11 de abril de 2010

Giorgio Agamben e o mysterium disiunctionis


Àqueles que desejem empreender uma pesquisa genealógica sobre o conceito de vida, Agamben alerta que, em nossa cultura, “esso non viene mai definito come tale”, mas articulado e dividido por meio de uma série de cesuras e oposições – como se, em nossa cultura, a vida fosse algo que não pudesse ser definido mas que, propriamente por isso, devesse sem articulado e dividido sem cessar.
            É o que encontramos nas páginas de De anima, de Aristóteles: quais as várias formas pelas quais o “viver” se diz. Ao invés de definir, de alguma forma, aquilo que é a vida, Aristóteles se limita a decompô-la graças ao isolamento de funções como a nutritiva para, depois, rearticulá-la em uma série de potencias ou faculdades distintas e correlatas como nutrição, sensação, pensamento, como expressão de seu procedimento de pensamento, que consiste em converter a questão “o que é?” em “através de que uma coisa qualquer pertence a outra coisa qualquer?”. Nesse sentido, de um elemento que vai ao fundo para servir de articulação à atribuição da vida aos seres ditos viventes, temos o isolamento da vida nutritiva – tão fundamental para as ciências ocidentais. Vemos essa separação ressoar em Bichat, em suas Recherches physiologiques sur la vie et la mort, quando distingue a vida animal (definida pela relação com um mundo externo) e uma vida orgânica (que não é outra senão uma sucessão habitual de assimilação e excreção), como a vida nutritiva de Aristóteles em seu percurso obscuro. Assim, Bichat falará que é como se em todo organismo superior convivessem dois animais: o de dentro (vida orgânica) e o de fora (vida animal).
            O que Agamben depreende é que a divisão da vida em vegetal e de relação, orgânica, animal e humana, passa, agora, ao interior do homem vivente como uma fronteira móvel e, sem essa última cesura, a própria decisão sobre o que é ou não humano não seria possível. Apenas porque uma coisa, como uma vida animal do homem, permanece separada no interior do homem, apenas porque a distância e a proximidade com o animal é misturada e reconhecida ainda mais no mais íntimo e vizinho, é possível opor o homem aos outros viventes e, também, organizar a complexa, e nem sempre edificante, economia de relações entre os homens e os animais.
            Se isso é verdade, seria hora de a própria questão do humano ser posta de maneira nova: não mais como a tradição, que pensa o homem como a conjunção e a articulação de um corpo e de uma alma, de um vivente e de um logos, de um elemento natural ou animal e de um elemento sobrenatural, social ou divino. Devemos, diz Agamben, começar a pensar o homem como aquilo que resulta da desconexão desses dois elementos, e investigar não o mistério metafísico da conjunção, mas o mistério prático e político da separação. Isso importa mais que tomar posição sobre valores e direitos humanos, e talvez mesmo a esfera de relações com o divino dependa mais daquela, mais obscura, que nos separa do animal.