade inorgância que sentimos com a dureza das pedras que ladeiam os rios. A poesia, imortal e pobre, é como o devir, e retorna: “vuelve como la aurora y el ocaso.” Como o rio interminável que permanece passando, assim como o tempo presente - como a inconstância de um Heráclito que diz “o ser é fogo, que tudo consome” -, a arte é, diz Borges, “como el rio interminable.”, “es el mismo / Y es otro.” O mesmo e outro, a arte é o que é o mesmo e o outro; a arte é o presente, que é o mesmo e o outro: rio interminável: o que fica e, ficando, passa; o que passa e, passando, fica em seu pasearse.


Ah, oui : les femmes désirent!

09 novembro, 2009




Recentemente, e não sem alguns alaridos na mídia internacional,[1] uma Universidade brasileira, a Universidade Bandeirante de São Paulo, tornou-se conhecida após expulsar, ato-contínuo de breve sindicância, uma aluna do curso de Turismo sob o argumento de que a mesma ostentava condutas supostamente incompatíveis com o ambiente escolar – especialmente, pelo tumulto que a discente teria causado ao frequentar uma noite de aulas com um mini-vestido [foto]. O problema não deve ser reduzido à questão feminina; o que está em jogo nunca foi pura e simples questão de gênero, como se tem querido colocar. De fundo, o problema está em uma Instituição de Ensino Superior encampar como tarefa própria – e, para tanto, mobilizar estudantes, funcionários, professores – a efetuação de um policiamento moral; proceder à imposição de um comportamento padrão e instituir um “tribunal do juízo” a fim de excluir, de pronto, comportamentos desviantes. Discordo abertamente dos que dizem que o espaço escolar é um espaço de diversidade, e que, como tal, não pode dar-se a fazer comunidade. Trata-se de uma visão simplista da diferença – motor de toda a ontologia, de toda heterogênese. Há comunidade na diferença; diferenciar-se é, precisamente, o que possuímos em comum, sujeitos quaisquer. A humilhação sofrida não faz de Geyse Arruda uma vítima, tampouco a heroína de uma causa maior. Trata-se de algo muito mais singelo, essencial e delicado... « Ah, sim: as mulheres desejam! ». Esse é o real inultrapassável. A moral não passa de uma forma vazia, imaginária, evanescente. Não foi Deleuze quem nos alertara sobre o fascismo do desejo? Há momentos em que as instituições (a comunidade, a Universidade) axiomatizam o desejo, transformam suas possíveis fugas em linhas de abolição pura. Para lembrar Deleuze uma última vez, ele escrevera em sua monografia sobre Foucault: « não precisamos do homem para resistir ». A literatura de Jorge Luis Borges, (Deustches Réquiem In: O Aleph, 1949), mostrara que mesmo o nazismo não passou de um fenômeno moral, articulado em torno de uma modelagem de homem. Por fim, Nietzsche resumira tudo, em Genealogia da Moral: “Ah, a razão, a seriedade, o domínio sobre os afetos, toda essa sombria coisa que se chama reflexão, todos esses privilégios e adereços do homem: como foi alto o seu preço! Quanto sangue e quanto horror há no fundo de todas as ‘coisas boas’!...” (Nietzsche, F. W. Genealogia da moral, II, 3). Estejamos atentos para não lançarmos mão de um juízo moral para julgar a Universidade Bandeirante, ou a conduta de Geyse Arruda; isso seria perseverar no engano ao modificar, tão-somente, a sua polaridade. Para afirmar o desejo, bastaria uma conduta ativa; oxalá a conduta de Geyse seja, de fato, ativa, e não mero capricho. É isso que falta ao feminismo, como fenômeno moral, e à nossa moralidade ordinária de conforto e apatia: não mais negações, não mais simples reações contra fatos, mas mais e mais desejos; puros desejos: desesperados agenciamentos, loucos desejos de (um devir-) mulher.


[1] Repercussões internacionais: (1) New York Times (Estados Unidos): <http://www.nytimes.com/aponline/2009/11/08/world/AP-LT-Brazil-Short-Dress.html?_r=3>; (2) The Guardian (Reino Unido): < http://www.guardian.co.uk/world/2009/nov/08/geisy-arruda-expelled-brazil-mini-skirt?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter>

Um vitalismo místico na literatura de Fernando Pessoa

05 novembro, 2009



“O mistério da vida dói-nos e apavora-nos de muitos modos. Umas vezes vem sobre nós como um fantasma sem forma, e a alma treme com o pior dos medos – a da encarnação disforme do não-ser. Outras vezes está atrás de nós, visível só quando não voltamos para ver, e é a verdade toda no seu horror profundíssimo de a desconhecermos. Mas este horror que hoje me anula é menos nobre e mais roedor. É uma vontade de não querer ter pensamento, um desejo de nunca ter sido nada, um desespero consciente de todas as células do corpo e da alma. É o sentimento súbito de se estar enclausurado na cela infinita. Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo? E então vem-me o desejo transbordante, absurdo, de uma espécie de satanismo que precedeu Satã, de que um dia – um dia sem tempo nem substância – se encontre uma fuga para fora de Deus e o mais profundo de nós deixe, não sei como, de fazer parte do ser ou do não-ser”. 


PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego.