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A billionformação dos mundos: Musk, Altman e o cão na vitrine

26 julho, 2023


O úmido e o vivo

Olho a noite lá fora e recolho tudo o que tenho. Dirijo-me à sentinela do quinto andar da Biblioteca Nacional Mariano Moreno, situada numa bela Babel brutalista, que um dia foi dirigida por Jorge Luis Borges, e hoje parece dirigida por seguranças terceirizados.

– “¿Te retiras?”, disse ela apanhando a caneta.

– “Sí, me retiro.”, e lhe estendo minha credencial. Ela anota 19:04, e eu lhe digo “Gracias, buenas noches”. Escuto um “A vos” enquanto caminho na direção do locker número 08.

Encasacado e de mochila nas costas, desço pelas escadas até o térreo. Lá, me aguarda uma catraca eletrônica, onde deposito o cartão que libera minha saída. Um enorme vão livre e dois lances de rampas depois, um pequeno trecho da Agüero me faz desaguar na Gen. Las Heras.

Caminho da Recoleta até o Alto Palermo. Ando por Las Heras até cruzar a Sánchez Bustamante. Logo me deparo com uma loja. Espelhos e molduras. Síntese de uma civilização global, as suas imagens narcísicas e os seus enquadres sensíveis prêt-à-emporter.

Na vitrine cheia de espelhos, em que os passantes costumam parar para tirar selfies, vejo que dois olhos me olham de volta lá de dentro. Hesito por um momento. Não consigo saber se o que me olha é uma estátua ou um cão. Tiro uma foto.


Sinto uma pequena vertigem. A aceleração de uma micro-alucinação perceptiva embaralha os sentidos. Preciso olhar mais uma vez, e outra vez, e fixamente dentro daqueles olhos. Preciso examiná-los para descobrir ali uma doce umidade, e perceber que aqueles olhos me olham de volta com vivo interesse. Um átimo depois, como mágica, a estátua começa a menear a enorme cabeça, como se tentasse captar o cheiro do estranho através da vidraça. As orelhas balançam como um feltro, que quase sinto tocar.

Eppure si muove!, pensei, e ao invés de evocar Galileu, minha cabeça foi parar muitos séculos antes, e me lembrei de Aristóteles. Embora hoje saibamos que as plantas também viajam no espaço à sua maneira, ele atribuía ao movimento, e à capacidade de locomover-se, a diferença entre a vida vegetal e a animal.

E olhando mais uma vez os seus olhos viscosos, o seu brilho incomum, me veio à mente a anamnese platônica; a metáfora do olho que se reconhece, e ao Ser, olhando-se por dentro, ou ao reconhecer a própria imagem refletida no olho de um outro. As duas mediações do “conhece-te a ti mesmo” – uma obsessão que não era nossa, mas a História mundial acabou por torná-la. Antes disso, talvez a obsessão fosse “conhece os mundos”, ou não houvesse obsessão – mas quem saberia?

E então me lembrei de Borges, em Deutsches Requiem, dizendo que todos os homens nascem aristotélicos ou platônicos; que não há debate abstrato que não seja um momento da eterna polêmica entre Platão e Aristóteles: “através dos séculos e latitudes”, escreveu ele, “mudam os nomes, os dialetos, as faces mas não os eternos antagonistas.”

Para mim, era substância demais. Ali, face a face com o indeterminado, eu não me sentia nem platônico, nem aristotélico. Não reconhecia nada. Nem a estátua, nem o cão, nem a mim mesmo no visgo escuro dos seus olhos úmidos. Não havia espelho, nem moldura. Nada de anamnese, ou hilemorfismo para encher os quadros. Ali estávamos, o cão e eu, em meio a outra coisa – como são os pequenos acontecimentos. Era só um visgo escuro, em cujo centro calmo eu via boiar um brilho especial no meio da noite. Era só um meneio curioso, uma cabeça imensa.


Agarrando usuários pelo bolso
 

Poucas horas antes, eu havia lido que Sam Altman, CEO da OpenAI, e Alex Blania, da coinvestida startup UBI, haviam lançado um batalhão de orbes pelo mundo para escanear a íris das pessoas. Em troca, elas receberiam tokens de uma criptomoeda que foi batizada de Worldcoin (WLD). Uma criptomoeda baseada em tecnologia blockchain, negociável a mercado, e que poderia subsidiar uma renda básica universal – só não se sabe como.

A aposta é de que, nos próximos anos, na medida em que a IA evolua para uma Inteligência Geral Avançada (AGI, em inglês), a IA deve criar um salto de produtividade e uma tal disrupção nas cadeias de remuneração das atividades humanas que não seria nem justo, nem moral, deixar de dar um fim à pobreza num mundo que enriquece cada vez mais.

Seus propósitos seriam, portanto, distributivos e anticocentracionários quanto à riqueza da IA. Nas palavras de Altman, “Se nós temos uma sociedade suficientemente rica para dar fim à pobreza, então nós temos a obrigação moral de encontrar um jeito de fazer isso”.

Mas os orbes, na verdade, são máquinas de certificação identitária. Na medida em que as IAs se desenvolvem a ponto de passar no teste de Turing, se torna cada vez mais difícil saber quando estamos diante de um humano ou de um não-humano, de um vivo ou de um não-vivo. Sobretudo, fica difícil saber com quem estamos falando, ou com o quê.

Ao invés de prolongarmos as proliferações dessa indeterminação, os orbes de Altman e Blania se propõem a verificar e autenticar a humanidade de cada um biometricamente. Assim que alguém encontra um orbe em New Delhi, Londres, Pretoria ou São Paulo, escaneia sua íris, recebe uma identificação única, um punhado de criptomoedas, e passa a ser um “humano verificado”. Fizeram até camisetas. Altman jura de pés juntos que a OpenAI não guarda dados das íris das pessoas, e dá a elas a opção de estocá-los de forma criptografada.

Enquanto isso, Elon Musk preparava um avanço no seu projeto de fazer do Twitter um Everything App. Musk rebatizou a plataforma objeto de uma aquisição hostil, no valor de 44 bilhões de dólares, matando a logo do passarinho. A logo havia sido criada em 2010 em homenagem a Larry T Bird, jogador do Boston Celtics.

Chega a ser irônico pensar que as fazendas de painéis solares, que estão no horizonte das alternativas de energia “limpa” para abastecer, entre outras coisas, os Teslas de Musk, sejam responsáveis por matar dezenas de milhares de pássaros nos Estados Unidos todos os anos.

Trágicas ironias à parte, Musk quer mais do que matar passarinhos azuis com o rebranding que transformou o Twitter em X Corp, e os tweets em xs. Ele quer empurrar a plataforma e seus usuários para dentro de uma nova cena de competição em que já estão o WeChat chinês, o PayTM indiano e o GoJek indonésio.

Embora o X de Musk pareça uma cópia ocidental de lógicas plataformadas de subsunção financeira e biopolítica que já existem no Leste asiático, Linda Yaccarino, CEO da X Corp., definiu X como o estado da arte dos Everything Apps: “X é o futuro estado de interatividade ilimitada – centrada em áudio, vídeo, mensagens, pagamentos e serviços bancários – criando um marketplace global para ideias, bens, serviços e oportunidades”.

Como a Meta, de Zuckerberg, X é a tentativa de fazer um mundo, mas um mundo não necessariamente à parte deste. Porque ele se instancia nos corpos, nos usuários, no seu tempo livre, na sua produtividade e força de invenção, bem como no valor dos efeitos de rede; estes, que podem dar valor, por exemplo, a uma moeda tirada do nada.

É o que, de repente, fez a Worldcoin, de Altman e Blania, adquirir alguma relevância. A partir de um empuxo neocolonialista que recrutou seu primeiro meio milhão de usuários em países de Terceiro Mundo por meio de táticas que foram descritas como “práticas de marketing enganosas”, e que “falharam em obter consentimento informado” dos usuários, o que começou como “uma base de dados biométricos dos corpos dos pobres” começa a se generalizar para todo o globo.

Isso porque a própria estratégia de Altman e Blania é fazer bola de neve com os efeitos de rede que a Worldcoin pode ajudar a desencadear: “o primeiro milhão de pessoas, os early adopters, as pessoas mais avançadas, convencem os próximos 10 milhões. Então, os próximos 10 milhões estão próximos dos normies [a subjetividade online mainstream, o “gado” da Internet]. Eles convencem os próximos 100 milhões. E estes são realmente os normies que convencem os outros poucos bilhões”, diz Blania.

Toda estratégia de negócios bem-sucedida na era das redes é, na verdade, uma gigantesca operação de silogismo social. Uma grande engenharia cibernética para se normalizar no socius, que começa levando algumas dezenas de milhares de pessoas a se engajarem e aceitarem as premissas da sua operação (geralmente, pobres e racializados do Terceiro Mundo). Então, com a mediação das ações de marketing adequadas e ajustadas ao público que se quer subsumir, os efeitos de rede fazem o resto, conseguindo embarcar uma boa parte do resto do mundo na sua propagação contaminante.

Uma moeda, como a Worldcoin, só adquire valor porque algumas pessoas a aceitam e acreditam nela; porque lhe atribuem valor, e imputam suas crenças a um instrumento de circulação social. Um pouco como as pessoas acreditam nas previsões oraculares de Musk sobre o Bitcoin. Basta que ele “tuíte” – perdão, que ele “éxe” –, e os efeitos de rede e o comportamento de rebanho dos seus seguidores funcionam como gigantescas alavancas distribuídas. Elas se encarregam de fazer com que suas profecias se tornem realidade.
 

Isso só acontece porque o que instancia o valor de uma moeda, tirada ou não do nada, é o tecido vivo e micrológico das relações estruturadas e estruturáveis entre os corpos e os vivos. Os conteúdos das suas crenças e desejos. A maior ou menor confiança que se atribui a ela, como Bruno Cava e Giuseppe Cocco explicaram em A vida da moeda.
 

O que Altman e Musk sabem bem – a par de seus primos asiáticos WeChat, PayTM  e GoJek – é que não há forma melhor de agarrar usuários do que pelo bolso. Não apenas distribuindo free money por dez segundos de scan da sua íris, mas sendo o gatekeeper dos fluxos financeiros dos usuários, seu garantidor e seu milieu privilegiado de transações.


A billionformação dos mundos


Ao contrário do que afirmam bitcoiners e fintechers, não caminhamos para uma sociedade desbancarizada, mas na direção da vertiginosa multiplicação e dispersão da bancarização e da financeirização. A horizontalização das moedas e das finanças, facilitadas por sua abstração e digitalização, andam de mãos dadas com as desterritorializações que se impõem às atividades dos corpos e dos vivos. Então, não é que os bancos desapareçam; nem que os bancos estejam por toda parte. É que tudo vira banco, inclusive nós mesmos.

Mesmo os trabalhadores precisam gerir sua carreira como ativos de capital humano, suas férias e seu tempo livre como bancos de horas, sua aposentadoria e inatividade como uma reserva de ativos para o futuro – e que não pode acabar enquanto se estiver vivo. E, nas horas vagas, os usuários ainda pilotam os aplicativos de seus bancos para gerir recursos, fazer investimentos, adquirir seguros, pagar boletos, relatar golpes cibernéticos, aderir a ofertas etc.

Na medida em que atividade, dinheiro e informação se tornam fluxos intercambiáveis e fungíveis, ficamos muito próximos do que William Burroughs descrevia em The limits of control. Há um grupo de controladores que tenta governar pelo poder do dinheiro. E mil outros grupos de usuários que não param de fugir. De passar de uma plataforma a outra. Criar fakes. Bots. Hackear usos. Cancelar contas. Deletar dados. Desertar. Migrar para outros espaços de assemblage. Voltar. E reencontrar tudo alterado.

Por um lado, o poder do dinheiro não pode ser violento. Ele é soft, modulador, um ourives da liberdade individual. Isso não faz a violência desaparecer, mas implica uma nova articulação entre dinheiro, poder e violência e, possivelmente, uma distribuição de agenciamentos desiguais entre territórios centrais e periféricos. Fazer um ecossistema de relações e fluxos consistir numa nova Umwelt, na criação de um mundo circundante, é a operação de controle que anima todas as demais.

Como nos vídeos do Mr. Beast, um jogo é arranjado e escolhe os seus competidores, que estão lá por livre e espontânea vontade, e vão se submeter a seja lá o que for que o jogo proponha – porque conservam a crença de terem uma oportunidade de jogar e ganhar, mantendo a liberdade de sair a qualquer momento.

Mas sair é perder, ou deixar de ganhar. Então, o fear of missing out governa. O dinheiro tem poder, não só porque ele cria uma estrutura, institui as regras do jogo, inventa os mundos e os informa, mas porque ele canaliza os fluxos, apela à sua liberdade, os faz ceder, tenta ganhar dos corpos pelo cansaço.

Não sei se estamos saindo do capitalismo de plataforma, ou se já atingimos uma etapa verdadeiramente monopolista, que Nick Srnicek chamou de “Platform Wars”. O que a atual fase do desenvolvimento do capitalismo deixa claro são duas coisas. Primeira, que vivemos a época da billionformação dos mundos. Não é, nem nunca foi, sobre terraformar Marte, ou a própria terra – mais e mais informe a cada ano do Capitaloceno. Sempre foi sobre billionformar os mundos. Sobre o poder do dinheiro e o poder dos grupos de controle.

Segunda, que a billionformação dos mundos não nos deixará sair das antigas hierarquias e dimorfismos, nem das racializações, embora suas técnicas contenham (no duplo sentido de possuir e limitar) o potencial para produzir esse êxodo. Ainda que, nas técnicas de controle, nada esteja determinado de uma vez por todas.

Isso fica claro nos orbes autenticadores de humanos de Altman. Nos everything  apps que já estão entre nós. Os controladores não podem deixar espaços nos controles, como a indeterminação que faz a percepção hesitar entre o deserto apagado do olhar de uma estátua e os olhos úmidos e vivos de um cão. Precisamos saber, sempre, em que mundo estamos. Precisamos saber de onde procede o que estamos vendo, e com quem, ou com o quê, estamos falando.

Que os índices biométricos e, no fundo, os corpos, funcionem como as instâncias que permitem verificar os humanos é prenhe de consequências. Basta lembrar que Roberto Esposito, em Persons and things, afirmou que o corpo era precisamente o limiar de indeterminação entre pessoas e coisas que tornava possível determinar a diferença significante entre uma pessoa e uma coisa na experiência do direito romano antigo.

O corpo de um escravizado, então, pode ser mais coisa do que pessoa, e estar suscetível à apropriação e à circulação em dado regime. O corpo de um cidadão pode ser mais pessoa do que coisa, e ter seu corpo e sua personalidade gravado pela indisponibilidade de certos direitos sobre o próprio corpo.

Tomando os corpos como substância estável, toda natureza e todo artifício podem ser verificados num dimorfismo, e isso nos deixa a sós com os ecossistemas da billionformação dos mundos. O sistema só diz “sim” às alucinações perceptivas programadas, e nenhuma delas muda nada. Nenhuma alteração de mundos é permitida. Assim como os controles, o corpo aparece como a sede da determinação dos dimorfismos e como leito de indeterminação que poderia levar a novas lutas.

