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Felca e nós

13 agosto, 2025

Murilo Corrêa


O efeito-Felca


Há seis dias, o youtuber Felca publicou um vídeo sobre a “adultização” e a exploração sexual de crianças e adolescentes nas redes sociais. Todo mundo viu. Ou quase todo mundo. Enquanto escrevo essas linhas, o Youtube contabiliza mais de 36 milhões de visualizações em um canal de humor irônico que, hoje, conta com 5,88 milhões de inscritos. Muito provavelmente, quando o leitor as ler, esses números já terão se multiplicado.

No vídeo, Felca denuncia a lógica plataformizada de exploração e sexualização de menores em redes sociais através de casos. Entre os principais, está o do influenciador Hytalo Santos, acusado de submeter adolescentes — como “Kamylinha”, presente no programa desde os 12 anos até os 17 — a um “reality show” com clima adulto, incluindo danças sensuais, festas, bebedeiras e um vídeo de pós-operatório de implante de silicone. Também são abordados conteúdos sensíveis, como a venda de imagens íntimas de menores em grupos fechados, e o canal “Bel para Meninas”, investigado sob suspeita de exploração emocional.

Com a estrondosa repercussão do vídeo, o Ministério Público instaurou investigações dos casos citados, apurando possível exploração infantil e violação do Estatuto da Criança e do Adolescente. O Conselho Tutelar e a Polícia Civil passaram a acompanhar os menores envolvidos, enquanto plataformas como Instagram e TikTok removeram contas denunciadas e afirmaram estar revisando políticas de proteção infantil. 

Felca fez um trabalho jornalístico que nenhum jornalista fez. Gerou um impacto afetivo que nenhuma mídia tradicional de massas gerou. De quebra, produziu efeitos políticos e sociais que nenhum partido político ou formador de opinião conseguiu obter. É que o vídeo de Felca não é apenas factual e jornalístico, mas produz uma operação sensível, formula um problema concreto e situado e, por fim, convoca à ação. Isso faz dele mais do que um mero vídeo que denuncia aquilo que todo mundo sabe que está nas redes.

Talvez estejamos diante de uma operação subjetiva original e, com sorte, de uma nova possibilidade de luta em rede: as lutas dos usuários, daqueles que são tratados como usuários pelas Big Techs e plataformas que gostariam de modular nossa existência, subjetividade e possíveis. Trata-se de uma luta que se desenvolve no cerne da economia de atenção que as redes mobilizam, e que no fundo é, como o vídeo de Felca parece mostrar exemplarmente, uma economia do desejo e da sua perversão.




Mais vigilância, por favor!


Felca e nós estamos no capitalismo. Sua crítica à monetização de conteúdos que exploram o tratamento de crianças e adolescentes como adultos, bem como sua exposição hiperssexualizada, não é e está longe de ser uma crítica ao capitalismo. Assim como o uso crítico e judicioso que o Sleeping Giants Brasil faz das redes como meio de denúncia e mobilização para desmonetizar fake news e (permitam-me usar esse atalho cognitivo) “discursos de ódio”, tampouco é uma crítica ao capitalismo de plataforma. Trata-se de uma luta no cerne dos fluxos de desejo, crença e finança que alimentam monstros que nos parecem intoleráveis – enquanto a outros talvez possam soar inteiramente familiares.

Ao criticar a monetização da exploração sexual de crianças e adolescentes nas redes, Felca se pergunta como isso ainda é possível. É que, apesar de estarmos no capitalismo, ele não é tão de “vigilância” assim, como supôs (entre muitxs) Shoshana Zuboff. O capitalismo em que vivemos é, sem dúvida, algorítmico e de dados, mas o que Felca mostrou é que os algoritmos vigiam apenas quando “querem”, “se querem”, e só nas hipóteses em que “fazer vistas grossas” não se mostrar mais rentável. A mesma lógica vale para a dispersão infinita e a ilimitação das bets, plataformas de jogos de azar digitais regulados e tributados de maneira soft no Brasil, e que Felca também denunciou.

Assim como no caso das bets, no da exploração sexual de crianças e adolescentes em “redes sociais de propósito geral” – curiosamente, plataformas 18+ talvez disponham de maior vigilância contra as práticas de pedofilia –, tudo se passa como se o que faltasse ao capitalismo de vigilância fosse, paradoxalmente, vigilância.

Da mesma forma como às empresas que ingenuamente se utilizam do Google ou dos Ads do Facebook e do Instagram, e terminam alavancando fake news e discursos de ódio, faltaria ao capitalismo de plataforma e às redes sociais a mesma vigilância que permite aos algoritmos serem tão eficientes ao entregar a usuários anúncios personalizados baseados em dados. 

Os casos de adultização e de exploração plataformizada sexual de menores – exploração que prolonga online explorações que ocorrem também offline – relatados por Felca parecem dobrar a aposta política do capitalismo de vigilância prolongando-o na forma de uma ética técnica mínima: se vamos ser vigiados, então façam o favor de vigiar direito! Incluam os pedófilos e os exploradores de menores… Mais vigilância, por favor!





A virada moral


Em setembro de 2017, o Santander suspendia com um mês de antecedência a exibição do Queermuseum – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, até então em cartaz no Santander Cultural de Porto Alegre. As acusações que motivaram a interrupção da exibição foram veiculadas em protestos agenciados por redes sociais e afirmavam que as obras blasfemavam contra símbolos religiosos e promoviam a zoo e a pedofilia. Tratava-se de uma exibição composta por 270 obras de 85 artistas brasileiros desde o início do século XX ao século XXI, e que tratavam de temáticas da diferença, como LGBTQIAPN+, gênero e questões sexuais.

Esse período, que se confundiu com a emergência e cristalização do Bolsonarismo, foi também o período de um pânico moral generalizado que tinha por objeto o combate à assim chamada “ideologia de gênero”, à “escola sem partido” e à “comunistização” (em larga medida imaginária) das crianças e adolescentes pela via da educação e do acesso à cultura. Uma prédica que seria cômica se não fosse trágica num país como o Brasil, assolado pelos obstáculos e desigualdades de acesso de crianças e jovens a direitos fundamentais como educação, cultura e lazer.

Não muito distante dessa atmosfera conspiranoica de pânico moral ao redor da infância, estavam a denúncia de Damares Alves sobre uma rede de exploração sexual de crianças no Pará, e a corrida de evangélicos e bolsonaristas aos cinemas para assistirem à exibição de Sound of Freedom (2023), filme baseado em fatos reais e dirigido por Alejandro Gómez Monteverde que retrata a exploração sexual e o tráfico internacional de crianças e adolescentes dentro de uma trama de ação previsível à la americana.

No seio desses movimentos é que as direitas brasileiras avançavam sobre a pauta da proteção das crianças e adolescentes como um dos elementos centrais da estratégia de capturar temas relacionados à família e à sua proteção contra a decadência do seu perfil tradicional e sua “corrupção moral” – ambas atribuídas a um progressismo das esquerdas quanto à pauta de costumes. De seu lado, as esquerdas ficaram capturadas na trincheira da guerra cultural da defesa da diferença inespecífica, das múltiplas formas de amor abstratas e da liberdade de expressão descorporificada.

Até há pouco tempo, essas oposições se distribuíam estavelmente entre direitas e esquerdas no Brasil. Enquanto Lula esteve preso, desapareceu a esquerda punitiva de que falou Maria Lúcia Karam, e emergiu a esquerda garantista e defensora de direitos humanos, enquanto a direita brasileira brandia o discurso judicialista, punitivista e anticorrupção, surfando politicamente nas pautas de segurança pública. Já agora, quando Bolsonaro enfrenta uma prisão domiciliar em caráter cautelar, e Carla Zambelli aguarda presa na Itália uma provável extradição, os papeis se invertem. Surge uma direita garantista, crítica do ativismo judicial que incensou em Moro (embora os papeis de Moro e Moraes estejam muito [muito mesmo!] longe de se equivalerem), e repentinamente defensora de direitos humanos. Por outro lado, retorna a esquerda punitivista, que não abdica do discurso dos direitos humanos, mas que os compreende subsumidos à forma democrática do Estado (os quais, de fato, estão).

Poderíamos multiplicar os exemplos até o aborrecimento. O que importa aqui é compreender a virada moral que hoje atravessa esquerdas e direitas. É evidente que ela se segue de uma virada situacional. No entanto, mesmo essa virada parece manter a oposição entre esquerdas e direitas em seu lugar. Enquanto, nos últimos anos, todo mundo falou de “polarização” sem cessar – palavra que gastamos a ponto de se tornar proscrita e odiosa no vocabulário político corrente –, sempre preferi falar em oposição em sentido tardiano.

Gabriel Tarde, genial jurista e sociólogo do final do século XIX, início do XX, definiu as oposições como fenômenos inteiramente regulados por relações de simetria, identidade e neutralização. Onde parece haver uma diferença abissal, é precisamente onde Tarde a vê desvanecer na forma de uma variação meramente aparente, que mantém um estado de coisas em equilíbrio e no seu lugar de costume. É que as oposições supõem uma identidade subliminar entre os dois termos opostos. A estratégia da oposição passa por conservar a diferença meramente aparente que encarna, ao mesmo tempo em que doma e aniquila qualquer diferença que fuja da identidade de fundo que sustenta a oposição.

Ao contrário da ideia de polarização, a oposição talvez seja um conceito ainda útil do relicário tardiano, na medida em que ele nos permite pensar a variação apenas aparente das trocas de posições entre uma esquerda que já não tem nada a nos oferecer e uma direita que tem tudo a nos tirar. Nesse contexto politicamente desolador é que o vídeo de Felca produziu um dos fatos políticos mais poderosos dos últimos tempos, e ele está ligado às lutas dos usuários.




Lute como um usuário


Certa vez ouvi de um teórico que respeito e admiro muito uma pergunta à queima-roupa, e muito sagaz: como os usuários farão política num mundo que os trata precisamente como usuários? Não estaria aí um limite bastante incômodo à teoria guattariana dos grupos de usuários - ideia que elaboro em La jurisprudencia de los cuerpos para dar sentido à filosofia do direito de Deleuze? A resposta poderia ser: “do mesmo modo como operários fazem política num mundo fabril que os trata como operários, ou mulheres e negros fazem política num mundo machista e racista que os trata como mulheres e negros”, e assim por diante.

O limiar aparentemente político que tocamos aí não é outro senão a da própria estrutura que uma singularidade tensiona, a do próprio meio no qual seu potencial de disparação se introduz. Chamemos a isso singularidade, operário, mulher, negro ou usuário: os usuários fazem grupos precisamente num mundo em que os trata como usuários por toda parte. Isso talvez seja menos uma limitação do que as condições muito materiais de um chamado à ação.

Com seu vídeo Felca não apenas “Furou a bolha”, mas lutou como um usuário e produziu uma cascata de efeitos offline. Ao enunciar um problema situado, cartografá-lo, dimensioná-lo, pesquisá-lo como talvez coubesse a jornalistas ou antropólogos, Felca produziu uma política de usuários e reconectou singularidade e meio estruturável, micro e macropolítica. Uma transformação que só podemos conhecer pelos efeitos que dispara. 

