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Uma vulgaridade grande demais no pensamento...

31 maio, 2010


Antonin Artaud


« Dobrar as forças a fim de fazer a filosofia tocar um certo ponto da vida é obra de um bom pensamento, e ele não tem nada de inato »

Já há algumas décadas, o ator, escritor e dramaturgo francês Antonin Artaud conclamava os idiotas a açoitarem seu inatismo. Alguns desses idiotas ainda estão entre nós, e continuam a crer terem atingido o ponto ótimo de um pensamento revolucionário e subversivo ao enunciarem a equação “viver = pensar”.
Nomeiam sua filosofia de vida de diversas formas: “crítica”, “vitalismo” etc. Com uma ideia tão ordinária quanto impotente, professam a fé de terem compreendido, finalmente, na simplicidade de uma equação que identifica dois processos irredutíveis – “viver, pensar” -, os mistérios da imanência – mistérios que, segundo julgam, a horda de intelectuais pós-estruturalistas injustificadamente insistiria em complicar.
De posse de seu pequeno objeto, pintam o ordinário com as tintas da pureza medíocre, exaltam a naturalidade e a benevolência de simplesmente “estar entre as coisas”; em suas companhias, respira-se uma senilidade bovina.
Ao som do saltitante tilintar dos sinos que lhes pendem dos colos, vingam-se dos intelectuais atirando-lhes a responsabilidade de fazerem-se claros; esmeram-se em fazer as vezes de suas más consciências ao reproduzirem a antiga metáfora que até mesmo os frankfurtianos tiveram de escutar: “abrigaram-se em ‘torres de marfim’, ‘retiraram-se à solidão de um claustro inacessível’”; acusam-os de serem medíocres homens de rebanho, homines academici, para muito, muito além dos conceitos de Nietzsche ou Bourdieu, dos quais só conhecem um vocabulário superficial e alusório. Falam de rebanhos e do homo academicus não como Nietzsche ou Bourdieu, mas como pastores ignorantes e rancorosos. A supressão do pensamento é sinal de uma fisiologia cansada, de uma musculatura débil, de uma má-consciência vigilante; isto é, de um pensamento vulgar demais para uma vida que não se contenta em ruminar a facticidade, e que sequer faz desse ruminar a obra de um pensamento.
Em uma verdadeira filosofia da imanência, entre a vida e o pensamento, a dobradura é diversa. Dobrar as forças a fim de fazer a filosofia tocar um certo ponto da vida é obra de um bom pensamento, e ele não tem nada de inato, nem de ascético, mas é produto da violência de signos que vêm de fora, e realiza uma seleção pela potência.
A vida ordinária, natural, atual, não possui, en-soi-même, qualquer coisa de filosófica. É capaz de despertar sensações, mas sensações percutidas em corpos impotentes são inertes, não produzem sentido. Por vezes, os idiotas vivenciam sensações suficientemente intensas a ponto de crerem ser isso mesmo o próprio objeto do pensamento. No entanto, o pensamento é o que passa entre a vida e a sensação, e essa sensação demasiadamente intensa confunde-se com o que Artaud tentava indicar há algumas décadas: os signos exteriores, a violência que leva a pensar, o açoite que, cortando o ar, fustiga o inatismo dos idiotas.
