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O que é o pós-estruturalismo?

06 dezembro, 2022

 
 
Neste vídeo, dirigido aos alunos da disciplina de Epistemologia das Ciências Sociais do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais Aplicadas da UEPG, propomos uma introdução ao Pós-estruturalismo Francês, com foco especial em Foucault e Deleuze. 
 
Aqui vocês encontram um texto mais aprofundado sobre a relação Foucault - Deleuze, o problema do poder e do desejo: https://www.academia.edu/38993597/COR... 
 
Academia.Edu (Textos & Livros) http://uepg.academia.edu/MuriloCorrêa

O amor como introdução à filosofia (parte 2 de 3)

09 dezembro, 2011



Australian Scott Jones kisses his Canadian girlfriend Alex Thomas after she was knocked to the ground by a police officer's riot shield in Vancouver, British Columbia. Canadians rioted after the Vancouver Canucks lost the Stanley Cup to the Boston Bruins. (Getty Images / Rich Lam)


A história da má-compreensão do amor é a história da má-compreensão da filosofia


Não podemos culpar os filósofos que nos ensinaram toda a macia mansidão da etimologia da palavra filosofia - ingenuamente, "philos" + "sophos" indicaria o "ser amigo" do saber. Eles não haviam sido tocados pelo mistério do amor, eles nunca haviam penetrado absolutamente nada com o próprio ser.

        Se tudo passa por aí, como começar a falar de filosofia sem falar de amor, de conjunção, dos encontros entre os corpos? Em Atenas, se há um modelo para a filosofia, não se trata pura e simplesmente do modelo do amigo. É em Foucault, e na história da sexualidade, que a amizade surge como a possibilidade da estética da existência, mas o que Foucault descobre em O Uso dos Prazeres é que o amigo é apenas a ponta mais extrema que a relação antes de tudo amorosa, inquieta e concupiscente, deve ter como destino. O amigo só se constitui, na polis grega, ao preço de ter sido, antes de tudo, o amante. A amizade é a relação social estável e conveniente à política e ao espaço público; o amor e os prazeres, o que perturba e faz variar esses tecidos sociais calmos ao mesmo tempo em que constitui a condição de possibilidade para os reinstaurar sempre e a cada vez.

Se há um procedimento em geral da filosofia é o do sujeito, demasiadamente certo de si, dissolvendo-se para entrar em conjunção com o outro (o filósofo, a obra, o conceito, o campo de imanência, as intensidades, as afecções). É isso o que acontece quando nos deixamos tocar pela filosofia: tudo vira Eros, queremos fazer amor com o mundo, tornamo-nos sensíveis a seus signos exteriores. A filosofia não é, nem nunca foi, um território vazio, frígido ou inerte; está mais para um contato sem dúvida incômodo, difícil, em que é aquilo que você chama de “eu” que é colocado, de repente, e sem querer, em jogo. Filosofia é uma espécie de delírio, como o amor; quem nunca alucinou as pernas de uma mulher nas pernas de todas as outras mulheres; os olhos da mulher amada nos olhos de todas as outras, os lábios da amada na boca das outras? É por isso que o amante olha para as outras: para alucinar a amada no campo mais heterogêneo; para descobrir, nele, a diferença que torna absolutamente singular a multiplicidade da mulher amada.

Assim como um poeta alucina a gramática, um filósofo alucina os conceitos: conserta, enxerta, engendra novos, repete-os fazendo-os engendrar qualquer coisa de diferente. A filosofia é uma alucinação dissonante, um compromisso com o que há de obscuro e ao mesmo tempo potente na existência e no comum.


O Banquete platônico teria iniciado toda a história dos mal-entendidos sobre o amor e, de consequência – se é imposível filosofar sem amor – sobre a própria filosofia; nele, Eros é definido por Aristófanes como completude (a raiz do imaginário coletivo sobre o amor romântico), mas só atinge verdadeiramente seu ponto máximo quando o Sócrates - velhaco, mas sedutor -, tentará demonstrar o seu engano. No entanto, Sócrates não fala em nome próprio. Tendo aprendido a genealogia do amor com uma mulher, a voz socrática fala pela boca da sacerdotisa Diotima de Mantinea. Em seu discurso, no qual tomará lugar por excelência o feminino, Eros será definido genealogicamente como filho do recurso e da pobreza. Sua mais simples e célebre elaboração encontrará na suposição de que, para amar, é necessário que algo essencialmente nos falte: “O que deseja, deseja aquilo de que é carente, sem o que não deseja, se não for carente”, afirma Sócrates. Só se pode amar aquilo que não se tem; sendo Eros filho do recurso e da pobreza, o objeto do amor será, a um só tempo, sempre ausente e sempre solicitado.

Cronologicamente mais próxima de nós, a psicanálise lacaniana não definirá o desejo por meio de outro termo que a falta, o objeto menor, a, fruto, como a Lei, da castração. Aquilo que falta, aquilo a que o Simbólico não pode atingir de todo, será, para Lacan, o Real. Mas, se for assim – se o amor for falta -, como fazer a experiência dessa ausência? Como experimentar o vazio naquilo que ele deveria ter de desejo?


-------> (Continua).

"Democracy versus people": Slavoj Žižek e o Haiti

17 janeiro, 2010




O haiti: sob os escombros, um deserto

* O texto abaixo foi escrito por Slavoj Žižek, publicado em 18.08.2008, em New Statesman e republicado em www.lacan.com. Sinto muito não poder traduzir – em pleno janeiro, o tempo anda escasso; de todo modo, creio que se poderá aproveitar algo disso. Prefiro, contudo, pensar no Haiti como um deserto a sucumbir ao espetáculo televisionado da catástrofe. Há sempre um deserto político e afectivo sob os escombros. É sempre isso que resta quando tudo foi retirado: o deserto, o corpo-sem-órgãos: o ponto em que uma vida... dá o bote na morte.

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[arquivo] - Noam Chomsky once noted that "it is only when the threat of popular participation is overcome that democratic forms can be safely contemplated". He thereby pointed at the "passivising" core of parliamentary democracy, which makes it incompatible with the direct political self- organisation and self-empowerment of the people. Direct colonial aggression or military assault are not the only ways of pacifying a "hostile" population: so long as they are backed up by sufficient levels of coercive force, international "stabilisation" missions can overcome the threat of popular participation through the apparently less abrasive tactics of "democracy promotion", "humanitarian intervention" and the "protection of human rights".

This is what makes the case of Haiti so exemplary. As Peter Hallward writes in Damming the Flood, a detailed account of the "democratic containment" of Haiti's radical politics in the past two decades, "never have the well-worn tactics of 'democracy promotion' been applied with more devastating effect than in Haiti between 2000 and 2004". One cannot miss the irony of the fact that the name of the emancipatory political movement which suffered this international pressure is Lavalas, or "flood" in Creole: it is the flood of the expropriated who overflow the gated communities that protect those who exploit them. This is why the title of Hallward's book is quite appropriate, inscribing the events in Haiti into the global tendency of new dams and walls that have been popping out everywhere since 11 September 2001, confronting us with the inner truth of "globalisation", the underlying lines of division which sustain it.

Haiti was an exception from the very beginning, from its revolutionary fight against slavery, which ended in independence in January 1804. "Only in Haiti," Hallward notes, "was the declaration of human freedom universally consistent. Only in Haiti was this declaration sustained at all costs, in direct opposition to the social order and economic logic of the day." For this reason, "there is no single event in the whole of modern history whose implications were more threatening to the dominant global order of things". The Haitian Revolution truly deserves the title of repetition of the French Revolution: led by Toussaint 'Ouverture, it was clearly "ahead of his time", "premature" and doomed to fail, yet, precisely as such, it was perhaps even more of an event than the French Revolution itself. It was the first time that an enslaved population rebelled not as a way of returning to their pre-colonial "roots", but on behalf of universal principles of freedom and equality. And a sign of the Jacobins' authenticity is that they quickly recognised the slaves' uprising - the black delegation from Haiti was enthusiastically received in the National Assembly in Paris. (As you might expect, things changed after Thermidor; in 1801 Napoleon sent a huge expeditionary force to try to regain control of the colony).

Slavoj Žižek, no Roda Viva (75 min)

02 janeiro, 2010




Antes da tradução do texto de Jean-Clet Martin, vale a pela conferir o Roda Viva exibido em 02.02.2009, pela TV Cultura de São Paulo, com o filósofo, sociólogo e psicanalista Slavoj Žižek. Aí vai o vídeo completo, com aproximadamente 75 minutos, de Žižek falando um inglês fluente e genuinamente ex-iuguslavo.
Quanto à sua leitura de Deleuze, antes mesmo do texto de Jean-Clet Martin, queria propor uma breve reflexão que pode iluminar essas relações – um tanto subjetivista, reconheço, mas, como me ocorreu, então, vá lá!
*
É claro que Žižek acha que Deleuze é, no fundo, hegeliano, e reprimido. É claro que Deleuze discordaria tanto de uma alcunha como de outra. (A propósito, lembro do que Deleuze escrevia em Carta a um crítico severo: “você tenta me edipianizar? Injetar em mim a má-consciência?”, e isso ele escrevia muito ternamente). Está claro, também, que os deleuzianos discordam de Žižek. Mas o que me parece interessante nessa redução - em sentido químico mesmo -, que Žižek faz da filosofia de Deleuze, é o afecto; assisto a esse vídeo de Žižek, leio o texto de Martin, sonho em comprar Organs without bodies, e só consigo encontrar uma estranha ressonância em Jacques Lacan: penso em quanto Žižek deve amar Deleuze para crer que ele é, ainda que reprimido, um hegeliano... que coisa mais digna e bonita... Filosoficamente, estou com Martin: afirmá-lo, como Žižek faz, é um filosoficídio - mas não era precisamente Lacan, outro importante intercessor de Žižek, que costumava dizer que quem ama, mata? 
Ah... oui , mes amis , certainement: c’est l’amour !