Por isso, deveríamos nos perguntar o que acontece quando tudo devém-banco, ou fluxos financeiros livres. Quando a atividade do vivo, a informação e o dinheiro se tornam perfeitamente intercambiáveis. Acontece a billionformação dos mundos. Bilhões são gastos na esperança de fazer trilhões concorrerem para dentro do mesmo meio, da mesma plataforma, participando constitutivamente de um mesmo ecossistema de relações a que o dinheiro dá consistência.

Já não é mais o capitalismo liberando fluxos com uma mão e axiomatizando com a outra. São os bilionários liquidando o mundo com uma mão e destilando mundos com a outra.

A única boa notícia, que Burroughs percebeu com precedência, é que embora o dinheiro tenha poder, os controles não são totalmente determinados pelo dinheiro. Aliás, nem o dinheiro é determinado pelo dinheiro – mas pelas relações e pelos corpos, pelas curvas de crença, confiança e desejo.

Isso insere um vetor de indeterminação social e pragmática na equação dos mundos billionformados que estão na soleira das nossas portas. Mais que isso, o impasse dos controles, sob pena de se autossuprimirem, é o controlar sem jamais poderem ir até o fim do domínio da vontade, ou na automação do desejo.

Para mim, bastou o encontro com um cão na vitrine. Mas eu me pergunto que evento de percepção será necessário para entendermos que aí está toda a política do nosso tempo. As lutas pelos ritmos das modulações da vida e dos mundos. E que somos nós contra eles. Os grupos de usuários contra o grupos dos controladores.

Regular ou não regular a Inteligência Artificial?

10 julho, 2023


 

Como politizar a discussão sobre a regulação da Inteligência Artificial? 

Este vídeo situa o papel da regulação na fase atual do desenvolvimento do capitalismo contemporâneo a partir de Foucault e Lazzarato. Isso nos distancia do falso dilema que parece se impor, entre um excesso de regulação (ou de Estado) e um excesso de livre iniciatica (ou de mercado). 

Em seguida, mostra como a desregulação pode ser compreendida como função da regulação e como fator de constituição de um domínio econômico. 

Num terceiro momento, situa e discute a regulação da IA, contextualizando o aparente paradoxo da atual indústria. 

Por um lado, modelos de inteligência artificial não cessam de ser liberados e distribuídos nas mãos das pessoas, tornando-se uma força produtiva imediata; por outro, bilionários, cientistas e empresas responsáveis lançam cartas e manifestos pedindo uma moratória - isto é, um freio no seu desenvolvimento. 

Por fim, tenta delinear algumas linhas de ataque biopolítico face ao problema, articulando o nível das lutas e o nível das políticas públicas. 

Hipóteses, delineamentos ou "chutes" sobre algumas das direções segundo as quais o social poderia impor desenvolvimentos antagonistas ao controle das Big Techs.

 

Link para o VanFilosofia: <https://youtu.be/C7n5CVx1q0A>

On the vanishing of ecologies: Latour and global destinies imagined from Brazil

10 outubro, 2022


"Be not the one who debunks but the one who assembles, not the one who lifts the rugs from under the feet of the naive believers but the one who offers arenas in which to gather.”   

Bruno Latour



When a crucial figure to the worldly ecological practices such as Bruno Latour disappears, it may be a signal that ecologies are also disappearing a little. This partial vanishing of ecological resistances is especially felt in Brazil, a country haunted by the near possibility of a second presidential mandate of the Bolsonaro’s militia/family.

    I would not like to, and will not, though, make an obituary of this text; neither am I willing to sketch a short piece collecting the thousand reasons why we in Brazil - and moreover worldwide - should feel that we are all doomed.

Otherwise, I recall that Baruch Spinoza rightly wrote that “A free man thinks of nothing less than of death; and his wisdom is a meditation not on death but on life.” If so, someone’s disappearance always points toward the necessity of a collective effort for relaunching the potency of what Gilles Deleuze, at the threshold of his own disappearance, once called a life

On the other hand, the emergence of neo-fascisms here and there all over the globe calls for a reassembling of collective thinking, feeling and acting towards this meditation on life in-between the death sentences organized by the current power's imagination. The recent Giorgia Melloni’s election in Italy was nothing but the last - and most probably, not the least - push coming from this ferocious wave, tearing everything down around the globe.

One may be asking by now what links Latour’s disappearance with Brazil’s neo-fascism? The answer might lie in the fact that the crossing-over of these two events may help diagnose the danger we are currently in, as well as avoid the mistake of imagining that “what is left” of left-wing parties in Brazil still embodies a genuine political alternative to bolsonarism. It does not, and there is no news (either good or bad) in saying that. 

While we struggle with the metaphysical dualisms of all-set political imagination in the will to stress the insistence of progressive social forces, the far-right literally gains terrain and dissolves every center and left-wings remaining alternatives. Realizing it just shifts the domain where the struggles must situate themselves from now on; and even if the struggles may pass through Brasilia, most certainly they do not rest confined to Brazil’s apparent center of political power, for they are everywhere dispersed, just waiting for ecologies to transversely assemble them.