Um deles foi alcançar grupos de todos os espectros políticos no WhatsApp, de acordo com monitoramento realizado pela consultoria Palver. Outro foi produzir um curto-circuito nas extremas direitas. Entre todos, a senadora Damares Alves deu declarações em que reputava o tema da adultização como um cavalo de Tróia que permitiria à esquerda avançar seu projeto de regular as redes. No mesmo sentido, o deputado Nikolas Ferreira acusou a esquerda de criar uma cortina de fumaça para passar a proposta de regulação.

Em que consiste essa política de usuários? Ela consiste em embaralhar os termos da oposição entre as direitas (garantistas, mas golpistas) e as esquerdas (punitivistas, mas democráticas). A adultização e a exploração monetizada da sexualização de menores – um tema da subjetividade social e dos fluxos de desejo que atravessam e ajudam a constituir redes, algoritmos e valor econômico – tiraram por um momento das mãos das direitas o debate público sobre a proteção de crianças e adolescentes, ao mesmo tempo em que municiaram um debate contextualmente caro às esquerdas sobre a regulação de megaplataformas e redes sociais.

As direitas foram confrontadas com sua hipocrisia moral, e terão de escolher entre seguir seu discurso de pânico sexual até o fim, ou seguir o discurso de liberdade de expressão nas redes até as últimas e potencialmente autofágicas consequências. Já as esquerdas foram forçadas a ingressar no campo do debate dos valores e da moralidade, um território pantanoso antes entregue ao monopólio das direitas. A ver como vão se virar com isso.

Mas o efeito-Felca foi muito mais profundo. Ele não só produziu uma revisão nas políticas de megaplataformas, como deu o ensejo para que grupos de usuários heterogêneos se formassem em torno do problema – um problema que só se torna efetivamente visível sob a condição de ter sido enunciado como tal. Além disso, também, gerou efeitos macropolíticos de larga-escala em todos os setores inertes da política legislativa nacional, que se apressaram em formular mais de 32 projetos na Câmara dos Deputados do dia para a noite, sob o empuxo do efeito-Felca.

Lutar como um usuário é afundar-se nas condições materiais circundantes de um meio habitável. Felca o fez na condição de um usuário de plataformas e de um formador de público majoritariamente Gen Z, como ele próprio. A mesma garotada que anda tirando fotos de cybershot e comprando dumbphones para tentar aguentar o vórtice digital interminável que se tornou a vida de cada um de nós. Lutar como um usuário é formular um problema que mude a partição sensível e dê consistência a um grupo de usuários que não tinham grupo – até se verem alvejados por um enunciado que contém um problema que faz sentido. Eis o ponto em que a subjetivação acontece e o transindividual opera suas conversões.

Lutar como um usuário, como no efeito-Felca, ou no efeito-Sleeping Giants BR, é saber converter a figura do inventor na do repetidor, fazendo uma singularidade mobilizar circuitos cada vez mais vastos, heterogêneos e inesperados.

Capitalismo, tecnologias, nómos e música

16 junho, 2024


Alguns ensaios que foram publicados em 2024/1, que gostaria de compartilhar com vocês:

- Surveillance capitalism and algorithmic struggles, com Giuseppe Cocco, para Matrizes/USP; (Versão em português)

- Moldar e modular: penalidade e abolicionismos nas sociedades de controle, para Passagens/UFF;

- De volta ao ritornelo: nómos e música em Deleuze e Guattari, para Direito e práxis/UERJ; (English version of Back to the refrain: nómos and music in Deleuze and Guattari is coming soon).


Espero que gostem!

A billionformação dos mundos: Musk, Altman e o cão na vitrine

26 julho, 2023


O úmido e o vivo

Olho a noite lá fora e recolho tudo o que tenho. Dirijo-me à sentinela do quinto andar da Biblioteca Nacional Mariano Moreno, situada numa bela Babel brutalista, que um dia foi dirigida por Jorge Luis Borges, e hoje parece dirigida por seguranças terceirizados.

– “¿Te retiras?”, disse ela apanhando a caneta.

– “Sí, me retiro.”, e lhe estendo minha credencial. Ela anota 19:04, e eu lhe digo “Gracias, buenas noches”. Escuto um “A vos” enquanto caminho na direção do locker número 08.

Encasacado e de mochila nas costas, desço pelas escadas até o térreo. Lá, me aguarda uma catraca eletrônica, onde deposito o cartão que libera minha saída. Um enorme vão livre e dois lances de rampas depois, um pequeno trecho da Agüero me faz desaguar na Gen. Las Heras.

Caminho da Recoleta até o Alto Palermo. Ando por Las Heras até cruzar a Sánchez Bustamante. Logo me deparo com uma loja. Espelhos e molduras. Síntese de uma civilização global, as suas imagens narcísicas e os seus enquadres sensíveis prêt-à-emporter.

Na vitrine cheia de espelhos, em que os passantes costumam parar para tirar selfies, vejo que dois olhos me olham de volta lá de dentro. Hesito por um momento. Não consigo saber se o que me olha é uma estátua ou um cão. Tiro uma foto.


Sinto uma pequena vertigem. A aceleração de uma micro-alucinação perceptiva embaralha os sentidos. Preciso olhar mais uma vez, e outra vez, e fixamente dentro daqueles olhos. Preciso examiná-los para descobrir ali uma doce umidade, e perceber que aqueles olhos me olham de volta com vivo interesse. Um átimo depois, como mágica, a estátua começa a menear a enorme cabeça, como se tentasse captar o cheiro do estranho através da vidraça. As orelhas balançam como um feltro, que quase sinto tocar.