Porque o idiota é antes de tudo um ego, permanece estúpido no seio dessa possibilidade. Tudo se passa, e só pode se passar, com ele. Ídios designa aquele mais próprio, mais particular; a idiotia é o máximo a que pode chegar uma identidade (eudade). Na Grécia antiga, o idiota é o sujeito que apenas se ocupa consigo mesmo, mas não com os assuntos da pólis; já no século XII, idiota significará, a um só tempo, o ignorante, o inculto, mas também o plebeu, o homem comum, o medíocre.
Pelo simples fato de sentirem o vento tocar seus rostos, os medíocres crêem-se completamente integrados à natureza, mas apenas na medida em que só podem fazer um uso absolutamente próprio, particular, privado dessas sensações. Lêem no Zaratustra sobre o ar puro das montanhas, e logo se lançam a escalar o primeiro objeto ligeiramente maior que si mesmos - o que são capazes de encontrar com rara facilidade.
O pensamento é que poderia tirá-los do seio da idiotia, da auto-referência e da futilidade; no entanto, um idiota sempre se encontra “estúpido” no seio dessa possibilidade.
“Como fazer meu eu escapar de mim mesmo?”, acorda-se um idiota. “Como construir uma torre de marfim suficientemente alta para que os idiotas me deixem em paz”, apressam-se os intelectuais. Os intelectuais não constroem “torres de marfim” por superioridade, mas para fugir da insidiosa presença das vulgaridades do pensamento.
Sempre pudemos experimentar essa vergonha que advém de ouvir um pensamento demasiadamente vulgar; impropriamente, alguns a chamam “vergonha alheia”. Ao contrário, trata-se da vergonha mais própria, mais particular, que ressoa no seio de nossa própria idiotia – naquela parcela em que somos um sujeito, em que podemos dizer “eu”, e o fazemos impunemente. 
Na vulgaridade do idios que se pôs a pensar, reconhecemos a vulgaridade de todo pensamento, do homem que nos habita o interior mais próprio e do qual é urgente que nos desfaçamos. O homem vulgar crê em uma eudade superior que defende com as frágeis armas da crítica, do senso ordinário, com os slogans morais dos telejornais de meio-dia. Paramentado, inspira-se, quando talvez fizesse melhor em respirar. Não consegue presenciar um acontecimento sem, de imediato, embutir nele um julgamento demasiadamente pessoal.
A vergonha de ser um homem - aquela que reconhece a partilha dessa vulgaridade demasiadamente humana em um pensamento -, constitui um signo que violenta a pensar, e faz de nossa própria vida, inseparável de sua forma, a grande prova pela qual temos de fazer passar a intensidade pura de um pensamento. Trata-se da prova de que o pensamento pode tocar verdadeiramente uma vida invulgar, singular, impessoal – e, para isso, ensinavam-nos Nietzsche e Artaud, sequer é desejável a “faculdade” de julgar. Só assim, fugindo ao juízo, e ao preço de suportar essa violência que impele a pensar, poderíamos desfazer-nos da vergonha de ser um homem, da vulgaridade de um pensamento censor, demasiadamente particular, humano, cristão, reativo.