Brazil is facing the possible re-election of a President whose Administration was responsible for 11% of the global covid-related deaths, when Brazil responds for no more than 3% of the global population (Rede Brasil Atual, 2020) [1]. It is crucial to recall that most of those victims were poor, black, brown, and indigenous people living in every part of the Brazilian territory. As if this amount of tragedy was not sufficient, Bolsonaro’s Administration is also responsible for a 56,6% increase in Brazilian Amazon rainforest deforestation since his government began in 2019 (IPAM, 2022) [2].

Surprisingly or not, as I type these words, I read online that voting polls have just diagnosed an increase in the intentions of Brazilian voters for Bolsonaro, precisely in the areas of augmenting deforestation (Folha de São Paulo, 2022) [3]. How can we understand the conundrum we are all in?

All of that represents no more than two life-menacing local threads linked to the global circulation of flows of information and affects, defining a much more concerning crisis than that one Brazil’s social and political landscape seems to embody with precedence.

What this scenario can make it clearer for everyone is that Brazil’s election accounts for the vanishing of ecologies in a double sense, both regarding life. The first one, concerns the obvious tearing apart of Amazon rainforest, and with it, its bio, social and ethnodiversity. It regards life and its modes, life in the movement of extending transversal lines between land, plants, animals, humans and non-humans, the varying array of usages and techniques, as well as multiple ways of being, doing and relating with one another. When miners or wood extraction industries make a move to kill the Forest, they are vanishing with all the possible ecologies embedded in it.

The second concerns a crisis of subjectivity which is underlined by the more broadened crisis of ecologies. This crisis is fed-back by the disappearing of life, heterogeneous social fields and ethnodiversities, and feed-forward the urban and rural areas with the subjective components and flows of beliefs allowing the deforestation to go unceasingly on.

This crisis seems to have a particular character, though. It is marked by a conundrum that links freedom and death, in which freedom is expressed and experienced in a fascist way of living - a way that is sustained by the exercise of a power of unequally and broadly distributing death around oneself. Bolsonaro’s assassin obsession with arming the civil population is a perfect metonymy for that. This kind of power works everywhere, drilling from the cities to the Forests, as well as the rural areas dynamised by agro-industrial technologies and pesticides poisoning the soils and the waters underneath. 

The social networks work as one of the logistical modals intensifying the viralization of neofascist components of subjectivity. They are also the stage for the mimic-battle of fascists against supposed progressive social forces. It is not a battle of people, and it is less a civil war. What takes place everywhere is a molecular war, where flows of subjectivity, belief and affect - incapable of creating constructive and collective alternatives - confront each other with a variable intensity of political violence, and reassemble their resented sensitivity around catalyzing leaders.

 The conundrum is that the molecular online war effectively makes something. It casts a paradoxical (anti)ecology of concepts and subjectivities that neutralizes and restrain the deployment of ecologies of the environment. And, at least in Brazil, it works everywhere. I am not saying that online social media determine anything. What I am saying is that it is a privileged mixed-semiotic terrain where ecologies and subjectivity couples, composing and decomposing themselves.

The neo-fascist is one plural, mutant and malleable kind of catching-phrase of subjectivities, prepared and intensified online, that is able to produce real and governmental effects. I recall that in the worst period of the pandemics, Bolsonaro’s discourses against vaccines coupled with the proliferation of WhatsApp and Telegram negationist groups, gaining terrain in the social field and giving rise to Anti Vax movements in Brazil - a country globally known for its historically successful vaccination policies.

Everything, even the Brazilian “what-is-left” of the left-wing, make it sound as if we must face a social and political landscape ever-already imprisoned by far right-wing axioms. In Brazil, agribusiness and extractive industries became the model for making capital and surplus for the State's finances and shareholders. Its predominance leaves the impression that there are less and less political spaces akin to what Bruno Latour would call, and advocate for, a Parliament of Things. 

Family and Christian-related religions are engulfing every other possibility of belief, and dissolving the modern frontiers between the theological and the epistemic domains. It does not mean, as a certain Italian philosopher would say, that Medicine or the Sciences have become a new secular religion. What happens is precisely the opposite: religion is dissolving the sciences in a post-modern and pseudo-democratic way Bruno Latour has never imagined, desired or vouched for.

The vanishing of ecologies is getting us to constitute an increasingly more Moralist Parliament of Men and Women (not rare, both of them white, heterosexual, christian-alike and conservative-family-morals-alike) deciding on commodities over life; on deforestation of modes of being and living over what the Brazilian thinker Barbara Szaniecki (2020; 2022) [4] has been calling the “Forestation” of urban spaces, rural areas, forests and, I would add along with Félix Guattari, concepts and subjectivity.