Eppure si muove!, pensei, e ao invés de evocar Galileu, minha cabeça foi parar muitos séculos antes, e me lembrei de Aristóteles. Embora hoje saibamos que as plantas também viajam no espaço à sua maneira, ele atribuía ao movimento, e à capacidade de locomover-se, a diferença entre a vida vegetal e a animal.

E olhando mais uma vez os seus olhos viscosos, o seu brilho incomum, me veio à mente a anamnese platônica; a metáfora do olho que se reconhece, e ao Ser, olhando-se por dentro, ou ao reconhecer a própria imagem refletida no olho de um outro. As duas mediações do “conhece-te a ti mesmo” – uma obsessão que não era nossa, mas a História mundial acabou por torná-la. Antes disso, talvez a obsessão fosse “conhece os mundos”, ou não houvesse obsessão – mas quem saberia?

E então me lembrei de Borges, em Deutsches Requiem, dizendo que todos os homens nascem aristotélicos ou platônicos; que não há debate abstrato que não seja um momento da eterna polêmica entre Platão e Aristóteles: “através dos séculos e latitudes”, escreveu ele, “mudam os nomes, os dialetos, as faces mas não os eternos antagonistas.”

Para mim, era substância demais. Ali, face a face com o indeterminado, eu não me sentia nem platônico, nem aristotélico. Não reconhecia nada. Nem a estátua, nem o cão, nem a mim mesmo no visgo escuro dos seus olhos úmidos. Não havia espelho, nem moldura. Nada de anamnese, ou hilemorfismo para encher os quadros. Ali estávamos, o cão e eu, em meio a outra coisa – como são os pequenos acontecimentos. Era só um visgo escuro, em cujo centro calmo eu via boiar um brilho especial no meio da noite. Era só um meneio curioso, uma cabeça imensa.


Agarrando usuários pelo bolso
 

Poucas horas antes, eu havia lido que Sam Altman, CEO da OpenAI, e Alex Blania, da coinvestida startup UBI, haviam lançado um batalhão de orbes pelo mundo para escanear a íris das pessoas. Em troca, elas receberiam tokens de uma criptomoeda que foi batizada de Worldcoin (WLD). Uma criptomoeda baseada em tecnologia blockchain, negociável a mercado, e que poderia subsidiar uma renda básica universal – só não se sabe como.

A aposta é de que, nos próximos anos, na medida em que a IA evolua para uma Inteligência Geral Avançada (AGI, em inglês), a IA deve criar um salto de produtividade e uma tal disrupção nas cadeias de remuneração das atividades humanas que não seria nem justo, nem moral, deixar de dar um fim à pobreza num mundo que enriquece cada vez mais.

Seus propósitos seriam, portanto, distributivos e anticocentracionários quanto à riqueza da IA. Nas palavras de Altman, “Se nós temos uma sociedade suficientemente rica para dar fim à pobreza, então nós temos a obrigação moral de encontrar um jeito de fazer isso”.

Mas os orbes, na verdade, são máquinas de certificação identitária. Na medida em que as IAs se desenvolvem a ponto de passar no teste de Turing, se torna cada vez mais difícil saber quando estamos diante de um humano ou de um não-humano, de um vivo ou de um não-vivo. Sobretudo, fica difícil saber com quem estamos falando, ou com o quê.

Ao invés de prolongarmos as proliferações dessa indeterminação, os orbes de Altman e Blania se propõem a verificar e autenticar a humanidade de cada um biometricamente. Assim que alguém encontra um orbe em New Delhi, Londres, Pretoria ou São Paulo, escaneia sua íris, recebe uma identificação única, um punhado de criptomoedas, e passa a ser um “humano verificado”. Fizeram até camisetas. Altman jura de pés juntos que a OpenAI não guarda dados das íris das pessoas, e dá a elas a opção de estocá-los de forma criptografada.

Enquanto isso, Elon Musk preparava um avanço no seu projeto de fazer do Twitter um Everything App. Musk rebatizou a plataforma objeto de uma aquisição hostil, no valor de 44 bilhões de dólares, matando a logo do passarinho. A logo havia sido criada em 2010 em homenagem a Larry T Bird, jogador do Boston Celtics.

Chega a ser irônico pensar que as fazendas de painéis solares, que estão no horizonte das alternativas de energia “limpa” para abastecer, entre outras coisas, os Teslas de Musk, sejam responsáveis por matar dezenas de milhares de pássaros nos Estados Unidos todos os anos.

Trágicas ironias à parte, Musk quer mais do que matar passarinhos azuis com o rebranding que transformou o Twitter em X Corp, e os tweets em xs. Ele quer empurrar a plataforma e seus usuários para dentro de uma nova cena de competição em que já estão o WeChat chinês, o PayTM indiano e o GoJek indonésio.

Embora o X de Musk pareça uma cópia ocidental de lógicas plataformadas de subsunção financeira e biopolítica que já existem no Leste asiático, Linda Yaccarino, CEO da X Corp., definiu X como o estado da arte dos Everything Apps: “X é o futuro estado de interatividade ilimitada – centrada em áudio, vídeo, mensagens, pagamentos e serviços bancários – criando um marketplace global para ideias, bens, serviços e oportunidades”.

