Giorgio Agamben. Non à la Biométrie. Le Monde diplomatique. Decémbre 6, 2005. Fonte: EGS.
[arquivo] - Quando no fim do século XIX, Galion começou as suas pesquisas sobre as impressões digitais na Inglaterra, e Bertllon, na França, inventou a fotografia judiciária para a identificação antropométrica (termo da época), tais procedimentos estavam reservados exclusivamente para os criminosos reincidentes.
Hoje em dia perfila-se uma sociedade em que se propões aplicar a todos os indivíduos dispositivos que estavam, até ao momento, destinados aos delinquentes. Segundo um projecto que está em vias de ser aprovado a relação normal do Estado para com aqueles que Rousseau chamava os «membros do soberano» será a biometria, ou seja, a suspeita generalizada.
À medida que os indivíduos, sob a pressão da crescente despolitização das sociedades pós-industriais, se abstém de toda a participação política, cada vez mais são tratados como virtuais criminosos. O corpo político torna-se assim um corpo criminal.
Os perigos de uma tal situação são evidentes para todos salvo para aqueles que se recusam de ver. Já não bastou que as fotografias retiradas dos bilhetes de identidade e das cartas profissionais tivessem permitido às polícias nazis, dos países ocupados, identificar e registar os judeus e enviá-los para a deportação. O que é que se vai passar no dia em que um poder despótico disponha do registo biométrico de toda uma população?
Ora isto é tanto mais inquietante quanto os países europeus, depois de terem imposto o controle biométrico aos imigrantes, aprestam-se agora a impô-lo a todos os seus cidadãos. As razões securitárias invocadas a favor destas práticas odientas não se mostram convincentes pois que, se podem contribuir para impedir a reincidência, elas mostram-se inúteis para prevenir o primeiro delito ou um acto de terrorismo. Em contrapartida, ela são perfeitamente eficazes para o controle massivo dos indivíduos. No dia em que o controle biométrico seja generalizado e em que a videovigilância seja instalada em todas as ruas, toda a crítica e toda a dissidência serão impossíveis.
Os jovens estudantes que destruíram no passado dia 17 de Novembro os dispositivos biométricos na cantina do liceu de Gif-sur-Yvette mostraram, antes do mais, que se preocuparam bem mais com as liberdades públicas e a democracia do que aqueles que aceitaram e consentiram na instalação daqueles dispositivos.
Exprimo toda a minha solidariedade aos estudantes franceses e declaro publicamente que recusarei sujeitar-me a todo o controle biométrico e que, por isso, estou pronto a renunciar ao meu passaporte bem como de todo o documento de identificação.

Confesso que nunca me interessei em formalizar a posmodernidade - eu ainda a vejo como um fantasma, um significante vazio. E aí a aplico ao circunstancial, como um conceito meu bem leviano e efêmero. Aplico-a, por exemplo, aos fatos que traz Agamben. Parece-me - agora, depois não sei - a posmodernidade uma corrida frenética para assegurar as ambições modernas que insistem em não se concretizar plenamente. A paranoia da papelada, do registro, da documentação do corpo e outras documentações é um ato desesperado de assegurar a limpidez (moderna) da correspondência do signo. É para assegurar que o nosso nome designa a nós mesmos com o nosso corpo e que, reciprocamente, sejamos nós totalmente por ele designado.
ResponderExcluirDe modo que deve nos escapar a capacidade de nos metaforizar. Li dia desses uma frase de Pascal que parecia tão despretensiosa e que me pareceu muito interessante sem eu saber exatamente por quê: "Dois rostos semelhantes, dos quais nenhum faz rir em particular, fazem rir juntos por sua semelhança." Talvez o interessante aqui seja justamente essa possibilidade de se subtrair à fatalidade da relação nome/corpo, com a possibilidade de se identificar com o diferente, de não se deixar governar por uma história pessoal despótica em que não se é ator da própria biografia. Mas isso implica justamente o metaforizar-se, o deslocamento de significantes, a procura de palavras impróprias para subjetivar-se sempre de novo. Para desespero do esquema significante/significado da clareza moderna.
A biometria quer salvar o moderno. Mas o faz de tal forma que equivale corpo e nome, transformando o corpo em significante de si mesmo, ou inverte e faz do corpo o significante do nome, pois essa é talvez a subjetivação mais segura a que a nossa proliferação de dispositivos pode chegar. E isso não tem nada da poética intimidade forma/conteúdo, porque a relação corpo/nome não se converte na pesquisa poética do que há de obscuro na claridade do contemporâneo. É simplesmente a impossibilidade dessa pesquisa: o corpo não pode trocar, mesmo que sob a forma da metáfora, de nome, o nome não pode trocar de corpo. Sacralizam-se mutuamente, hipostasiam-se: o homem fica à mercê da própria história, dos sulcos gravados no seu rosto - como Agamben definiu certa vez o caráter.