O "castigo-pensador": de Supernanny a Rodin, em dez milissegundos

27 dezembro, 2009

 


(Jo Frost, a Supernanny, em uma imagem com quilos de Photshop, e “o pensador”, de Rodin: pode não parecer, mas essa obra de arte foi inspirada em uma criancinha de castigo...)

Nunca comentei aqui, mas tenho horror ao Jornal Hoje. Mesmo assim, continuo assistindo – religiosamente -, porque acho interessante como ele funciona esquizofrenizando. A maior esquizóide de todas – uma esquizóide bipolar que vai da depressão à euforia histérica em dez milissegundos – é a ex-atriz e jornalista Sandra Annenberg; não é incomum assistir a coisas do tipo: ela anuncia com gravidade, franzindo o sobrolho: “Morrem mais três pessoas em um deslizamento de terra na região de Itaquera, na grande São Paulo”. Dez milissegundos..., e se abre um riso demente: “E o verão será dominado pelos tons de laranja – veja como a cor foi recebida nas rasteirinhas que prometem colorir a estação!”Graças às férias de fim de ano, ontem à tarde, quem estava “re”-presentando o telejornal era Rosana Jatobá. Menos bipolar, uma atriz menos escolada que Sandra.
Em meio às matérias ordinárias pequeno-burguesas pós-orgiásticas natalinas (férias, rodovia dos bandeirantes congestionada, como limpar a prataria usando limão e pasta dental, direitos do consumidor na troca dos presentes, liquidações de fim de ano), uma das matérias de destaque era sobre a educação das criancinhas pequenas; algo do gênero, “conheça o castigo-pensador e aposente a palmada”. Falando sobre o tema, uma psicóloga que provavelmente não tem filhos, e se os tem deve usar a palmada, que afirmava que a violência não se justifica de forma alguma (no moralista retorna o recalcado – bendito Freud!), e que da palmada ao espancamento se vai num contínuo quase involuntário – nem se percebe. Tudo muito bonito, muito libertário. Dar limites com explicações, “bater não educa, nem é um gesto de amor, é uma simples punição” etc.
Não bastasse, apresentaram o “castigo-pensador” – uma estratégia à la Supernanny (aquela terapeuta comportamental britânica que trata as crianças como camundongos com alma – dêem uma zapeada no GNT, que é um canal com público-alvo “feminino”, em que se podem encontrar desde reality shows com pequenos cães obesos com donos obesos, numa competição para ver quem perde mais gramas de suas dezenas de quilos de sobrepeso, até conversações (nada) inteligentes com Diogo Mainardi, que também perde (nosso) tempo escrevendo uma coluna (que ninguém lê) para a Veja).
Mas fiquemos no castigo-pensador. A jornalista pergunta a uma criança de uns quatro anos como é o tal castigo, ao que ela responde: “Ah, não pode deitar, nem brincar; tem que ficar sentado, fazendo nada... pensando”.
*
E desde quando pensar é castigo? Pior, desde quando pensar é fazer nada? Valeria um outro post para tentar compreender de que forma, hoje, os aparelhos disciplinares infantis são mobilizados para disciplinar o subjetivável, desmobilizar as potências do pensamento – a ponto de uma criança de quatro anos dizer que não faz nada, só pensa... como se pensar fosse algo muito natural, muito simples e inato, de que as aprendizes de supernannies brasileiras ou as apresentadoras lobotomizadas de telejornal da tarde pudessem ser capazes. Artaud, Proust e Deleuze escreveram sobre de que forma os signos violentam a pensar e a buscar a verdade – não há pensar sem violência (que não é física, mas simbólica – da mesma forma que uma palmada dificilmente é violência física, mas simbólica, medo de perder o amor dos pais, introjeção da má-consciência pela via familiar). Agora, o tal “castigo-pensador” vai além da palmada: introjeta a produção da má-consciência no próprio exercício do pensar niilista; de modo que o pequeno fica lá, isolado em seu cantinho: não pode deitar, nem brincar; fica lá fazendo nada, isto é, “pensando”...
Esse novo “castigo” faz algo semelhante ao que Nietzsche já identificara em nossos sistemas de justiça civilizados: por um golpe de gênio da moral (“é moralmente errado levantar a mão para um filho”, dizem os sacerdotes da psicologia contemporânea, que só não crêem ser errado tratar as crianças como camundongos, segundo o esquema estímulo-resposta/reforço/punição) se substitui um sistema de violência e de crueldade, de afectos, em que os signos se aplicavam ao corpo (o gesto da palmadinha, que não é nem inofensiva, nem antidisciplinar – não sejamos ingênuos) por um sistema educativo que, embora seja supostamente não-violento, identifica o pensar a uma inércia niilista e despede os pais de educarem os filhos: "vai lá pro seu cantinho; como você aprontou e já tem oito anos, vai perder oito minutos da sua infância... pensando!". O fato é que se educa cada vez menos para o pensamento, e agora, ainda transformam o tempo-consigo, necessário ao pensamento, em punição, em pedagogia barata de canal fechado.
Quem visse o pensador de Rodin, com todos os músculos do corpo retesados, violentados, como que prontos para a ação – embora a cabeça, apoiada sobre o punho cerrado, ainda estivesse voltada para um ponto fixo, no limiar indiscernível entre a interioridade da relação consigo e o ato: hesitando, exercitando o pensar como liberdade –, compreenderia que se, hoje, pensar virou uma estratégia de castigo e disciplina, uma forma de fazer com que todo empenho de tempo seja niilista (uma espécie de “fazer nada” como forma de administrar as condutas infantis), a única chance de sucesso dessa nova geração será a servidão e o automatismo – nunca a perfeição de uma ação verdadeiramente livre. Melhor para a Globo: não faltarão telespectadores - tampouco, apresentadores de telejornal.