Directing beliefs to the Skies under the form of Christian Faith casts the religious dimension of the ecological conundrum of subjective fluxes we are facing. It calls us to reopen Faith towards the world; to redirect social fluxes of belief and creation down-to-the-Earth, such as the religions of African origin tend to do. Along with, we may try to redirect those subjective fluxes toward the ecologies of openings merged into Amerindian cosmologies. They fabulate a world that already works like a Parliament of Things, in which ecology, human and nonhuman beings take place and are let be.

Our real dilemma is not that there are no progressive alternatives awaiting for a political subjectivity to appear and inscribe itself in it. Our dilemma consists in the lack of positing a consistent ecology of the environment, the subjectivity and the concepts, capable of disassembling death and freedom from the ecumenism of the far-right. 

Our challenge is not limited to stopping the vanishing of ecologies, all over the globe, but to produce the vanishing of the particular ecology of destruction that today answers by the name of the far-right. As counterintuitive as it may sound, we will fail  if we don’t start regaining our own terrain, and relearning how to grow our own ecologies. That is, reassembling freedom and death by ourselves and down-to-the-Earth, in terms of a life 

   

[4].Szaniecki, B. (2020). « A » comme Amérique, Amazonie et abeilles. Multitudes, 81, 169-174. https://doi.org/10.3917/mult.081.0169 . The portuguese reader may consider consulting the Brazilian version issued by Lugar Comum: https://revistas.ufrj.br/index.php/lc/article/view/40885. See also: Szaniecki, B. (2022). Reassembling People, Redesigning Forests, Reforesting Democracy. In Proceedings of the Participatory Design Conference 2022 - Volume 2 (PDC '22). Association for Computing Machinery, New York, NY, USA, 20–24. https://doi.org/10.1145/3537797.3537803 


Murilo Duarte Costa Corrêa 

Associate Professor of Political Theory

State University of Ponta Grossa, Brazil

+ Read more: https://uepg.academia.edu/MuriloCorrêa

O oceânico e o poroso: Marina enredada no aberto

19 fevereiro, 2013





- A #Rede ou arreda?. Eis a posição maniqueísta e ideológica que alguns têm pretendido impor como se fosse, esta, a única forma de pensar o cenário político atual no Brasil em relação à articulação de forças políticas que reemerge com o novo partido capitaneado por Marina Silva, e que bem pode ser o esteio para sua candidatura à presidência em 2014. No entanto, os maniqueísmos em voga – politicamente tão perniciosos quanto metafisicamente impotentes para pensar o concreto, que só nos entrega mistos –, como governismo/antigovernismo, manirismo/antimarinismo, partidarismo/movimentismo, não servem para pensar Marina. Ela parece ser muito mais uma criatura de umbrais que de contradições – e não se trata, tampouco, de dizer que não as tenha...

     Forte e delicada, cosmopolita e regional, Marina e a #Rede querem fundir o mundo, mas sem fundá-lo: por isso, todo o neutro – que não é jamais imparcialidade negligente, mas ativo ensaio a fim de burlar o paradigma. Marina é barthesiana sem se dar conta quando diz que os partidos podem instrumentalizar os movimentos, não mais o inverso. Pode parecer desesperador ou arriscado, mas Marina está tentando amarrar um devir – quanto mais aguentará a democracia representativa partidária quando nossa indignação já não couber nas redes sociais? Que tudo isso possa parecer precipitado, pois partidos fisiológicos como PMDB, PSD, PPS e outros são bem-sucedidos eleitoral e estrategicamente, instrumentalizar um estado de coisas para justificar o impossível que um novo representa é usar as práticas que nós mesmos reprovamos com ideologia imobilista e conformadora.

        A #Rede é porosa, o movimento é oceânico – não há, aqui, nenhum pós-modernismo retórico capaz de levar um pouco de força às figurais tristes e mortuárias de Baumans e Edgares Morins. Há, sim, uma radicalização democrática em que os movimentos penetram e informam as estruturas institucionais – eis o que quer dizer o oceânico e o poroso. E, no entanto, há as contradições e os perigos, de que são portadores todos os seres de umbrais, todas as almas que se abrem; hoje, as duas principais parecem ser as seguintes: 1) a base de financiamento da #Rede, que tenta se purificar, defende o financiamento público de campanhas, mas não exclui expressamente empreiteiras ou empresas potencialmente poluidoras (em 2010, a campanha de Marina recebeu recursos da Andrade Gutierrez, da Camargo Corrêa e da Suzano, papel e celulose); 2) Há, também, certa grita acerca do fato de Marina professar a religião evangélica, o que não agrada em nada à esquerda e a alguns importantes movimentos sociais; para alguns, isso poderia colocar em dúvida a possibilidade de desejáveis avanços no campo dos direitos humanos no Brasil. Contudo, considerando o que o governo Dilma tem feito em matéria de direitos humanos no Brasil – sendo ela ateia ou católica inconfessa, isso prova indistintamente o argumento – me pergunto se Marina, que já expressou ter uma posição tão republicana em relação ao respeito ao princípio da laicidade do Estado, é, de fato, uma ameaça a avanços que, com o governo ateu, agnóstico, não-religioso ou, no limite, católico-envergonhado, de Dilma, sofreram certo retrocesso que só não foi maior em virtude de certo protagonismo do STF em alguns casos capitais – deixando muito a desejar em outros muitos, igualmente capitais. Isto é, tudo tende, nesse plano, a continuar o mesmo: são os movimentos sociais que devem impulsionar as demandas e furar as estruturas - caso elas não sejam suficientemente "porosas" para deixar passar o "oceânico" de que tais demandas provêm.

