19 de abril de 2012

Da única vez em que ri lendo Kant...




   Quinta-feira à noite; enfiava-me a ler a tradução que Foucault havia feito da "Antropologia do ponto de vista pragmático", de Immanuel Kant. Lá pelas tantas, falando sobre a memória como uma faculdade do conhecimento sensível, Kant – todo moralista – envereda a falar pesarosamente sobre os fenômenos de perda de memória, dizendo tratar-se de uma experiência funesta. “Mas há ocasiões em que não somos culpados disso”, escreve, relatando em seguida o caso das pessoas idosas que se lembram em detalhes de memórias dos anos de juventude, mas se esquecem rapidamente dos acontecimentos recentes.

Essa perda pode, contudo, também ser o efeito de uma distração habitual, que de ordinário se produz nas leitoras de romances. As leituras de diversão, tratando-se de puras ficções, deixam à leitora a possibilidade de inventar livremente, ao alvedrio de sua imaginação. Isso, naturalmente, provoca uma distração e torna habitual, no espírito, o que Kant diz ser “um estado de ausência”, caracterizada pela falta de atenção àquilo que é presente. Engendrados esses maus hábitos, a memória não pode deixar de ser falha. De modo que – são palavras quase literais de Kant - “praticar a arte de matar o tempo e de tornar-se inútil para o mundo, e depois reclamar da brevidade da vida, é provocar – além de uma disposição à fantasmagoria – um dos atentados mais nocivos à memória”.

As leitoras de romances do tempo de Kant encontravam-se, àquele tempo, muito à frente de seus filósofos censores. Talvez fosse preciso enunciar um pequeno princípio, que Kant renega com veemência: toda metafísica, mas também toda política, começam pela imaginação, pelo obscuro, pelo sensível.

Contra o moralismo de Kant, e para além de Kant, é essa fina arte de se tornar um pouco mais inútil a este mundo – é, portanto, a imaginação e a fantasmagoria – que deveríamos erigir a princípios existenciais de toda e qualquer política. 

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