10 de dezembro de 2009

Desaprender como auto-invenção: Rubem Alves e Félix Guattari




Há alguns anos vim a saber quem era, exatamente, Rubem Alves. Em meu imaginário, o que era "apenas" um educador - imagem longínqua de alguém que tem algo a dizer -, virou, como diria Barthes, um corpo. Corpo que dizia à jornalista que o entrevistava (apaixonadamente): "sabe quando a criança pega uma tangerina, tira a casca e enfia o dedo no meio, atravessando os gomos? Isso é um ato de amor - a criança querendo fazer amor com o mundo". Isso fez também a jornalista ficar um pouco apaixonada por ele - e era possível perceber que sim...
Não estarmos prontos, não nascermos prontos, é o ponto de partida para as possibilidades de nossa própria invenção. Manoel de Barros, poeta cuiabano, chamado "poeta das coisas chãs" - porque canta a terra, os pequenos seres que a habitam (inclusive as lesmas e, segundo ele mesmo, "a eroticidade de suas viscosidades"), já escrevera que "Tudo o que não invento é falso". Embora, pessoalmente, não veja isso como absoluto, isso me faz ter uma idéia das possibilidades de cuidar de mim, de me auto-educar para o amor e o prazer, ou para o poder e o medo. Isso não é tão individualista como parece: pois ao inventar minha verdade (como verdades possíveis e precárias, porque modificáveis), invento-me a mim próprio e ao mundo que nos cerca. Percebo que sou capaz de diferença, de desvio, que são as possibilidades do criativo. Manoel de Barros ainda escreveu certa vez que "desaprender oito horas por dia ensina os princípios". Às vezes isso é muito necessário: perder o que se aprende para poder perder-se naquilo que se aprende como invenção de si próprio. Uma saída possível da educação tradicional é, como diria F. Guattari, criar determinados "focos de resistência subjetiva"- individual ou coletivamente, já que o próprio Guattari diz que "somos todos grupelhos"; nossa subjetividade não faz sentido por si só, desvinculada do mundo e dos outros, e uma grande possibilidade de resistirmos está em nos associarmos com outros resistentes. O professor, em sala e fora dela, parece ter a função de mediar a criação de um grupelho - seja pelo prazer, seja pelo medo, e de possibilitar aos alunos a visão responsável das possibilidades de sua resistência. As coisas que ali (em sala) são ditas, são tomadas de modo diverso por cada um; assim também ocorre com o que é ensinado, ou quando lemos um texto. Não podemos ter a ilusão de que se lê "o texto" ou "o autor" - é o texto que nos lê (Barthes). Tudo que é possível falar sobre o texto é mediado por nossa subjetividade - o que explica porque às vezes escrevemos uma coisa (achando que estejamos a dizer uma coisa tal), e quando nosso texto é lido, já se modificou completamente: já não é nosso, mas do leitor que, lendo o texto, faz o texto ler a si mesmo; nossa obra não é nossa, mas obra de um outro, obra da dispersão da subjetividade de um outro. Assim, é no ensino, na leitura, na ciência - ao menos, é como me parece que seja. Claro que alguma objetividade é possível, sob pena de qualquer conversa tornar-se imponderável, mas não devemos esquecer a dimensão de subjetividade aberta, incompleta, por-fazer - isto é, "subjetividade de um devir-sujeito", inacabado: e daí sua possibilidade de autoconstituição, e sua responsabilidade de saber que o que faz consigo mesmo é o mesmo que faz para o mundo e as pessoas que o cercam, em alguma medida. Constituímos o mundo à nossa maneira - ou melhor: nossa capacidade de influir no mundo, de modificá-lo, sustenta-se na possibilidade de uma educação que nos faça aprender a auto-educação como expressão de um desvio, de uma diferença, e da existência de um território existencial (Deleuze e Guattari) que criamos para nós mesmos e que, ao contrário de nos isolar do mundo, é capaz de nos fazer entrar em contacto com ele, e nos fazer perder o chão sob os pés - isso é a subjetividade desterritorializante, capaz de nos fazer visitar outros territórios existenciais. Nada disso é possível sem percerber que não somos, como um mero estado de sujeito; mas, processualmente, vamos sendo, como expressão de um devir-sujeito que não pode ser desprezado em suas possibilidades (auto-)educativas.