Como a Meta, de Zuckerberg, X é a tentativa de fazer um mundo, mas um mundo não necessariamente à parte deste. Porque ele se instancia nos corpos, nos usuários, no seu tempo livre, na sua produtividade e força de invenção, bem como no valor dos efeitos de rede; estes, que podem dar valor, por exemplo, a uma moeda tirada do nada.

É o que, de repente, fez a Worldcoin, de Altman e Blania, adquirir alguma relevância. A partir de um empuxo neocolonialista que recrutou seu primeiro meio milhão de usuários em países de Terceiro Mundo por meio de táticas que foram descritas como “práticas de marketing enganosas”, e que “falharam em obter consentimento informado” dos usuários, o que começou como “uma base de dados biométricos dos corpos dos pobres” começa a se generalizar para todo o globo.

Isso porque a própria estratégia de Altman e Blania é fazer bola de neve com os efeitos de rede que a Worldcoin pode ajudar a desencadear: “o primeiro milhão de pessoas, os early adopters, as pessoas mais avançadas, convencem os próximos 10 milhões. Então, os próximos 10 milhões estão próximos dos normies [a subjetividade online mainstream, o “gado” da Internet]. Eles convencem os próximos 100 milhões. E estes são realmente os normies que convencem os outros poucos bilhões”, diz Blania.

Toda estratégia de negócios bem-sucedida na era das redes é, na verdade, uma gigantesca operação de silogismo social. Uma grande engenharia cibernética para se normalizar no socius, que começa levando algumas dezenas de milhares de pessoas a se engajarem e aceitarem as premissas da sua operação (geralmente, pobres e racializados do Terceiro Mundo). Então, com a mediação das ações de marketing adequadas e ajustadas ao público que se quer subsumir, os efeitos de rede fazem o resto, conseguindo embarcar uma boa parte do resto do mundo na sua propagação contaminante.

Uma moeda, como a Worldcoin, só adquire valor porque algumas pessoas a aceitam e acreditam nela; porque lhe atribuem valor, e imputam suas crenças a um instrumento de circulação social. Um pouco como as pessoas acreditam nas previsões oraculares de Musk sobre o Bitcoin. Basta que ele “tuíte” – perdão, que ele “éxe” –, e os efeitos de rede e o comportamento de rebanho dos seus seguidores funcionam como gigantescas alavancas distribuídas. Elas se encarregam de fazer com que suas profecias se tornem realidade.
 

Isso só acontece porque o que instancia o valor de uma moeda, tirada ou não do nada, é o tecido vivo e micrológico das relações estruturadas e estruturáveis entre os corpos e os vivos. Os conteúdos das suas crenças e desejos. A maior ou menor confiança que se atribui a ela, como Bruno Cava e Giuseppe Cocco explicaram em A vida da moeda.
 

O que Altman e Musk sabem bem – a par de seus primos asiáticos WeChat, PayTM  e GoJek – é que não há forma melhor de agarrar usuários do que pelo bolso. Não apenas distribuindo free money por dez segundos de scan da sua íris, mas sendo o gatekeeper dos fluxos financeiros dos usuários, seu garantidor e seu milieu privilegiado de transações.


A billionformação dos mundos


Ao contrário do que afirmam bitcoiners e fintechers, não caminhamos para uma sociedade desbancarizada, mas na direção da vertiginosa multiplicação e dispersão da bancarização e da financeirização. A horizontalização das moedas e das finanças, facilitadas por sua abstração e digitalização, andam de mãos dadas com as desterritorializações que se impõem às atividades dos corpos e dos vivos. Então, não é que os bancos desapareçam; nem que os bancos estejam por toda parte. É que tudo vira banco, inclusive nós mesmos.

Mesmo os trabalhadores precisam gerir sua carreira como ativos de capital humano, suas férias e seu tempo livre como bancos de horas, sua aposentadoria e inatividade como uma reserva de ativos para o futuro – e que não pode acabar enquanto se estiver vivo. E, nas horas vagas, os usuários ainda pilotam os aplicativos de seus bancos para gerir recursos, fazer investimentos, adquirir seguros, pagar boletos, relatar golpes cibernéticos, aderir a ofertas etc.

Na medida em que atividade, dinheiro e informação se tornam fluxos intercambiáveis e fungíveis, ficamos muito próximos do que William Burroughs descrevia em The limits of control. Há um grupo de controladores que tenta governar pelo poder do dinheiro. E mil outros grupos de usuários que não param de fugir. De passar de uma plataforma a outra. Criar fakes. Bots. Hackear usos. Cancelar contas. Deletar dados. Desertar. Migrar para outros espaços de assemblage. Voltar. E reencontrar tudo alterado.

Por um lado, o poder do dinheiro não pode ser violento. Ele é soft, modulador, um ourives da liberdade individual. Isso não faz a violência desaparecer, mas implica uma nova articulação entre dinheiro, poder e violência e, possivelmente, uma distribuição de agenciamentos desiguais entre territórios centrais e periféricos. Fazer um ecossistema de relações e fluxos consistir numa nova Umwelt, na criação de um mundo circundante, é a operação de controle que anima todas as demais.

Como nos vídeos do Mr. Beast, um jogo é arranjado e escolhe os seus competidores, que estão lá por livre e espontânea vontade, e vão se submeter a seja lá o que for que o jogo proponha – porque conservam a crença de terem uma oportunidade de jogar e ganhar, mantendo a liberdade de sair a qualquer momento.

Mas sair é perder, ou deixar de ganhar. Então, o fear of missing out governa. O dinheiro tem poder, não só porque ele cria uma estrutura, institui as regras do jogo, inventa os mundos e os informa, mas porque ele canaliza os fluxos, apela à sua liberdade, os faz ceder, tenta ganhar dos corpos pelo cansaço.

