25 de dezembro de 2009

As marinhas de Hugo: o novo, em imanência absoluta

Vitor Hugo, Ma Destinée, 1867. Tamanho: 17,4 x 25,9 cm.
Pena, aguada de tinta marrom e guache sobre papel velino.
Paris, Maison de Victor Hugo (Inv. 927).


O novo posto em obra: eis o novo em imanência absoluta – momento de indecidibilidade em que os virtuais ainda não se atualizaram, e que as atualidades ainda não podem esgotar na obra. Novo como momento de potência de atualização e, portanto, novo como virtualidade. O novo só referível a si como signo da diferença que partilha de um si consigo mesma.
Como no plano de imanência deleuziano – ao mesmo tempo dado e a construir –, o novo é construído, como criação, e fabricado, como diferença, sob um fundo cuja imanência a si mesmo, e unicamente a si, constitui condição de sua absoluta diferença e pregnância, de um novo que, como diria Pelbart, “pega no corpo”.
O novo em imanência absoluta é o que o faz ser uma gravidez ignorada e eterna. Ignorada na medida em que o devir é sem mácula, porque desconhecido – e já deveríamos ter aprendido a reconhecer sua reluzente inocência no riso dançante de Zaratustra. Desde o radical, “criança” e “criação” andam de mãos dadas impunemente pelos jardins da infância. Eterna, na medida em que seu fundo sem par abre para si um território, e assim pode constituir o destempo de toda a modelagem e de toda pretensão sistematizadora, operando a linha de fuga, e devir em intensidades e sensações o novo que pode ser.
Linha de fuga que é sutil e súbita, como uma ondulação que acaricia a areia para ir desabar no mar. Deleuze já dissera que o plano de imanência é como um leito em que as vagas se enrolam e desenrolam, para virem enrolar-se novamente. No mar está o problema da imanência nas pinturas de Vitor Hugo, para Didi-Huberman: como desenhar uma onda sem representá-la? Apenas abandonando-se ao seu meio, que são o carvão, os pincéis, o cavalete, a tela ou o papel, como o meio em que a onda vai dobrar-se, desabar e desenrolar – e com o que tiver à mão, o pintor, com uma força e com um gesto irrepresentáveis, salpica a tinta e faz espuma – e com os pincéis faz derivar e jorrar uma maré errante como a própria vida. Assim, na tela em que a tinta jorra, a onda é criada como acontecimento, singularidade, pura intensão.
Como, para Vitor Hugo, a forma informe das ondas é inapreensível, o bom poeta será ondas e fará ondas. Segundo Georges Didi-Huberman, eis aí um modo novo de ser vago, de fazer uma poética da imanência: uma arte que não progride nem se atrasa. O novo como obra, na imanência de si mesmo, é como uma vaga cujo desenrolar Vitor Hugo sutilmente faz arrebentar na tela; não quer ser nada, senão destino, e a potência sutil de uma sublime ondulação.

* Excerto de um verbete que escrevi no primeiro semestre de 2009, intitulado "O que é o novo?"; publicado originalmente no n. 1, v.2 da Revista Captura Criptica: direito, política, atualidade, e disponível aqui, em PDF, na íntegra. Acho que vem a calhar às portas do ano novo... não? Então, sejamos intempestivos... - isso sempre vem a calhar, como o movimento do próprio tempo, suficientemente potente para impedir as totalizações demasiadamente cômodas da história.