1 de novembro de 2013

Elogio dos desempregados, por Laurent de Sutter




Quando Paul Lafargue decidira tomar da pena para redigir O direito à preguiça, foi algo como um pastiche, uma espécie de provocação – como um gesto de desafio irônico à ordem da produção que ele assistia lentamente se consolidar ao redor de si mesmo. Cento e trinta anos depois da publicação da segunda edição de seu libelo, porém, o gesto realizado parece gozar de uma pertinência, de uma potência e de uma urgência novas, maiores até mesmo que aquelas que foram as suas, inicialmente. Isso porque enquanto a Europa, por conta da inépcia de governos incapazes de compreender que a própria ideia de austeridade é um insulto à inteligência (mesmo que ela fosse o que os economistas defenderam antes de mudarem de opinião), afunda-se sempre mais na morosidade, o direito defendido por Lafargue tornou-se o insulto supremo. É verdade que o núcleo privilegiado desse insulto, tal como se encontra formulado pelos cidadãos como pelos decisores, pelos editorialistas como pelos intelectuais, jamais dispusera de meios de defesa consideráveis – porque não se trata de ninguém, mas do desempregado. Aos olhos do ethos contemporâneo da austeridade, o desempregado tornou-se a incarnação de uma espécie de obscenidade: já que o resto do mundo tenta se virar para tentar garantir, com sua sobrevivência, também a sobrevivência de uma economia oscilante, o desempregado não faz nada além de tocar, com uma impecável regularidade – aquela de toda administração – uma soma de dinheiro cuja justificação suscita cada dia mais cólera. Ali, onde nós deveríamos unir nossas forças e aceitar ir ao nosso trabalho como se se tratasse de uma tarefa cívica, visando à restauração de não se sabe muito bem qual ideal econômico arruinado, o desempregado é aquele cujas jornadas são completamente estruturadas ao redor de um único imperativo: nada fazer.

Se se pode compreender que contadores, tendo tomado o lugar de nossos governantes, veriam com maus olhos a hemorragia de auxílios fluindo na direção de uma franja sempre mais importante da sociedade, é triste constatar que isso se passa até mesmo com os trabalhadores, a quem se faz crer que o sangue, assim derramado, é bombeado diretamente de suas próprias veias. Além de essa explicação ser falsa, ela se caracteriza pela mais alucinante, a mais nauseabunda e a mais odiosa das más-fés : a de todos aqueles que pretendem, para dissimular sua própria inépcia, introduzir uma divisão entre aqueles que poderiam dar-se conta do que se passa. Deixar propagar-se a ideia de que os desempregados são vagabundos que vivem das moedas dos últimos contribuintes que mantêm nossa sociedade no reto caminho de um capitalismo tornado sinônimo do grande banditismo não é, com efeito, senão isto: uma enésima variação sobre o bom e velho princípio que diz que é preciso dividir para reinar – e que não pode haver reino que não suponha a divisão. Se o preferirmos, apresentar os desempregados como ocorrências do pânico de uma máquina de seguridade social que custa cada dia mais aos «contribuintes» é uma maneira de deixar crer que existe, na população de uma sociedade, duas categorias diferentes de cidadãos: aqueles que pagam e aqueles que não. E os que não pagam, porque custam ao invés de contribuir em um momento em que a ladainha da diminuição dos custos se torna algo da ordem do credo, não parecem mais estar à altura de fazer valer as razões de sua existência – face ao heroísmo daqueles que pagam. Esses que não pagam não são mais verdadeiros cidadãos, nem mesmo verdadeiros indivíduos: são parasitas, indesejáveis, excedentes ou supranumerários. Bem assim, pois, os desempregados: eles se tornaram o galho morto que conviria podar para que aqueles que pagam possam, enfim, receber o fruto natural de seu trabalho – como se governo nenhum jamais tivesse agido nesse sentido.

Ao escolher dividir sua população ao redor da questão do desemprego, os governos dos países europeus sabem muito bem aquilo que fazem: eles designam, recorrendo a uma linguagem moral (preguiça!), aquilo que se pode chamar de bode expiatório. Eis aí, segundo eles, uma maneira de se desincumbir de sua própria incapacidade de suscitar aquilo a que, em seus discursos, não cessam de apelar – a saber, com que preencher os caixas que eles esvaziaram de maneira conscienciosa no curso dos últimos decênios? Porém, sobretudo, é uma maneira de reafirmar seu poder sobre as vidas daqueles de que foram encarregados e, ainda, de reafirmar seu poder sobre as escolhas pelas quais se deixa um indivíduo conduzir essa vida – isto é, de reafirmar seu poder contra a liberdade dos indivíduos em questão. Trabalhar deveria ser, em uma sociedade digna, uma escolha deixada a todos e a cada um, assim como deveriam ser escolhas as modalidades do dito trabalho (ou de sua ausência) ; não uma espada contra o pescoço de cada um, combinada com a ameaça latente de ser, um dia, tratado como indesejável. Considerar os desempregados com indesejáveis torna-se, na verdade, considerar que a vida não é uma questão de escolha – ou, que se ela é uma questão de escolha, esta não pode operar-se senão entre os itens de um catálogo magro como uma folha de papel: aquele que define o que é um bom «contribuinte». Que nós disponhamos de riquezas suficientes para assegurar a todo mundo uma verdadeira liberdade de escolha, mais que perseguir aqueles que são seu símbolo, teria, desde há muito, feito refletir os governantes se a realidade do problema do desemprego fosse, de fato, uma realidade financeira. Nós nos damos conta agora: trata-se muito mais de uma realidade de poder – o poder de decidir a vida de cada um, sem que seu próprio ponto de vista mereça ser levado em conta.


* Traduzido do original em francês: Laurent de Sutter, "Éloge des chômeurs" (no prelo).