Não sei se estamos saindo do capitalismo de plataforma, ou se já atingimos uma etapa verdadeiramente monopolista, que Nick Srnicek chamou de “Platform Wars”. O que a atual fase do desenvolvimento do capitalismo deixa claro são duas coisas. Primeira, que vivemos a época da billionformação dos mundos. Não é, nem nunca foi, sobre terraformar Marte, ou a própria terra – mais e mais informe a cada ano do Capitaloceno. Sempre foi sobre billionformar os mundos. Sobre o poder do dinheiro e o poder dos grupos de controle.

Segunda, que a billionformação dos mundos não nos deixará sair das antigas hierarquias e dimorfismos, nem das racializações, embora suas técnicas contenham (no duplo sentido de possuir e limitar) o potencial para produzir esse êxodo. Ainda que, nas técnicas de controle, nada esteja determinado de uma vez por todas.

Isso fica claro nos orbes autenticadores de humanos de Altman. Nos everything  apps que já estão entre nós. Os controladores não podem deixar espaços nos controles, como a indeterminação que faz a percepção hesitar entre o deserto apagado do olhar de uma estátua e os olhos úmidos e vivos de um cão. Precisamos saber, sempre, em que mundo estamos. Precisamos saber de onde procede o que estamos vendo, e com quem, ou com o quê, estamos falando.

Que os índices biométricos e, no fundo, os corpos, funcionem como as instâncias que permitem verificar os humanos é prenhe de consequências. Basta lembrar que Roberto Esposito, em Persons and things, afirmou que o corpo era precisamente o limiar de indeterminação entre pessoas e coisas que tornava possível determinar a diferença significante entre uma pessoa e uma coisa na experiência do direito romano antigo.

O corpo de um escravizado, então, pode ser mais coisa do que pessoa, e estar suscetível à apropriação e à circulação em dado regime. O corpo de um cidadão pode ser mais pessoa do que coisa, e ter seu corpo e sua personalidade gravado pela indisponibilidade de certos direitos sobre o próprio corpo.

Tomando os corpos como substância estável, toda natureza e todo artifício podem ser verificados num dimorfismo, e isso nos deixa a sós com os ecossistemas da billionformação dos mundos. O sistema só diz “sim” às alucinações perceptivas programadas, e nenhuma delas muda nada. Nenhuma alteração de mundos é permitida. Assim como os controles, o corpo aparece como a sede da determinação dos dimorfismos e como leito de indeterminação que poderia levar a novas lutas.

Por isso, deveríamos nos perguntar o que acontece quando tudo devém-banco, ou fluxos financeiros livres. Quando a atividade do vivo, a informação e o dinheiro se tornam perfeitamente intercambiáveis. Acontece a billionformação dos mundos. Bilhões são gastos na esperança de fazer trilhões concorrerem para dentro do mesmo meio, da mesma plataforma, participando constitutivamente de um mesmo ecossistema de relações a que o dinheiro dá consistência.

Já não é mais o capitalismo liberando fluxos com uma mão e axiomatizando com a outra. São os bilionários liquidando o mundo com uma mão e destilando mundos com a outra.

A única boa notícia, que Burroughs percebeu com precedência, é que embora o dinheiro tenha poder, os controles não são totalmente determinados pelo dinheiro. Aliás, nem o dinheiro é determinado pelo dinheiro – mas pelas relações e pelos corpos, pelas curvas de crença, confiança e desejo.

Isso insere um vetor de indeterminação social e pragmática na equação dos mundos billionformados que estão na soleira das nossas portas. Mais que isso, o impasse dos controles, sob pena de se autossuprimirem, é o controlar sem jamais poderem ir até o fim do domínio da vontade, ou na automação do desejo.

Para mim, bastou o encontro com um cão na vitrine. Mas eu me pergunto que evento de percepção será necessário para entendermos que aí está toda a política do nosso tempo. As lutas pelos ritmos das modulações da vida e dos mundos. E que somos nós contra eles. Os grupos de usuários contra o grupos dos controladores.

"isso vai dar repercussão"

06 maio, 2023

Isso vai dar repercussão (2004) é o título de um álbum do percussionista Naná Vasconcelos e do cantor, ator, baixista, compositor e poeta Itamar Assumpção. Pequena joia da genialidade negra brasileira. Ou, como diria um outro projeto de Itamar, joia da genialidade Pretobras.

Acabei me lembrando desse álbum - e vou levar seu título de "arrastão" para esse post. Vocês já vão entender o porquê.

Arrastão era a estética que Tom Zé reivindicava em Esteticar, faixa de Com defeito de fabricação (1998) - o álbum que me deu o dom de conhecer sua música no início dos anos 2000. Coincidência ou não, esse álbum explorava a possibilidade de os humanos se tornarem androides, mas defeitos "genéticos" - como o desejo de dançar - talvez pudessem impedi-lo. É o tema da sobrecodificação, do capitalismo mundial como força de organização de uma semiótica mista que afeta, conforma e conflagra territórios  existenciais. O álbum foi produzido, entre outros, por David Byrne - que poucos anos antes, havia descoberto Estudando o samba (1976) [Playlist], de Tom Zé, num sebo carioca, e mais tarde ajudaria a tirar Tom Zé tanto do ostracismo quanto da penúria.


Mas, cutting right to the chase, tudo isso importa porque esse post é quase um autoplágio - prática que é condenada e celebrada hipocritamente nos meios acadêmicos. Porque os que mais condenam o autoplágio são os que mais se autocitam.