       Que, por ora, restem inconclusas essas duas grandes e precárias questões sobre Marina e sobre a #Rede, é preciso deixar ressoar, dela – como de qualquer outro movimento político –, aquilo que constitui abertura e radicalização democrática. Tentemos, em um sentido muito compreensivo – deitados ou não na #Rede de Marina –, efetuar aquilo que se insinua no por vir com nossas próprias forças – é a partir de nossas próprias trincheiras que travamos nossas guerras de guerrilha.

       Eis o que há de tardiana e inventivamente mimetizável  no gesto de Marina, porque é precisamente isso o que faz Marina, enredada em seus umbrais – como estamos, também nós, enredados nos nossos. A maior força de Marina é seu apelo, seu chamado heroico, obscuro e indeciso, como convém a toda alma mística. Não compreendam mal: como em Bergson, Marina é mística independentemente de conteúdos de crença; nesses termos, ela é, também, evangélica - como a própria democracia -, mas unicamente na medida em que seu apelo provém do universal, do imanente e do concreto que a própria vida, porosa e oceânica como o movimento ao qual Marina dirige seu apelo, descreve no fundo inaparente das formas de vida.

       Talvez eu não vote em Marina: isto não é um compromisso, nem uma declaração de voto. Esta não é, sequer, uma defesa de Marina; é uma defesa do aberto que – para além de todos os conteúdos acidentais e inessenciais – ela inspira: algo da ordem do supra-intelectual. E o élan vital que Marina nos faz aspirar, e que faz transpirar no corpo aberto do mundo e das formas de vida por vir, é divinamente ateu.

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Desapropriar o mundo: sobre “O mal limpo”, de Michel Serres

14 junho, 2012





“Mergulhado na publicidade, quem, ensurdecido, não percebe um ânus no alto-falante de uma caixa acústica?”

“Lave-se, lave-se bem, só não se lave demais, ficaria doente...”.
Michel Serres.

