21 de janeiro de 2010

A vergonha de ser um homem I: Primo Levi e Gilles Deleuze




Os textos de Primo Levi andaram em evidência ultimamente em razão do resgate e da homenagem que Agamben lhe rendera em O que resta de Auschwitz, traduzido para o português por Selvino José Assmann, e saído em 2008 pela Boitempo. O rubor nas faces do executado chamado pelo nome para morrer, os olhos dos muçulmanos do láger ao fitar o atirador, a vergonha de ser um homem, de ter feito concessões para sobreviver, de assistir a homens nascidos para serem nazistas, seria, para Giorgio Agamben, um lampejo em uma corrente de subjetivação – o sujeito em estado puro - última territorialidade de um sujeito.
Poucos dos que lêem Agamben ou Levi (É isto um homem?), contudo, sabem da importância que Levi teve para Gilles Deleuze, principalmente nos últimos anos de sua filosofia. A vergonha de ser um homem está em Primo Levi e, certamente, também nos campos de concentração; mas Deleuze, embora, não afirme o campo como paradigma biopolítico do moderno, a exemplo de Agamben, dizia em uma entrevista a Toni Negri que, “quanto à vergonha de ser um homem, acontece de a experimentarmos também em circunstâncias simplesmente derrisórias: diante de uma vulgaridade grande demais no pensamento, frente a um programa de variedades, face ao discurso de um ministro, diante de conversas de bons vivants”.
Deleuze, de seu lado, sabia que o encontro do homem com a verdade ruborizada de sua condição humana não implica qualquer paixão triste; ao contrário, essa vergonha de ser um homem, que podemos experimentar tanto em um campo de concentração (em sentido histórico) quanto diante das situações mais ordinárias do capitalismo contemporâneo (o campo de concentração em sentido biopolítico), “é um dos motivos potentes da filosofia, o que faz dela forçosamente uma filosofia política”. A pergunta com a qual quero deixá-los – prometendo esboçar uma resposta em uma próxima vez – é a seguinte: como se poderiam articular, ou desarticular, os direitos humanos, a filosofia e a vergonha de ser um homem?