Parece errado levar de arrastão uma coisa de si mesmo. Não é uma violação da lei da inovação, mas um ódio à própria possibilidade de repetir. E o paradoxo está precisamente aí:

- Nada de autoplágio. Esquentou a marmitinha de ideias uma vez, come logo. Está proibido requentar;

- Autocitação, tudo bem, mas moderadamente.

- Republicações, quem quer saber? (Spoiler: eu quero. Porque elas me dizem como um conjunto de ideais circula no regime de nonrivalry da informação).

Esse é um dos sistemas mais malucos que existem, o acadêmico. Porque impede de perseguir sadiamente aquilo que é a força do nosso trabalho: a obsessão. Impede que a pesquisa seja, também, uma clínica de si mesmo e dos outros. A força de obsessão é uma certa ideia fixa. Não era o narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas quem rogava: "Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa!"?

Uma ideia fixa nunca é uma ideia, e jamais é fixa. Ela esconde uma pluralidade de repetições discretas, íntimas, imperpectíveis. Uma série de deslocamentos insensíveis, de reviravoltas na maneira de perceber e de colocar problemas. Uma ideia fixa contém inumeráveis repetições capazes de fazer diferença (essa não era a definição de informação para Bateson? "Uma diferença que faz a diferença?").

Mas, claro, os sacanas das boas maneiras editoriais vão nos impor ler x, y, w, z, fazer todo um escarcéu da literatura secundária, inventar um cânone ali onde ele sequer existe como tal - e, talvez, até bendizer as repressões intelectuais, os quadradismos e o culto das formas científicas porque - sem o saber -, elas produzem fugas e deformidades que podem de fato se revelarem maravilhosas! Isso, é claro, quando não produzem mais do menos - o que, reconheçamos, é o mais frequente. É a doença de todo dia. O nome da patologia é "diferença que só produz repetição" (autocitação autolaudatória). A saúde - preciso dizer? - é o exato oposto (autoplágio, divergência no arrastão de si).

Mas por que divago?

Porque quero compartilhar alguns links com vocês. Celebrar a repetição em rede, que arrisca produzir mais com menos. São links para dois textos que vocês já conhecem:

A Edição n. 66 da Lugar Comum (UFRJ) acabou de republicar:

1. Chapação maquínica, alucinação estatística: pensar com o Chat GPT;

2. A entrevista com Bruno Cava, Carol Salomão e comigo, saída no IHU.

É um número, muito para além disso, fenomenal em si mesmo. E destaco (entre outros) os textos de Bárbara Szaniecki, o núcleo temático sobre IA - textos de Mathieu Corteel, Bruno Cava e Lucio Mello -, e o texto de Yann Moulier-Boutang sobre A grande demissão. E tem muito mais coisa nesse número que contou com o trabalho editorial da Carol Salomão.

Mas o mais interessante - e voltamos ao título desse post -, é como essa entrevista tem repercutido em meios de trabalhadorxs organizadxs e meios universitários muito heterogêneos para nós e entre si.  Até agora, isso (Ça?) "deu repercussão" no:

- Fórum Acidentes de Trabalho da USP-UNESP;
- Centro de Estudos Estratégicos da FioCruz;
- Democracia e mundo do trabalho em debate (pesquisadores independentres);
- Fetraconspar (Federação dos trabalhadores da Ind. e Com. do Paraná);
- Nova Central Sindical de Trabalhadores do Estado do Paraná; além, é claro, do IHU (Unisinos), a que somos muito gratos.

Então, podem escolher o link mais ergonômico para ler essa proliferação que, "logo menos", também chega na forma dos eps. #5 e #6 do podcast Chapação maquínica. E aproveitem para se perder entre as navegações do n. 66 da Lugar Comum.

Até lá, ou até logo ali!

Inteligência Artificial e lutas sociais: trabalho e novas tecnologias

02 maio, 2023



Ontem, no dia Internacional do Trabalhador, o Instituto Humanitas (Ihu, Unisinos) publicou uma longa entrevista com Bruno Cava, Caroina Salomão e comigo, Murilo Duarte (aka Murilo Corrêa, ou como queiram, kkkk) sobre novas tecnologias, inteligência artificial e as lutas sociais, especialmente sua reconfiguração no campo do trabalho.O trabalho jornalístico é de Patricia Fachin e João Vitor Santos.

Os links de acesso estão abaixo, seguidos de um teaser escrito por Patricia e João Vitor.

* Link 1: <https://www.academia.edu/101110386/Novas_tecnologias_e_lutas_sociais_IHU_entrevista_com_Bruno_Cava_Carolina_Salomao_e_Murilo_Duarte>

* Link 2: <https://www.ihu.unisinos.br/628277-como-as-novas-configuracoes-tecnologicas-reconfiguram-as-lutas-sociais-uma-questao-para-refletir-no-dia-do-trabalhador-entrevista-especial-com-bruno-cava-carolina-salomao-e-murilo-duarte>

 