Le Mal propre: polluer pour s’approprier? (O mal limpo: poluir para se apropriar ?), saído em 2008 por Éditions Le Pommier, e traduzido no Brasil por Jorge Bastos em 2011, para a Bertrand Brasil é, em todos os sentidos, um escrito seminal. Se as incessantes migrações de Serres entre o exercício do pensamento e as ciências físicas, químicas e biológicas já não são novidade, Le Mal propre traduz uma renovada força expressiva em seus escritos: motriz criativa que encantava Gilles Deleuze.
É a partir da força múltipla do vocábulo propre (que significa, a um só tempo, limpo e próprio) que Serres erige a partir da etologia dos animais inferiores os comportamentos hominídeos que presidem todas as formas de apropriação. Sua raiz estaria em duas formas de sujar: malpropre, mais uma variação intensiva do conceito nodal de seu pequeno livro, significa “pouco limpo” ou “sujo”. As marcas ou as nódoas produzidas pelos corpos animais ao tentarem tornar aquilo que era limpo (propre) e impessoal, próprio (propre) e reservado.
Animais como homens fazem usos mais ou menos etológicos, mais ou menos hominídeos da apropriação pela sujeira que erige, em Serres, toda uma teoria muito particular do Direito Natural: “o próprio [le propre] se adquire e se conserva pelo sujo. Melhor ainda, o próprio [le propre] é o sujo”; exatamente como cuspimos na sopa para tornar os outros inapetentes, o logotipo suja o objeto e a assinatura, a página. O limpo é o inapropriado e o sem proprietário; a marca da apropriação é sujar, marcar, traçar, urinar, ou fazer como as putas de Alexandria – das quais os executivos do grande capital descendem em linha direta – e marcar as iniciais invertidas nas solas das sandálias, a fim de que potenciais clientes as pudessem rastrear pelas marcas.
Conspurcação-apropriação: esse par atravessa territórios, campos arados com esterco e ureia, o odor encarniçado que se evola das criptas mortuárias que demarcam lugares comunitários, o cuspe na sopa e toda forma de sujeira dura, testemunhando que os verbos avoir [ter] e habiter [habitar] possuem a mesma origem latina. A vida é concebida, vivida e adormece para sempre sob o chão ancestral com o sujo sangue de patriotas e imbecis de todo gênero; toda cidade é uma cidade dos milhões de mortos que transformaram a paisagem em país e a necrópole em metrópole: “O lugar”, segundo Serres, “não indica a morte, a morte designa o lugar”. Os três lugares fundamentais? O útero, a cama e a tumba: feto, afeto e escuridão.  A vulva torna-se o nicho, a morada do amante que a conspurca e a reserva (tal como um objeto marcado) com sêmen. A cama é o lugar do amor e do descanso; o jazigo, a morada final que o corpo ocupa e suja, retornando.
Para Serres, a apropriação tem uma origem “animal, etológica, corporal, fisiológica, orgânica, vital”, não derivada de nenhum direito positivo e fundamentada, antes, no corpo vivo ou morto; de modo que Rousseau, ao descrever a invenção da propriedade pelos homens na segunda parte do “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens”, teria descrito apenas uma solução imaginária, nascida, muito antes, quando Rômulo, mantendo-se fiel aos lobos que o criaram, matara seu irmão gêmeo e rival, fazendo o direito, e a cives, derivar da vida e da bestialidade. O fato de que um direito natural baseado no corpo e na vida animal tenha se tornado positivo deriva da evolução de práticas duras na direção de signos, e sujeiras, suaves.
Um movimento atravessa do duro dos corpos – e natural – ao suave – e cultural – dos signos. Assim como o pagus converte-se em página, o dejeto suaviza-se em assinatura de palavras e imagens – signos que, rapidamente, tornam-se tão poluidores quando as dejeções dos antigos gestos de apropriação.
Os consumidores tornam-se os locatários de seus carros e produtos: as empresas e suas marcas ostentatórias seriam seus reais proprietários; como continuam sendo proprietários de dados suaves e pessoais (identidade, registros, histórico de compras, hábitos etc.) a respeito de cujo conteúdo não somos mais que locatários.
Poluição dura e suave combinam-se: resíduos sólidos, líquidos e gasosos ao lado de “verdadeiros tsunamis de escritos, de signos e de logotipos com que a publicidade passou a inundar o espaço rural e citadino, público, natural e paisagístico”, escreve Serres. Duras e suaves, as poluições resultariam do mesmo gesto conspurcador, ”a mesma intenção de apropriação e que tem origem animal [...]. Quem cria lagos de viscosidades envenenadas ou outdoors coloridos garante que ninguém, em seu lugar ou vindo depois, vai se apropriar daquilo”. Ou não seríamos capazes de ver, por exemplo, no princípio do poluidor-pagador um retorno da feição excrementária do dinheiro, e sua exclusão, ao mesmo tempo, apropriante?
Eis o motor suave da expansão. Fluxo de poluição - fluxo de dinheiro (registro simbólico do excremento); comunhão espúria de merda, mercadoria e publicidade que rouba a paisagem aos olhos do comum com outdoors, palavras, imagens: dejetos suaves, nódoas intermitentes, precárias, cintilâncias que atravessam e dominam a totalidade do espaço habitável por homens completamente alienados, i. e., possuídos. Sinal de que nada mudou desde os chacais. Quando as poluições duras são suavizadas e retornam com toda dureza, já não se pode separar poluições duras e suaves, como não se podem separar natureza e cultura ou forças e códigos: “É verdade”, escreve Serres, “só sabemos falar de poluição em termos físicos, quantitativos, ou seja, por meio das ciências duras. Mas, não, é precisamente de nossas intenções que se trata, de nossas decisões, de nossas convenções. Em suma, de nossas culturas”.
A poluição global apropria-se de tudo e derruba toda barreira e marcação onde antes sujávamos ingenuamente o nosso nicho. Já não há mais espaço mapeável, marcações ou divisórias possíveis: trata-se da luta pelo espaço em sua totalidade. O apagamento dos limites suprime a própria possibilidade de apropriar-se, de forma que o direito de propriedade atinge, nesse extremo para sempre excedido, “de repente, um patamar insuportável, perfeitamente impossível à vida”, e o mundo torna-se um mundo que, não podendo mais tê-lo, só poderemos habitá-lo como locatários – princípio do Contrato Natural com o qual Serres denuncia “a ordem cartesiana, ato agressivo e leonino de apropriação; não devemos mais nos impor como donos e senhores da natureza”, eis o princípio de uma nova cosmocracia. Sua política? Desejar e praticar o desapossamento do mundo.
Descobrir, levantar camadas e estratégias, desmanchar crostas e perceber a beleza num êxtase sem signo. “Res nullius, mundus”, o mundo teria se tornado, por excelência, o inapropriável a homens que tampouco se pertecem ainda: “Homo nullius”. Eis o que demarca o fim da história de um gesto: o de poluir para se apropriar.
A ele, segue-se a prática de um dever de  reserva, que assume quatro sentidos positivos: (1) coletivo e objetivo, designa a relação do homem com seu hábitat; (2) subjetivo, designa uma obrigação de desprendimento; (3) jurídico, que compreende a totalidade do mundo e das coisas como “a sucessão hereditária das gerações futuras”; (4) locativo, pelo qual “não há mais propriedade além da minha reserva”, meu nicho, seio de fragilidade e miséria ontológica imanentes ao Homem: “O primeiro que, tendo cercado uma horta, cuidou de dizer ‘Isso, para mim, basta’ e permaneceu egônomo, sem babar como um caramujo por mais espaço, teve paz com seus vizinhos e guardou o direito de dormir, de se aquecer, além do direito divino de amar. É puro Jean-Jacques em versão Serres”. Sequer a assinatura, o selo ou o nome, persistem próprios: todo nome é uma locação, signo arbitrário, leve, branco, “Suave, miserável e sem lugar”.
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