Como as lutas dos trabalhadores e trabalhadoras serão transformadas com a incorporação da Inteligência Artificial – IA no mundo do trabalho é o "x da questão" a ser investigado neste momento em que a aceleração tecnológica tem modificado não só o trabalho, mas também diversas esferas da vida humana. "Essa é a pergunta que menos temos ouvido ser formulada a respeito da incorporação massiva das tecnologias de IA no cotidiano das atividades, que incluem o trabalho assalariado, mas, evidentemente, se referem a horizontes muito mais amplos de ação. Para nós, a questão de fundo de toda essa discussão é renitente: como compreender as condições em que já estamos de tal forma que essa compreensão sirva para articular lutas, para reconhecer as transformações por que passam hoje, e por onde as lutas escoam nessas novas condições. Isto é, como as novas configurações tecnológicas reconfiguram as lutas, e como as lutas podem avançar por sua vez reconfigurações do presente", sublinham Bruno Cava, Carolina Salomão e Murilo Duarte, integrantes do podcast Chapação Maquínica, na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Neste 1º de maio, Dia do Trabalhador, os pesquisadores refletem sobre os efeitos da aceleração tecnológica no mercado de trabalho e propõem uma terceira via de olhar para esta realidade, em contraposição aos dois polos do debate: o "deslumbramento-diurno-iluminista", apregoado "por vertentes progressistas eufóricas que não enxergam futuro nas lutas dos trabalhadores que não estejam alinhadas às tendências industriais e pós-industriais", e o "depressivo-noturno-romântico", "ocupado por críticos românticos ou antimodernos, que desde as fornalhas da revolução industrial vaticinam criaturas monstruosas e moinhos satânicos tomando o lugar dos seres humanos e suas relações concretas". Essa polarização, pontuam, "própria da modernidade, funciona como um transtorno ciclotímico: o primeiro momento tecnutópico da adesão incontida ao desenvolvimento das tecnologias é seguido pelo momento tecnofóbico, marcado pela percepção agônica e a sensação de dilaceramento ante perturbações e mazelas técnicas".

Outra via de examinar o impacto das máquinas no mundo do trabalho, asseguram, consiste em recolocar o problema, uma vez que os dois polos "tropeçam na mesma pedra". "O problema não está, propriamente, nas tecnologias em si (meios de produção), mas no sistema de organização da sociedade e do trabalho (modo de produção), que compele as máquinas a serem dispostas em oposição ao humano, ou seja, voltadas a comprimir os salários e aumentar a taxa de exploração por meio do mais-valor relativo". Outra parte da abordagem do problema, acrescentam, "depende de políticas públicas desenhadas para amparar os trabalhadores sem as mesmas condições de adaptação, políticas voltadas a compensar os desarranjos estruturais, com a redução da jornada de trabalho e mais direitos".

Se, no futuro próximo, reiteram, os empregos desaparecem numa "velocidade impossível de ser acompanhada por políticas públicas de requalificação do capital humano", será fundamental investir em políticas de renda. "A aparente parada econômica, seguida do que Giuseppe Cocco chamou de sua 'aceleração algorítmica', que vimos acontecer durante os lockdowns da pandemia de covid-19, mostrou que não estamos nem um pouco preocupados com o trabalho, mas com a renda. Ela é a questão transversal que atravessa as lutas do século XXI, que continuam a ser um conjunto de lutas biopolíticas num meio tecnopolítico, em que vida e técnica se atravessam, constituem e bloqueiam mutuamente", concluem.

A cidadania governamentalizada: as Unidades Paraná Seguro em Curitiba

10 outubro, 2022


A Caderno CRH (UFBA) acabou de publicar em seu n. 35 "A cidadania governamentalizada: um estudo de caso das Unidades Paraná Seguro em Curitiba", um artigo escrito a quatro mãos com a Profª Karoline Coelho de Andrade e Souza, originado da sua pesquisa de mestrado no PPGCSA/UEPG.

O artigo tenta elucidar o perfil da cidadania circunscrita pela política híbrida desenvolvida no programa Unidades Paraná Seguro. 
 
O programa funcionou entre 2012 e 2015, instalando bases da Polícia Militar em territórios metropolitanos periféricos com altos índices de criminalidade, a fim de reduzi-los e desenvolver a cidadania de populações vulneráveis. 
 
Seu referencial teórico orbita o pós-estruturalismo e o pós-operaísmo, e avalia a hipótese de que o policiamento foi convertido em governo bioeconômico, transformando o conceito de cidadania. 
 
Os resultados  obtidos convergem para a descrição de uma cidadania governamentalizada, que não amplia a participação democrática, mas estabelece controles, regulações e técnicas de subjetivação neoliberais. Incentiva a busca ativa pelo trabalho por meio da profissionalização e do subemprego, ou do fomento à iniciativa autoempresarial precarizada, própria dos empresários de si mesmos. 
 
>>> O artigo completo pode ser acessado neste link.

As lutas algorítmicas como questão da técnica: o impasse do capitalismo de vigilância

06 junho, 2022

 

Registro da intervenção feita em 03.06.2022 no Seminário IAlgo+, vinculado à Eco-Pós UFRJ e ao PPGCI IBICT/UFRJ,a convite do Prof. Dr. Giuseppe Cocco (UFRJ). 

 Essa intervenção procura localizar tendências subteorizadas na tese do capitalismo de vigilância, revisitando Heidegger, Horkheimer e Wiener. Tenta mostra que a difusão das técnicas computacionais instancia-se em um duplo processo extrativo: dos corpos como territórios mineráveis, e da terra como corpo sujeito a um regime fabril. Mas o que se passa quando os meios interceptam esse devir? 

Tentamos deslocar o ângulo de visão do capitalismo de vigilância, e sua clausura para com as lutas, propondo reinterpretar os algoritmos como objetos técnicos em sentido simondiano. Para isso, lemos em conjunto as teses de Gilbert Simondon (1924-1989) sobre a individuação e sobre o modo de existência dos objetos técnicos. 

É do seu prolongamento que, numa provocação a Heidegger, propomos as lutas algorítmicas, já não como questões, mas como problemas constitutivos à técnica, ao mesmo tempo em que reconceitualizamos a informação como intensidade num prolongamento do debate em Simondon e Wiener.