23 de outubro de 2010

#globomente, #vejamente: teses sobre uma política de signos

(Os amantes, 1928, de René Magritte)


“A política é a guerra continuada por outros meios".
(Michel Foucault)

1) As guerras modernas pautaram-se por uma modificação no regime dos signos. Informação e contra-informação constituem os dois sobre-investimentos linguísticos por excelência de toda guerra em curso. O fato de que, hoje, os massmedia investem plenamente o corpo social poderia indicar que, para além dos períodos eleitorais, vivemos continuamente em guerra. Não pudemos compreender ainda o nietzschianismo de Foucault ao afirmar que a guerra constitui a relação social fundamental, e que é ela que estupora a cultura propriamente humana. A lei é dominação, a marca simbólica dos vencedores, e “faz surdamente a guerra em cada uma de suas engrenagens”, dizia Foucault. Assim, a guerra é o modelo de relação social fundamental que atravessa o corpo do Estado e os corpos dos cidadãos. Por isso, toda afirmação da liberdade de expressão – dos massmedia e da sociedade de controle à mídia independente – é, já, contra-informação; a afirmação surda de um discurso indiciário da guerra civil atualmente em curso.


 "O sagrado, eis o inimigo".
(Paris, Maio de 68)

2) O intocável pelos homens, eis o inimigo. Os dispositivos que é preciso desativar; a negatividade da qual é preciso desentocar uma positividade luminosa em meio à escuridão e ao vazio ontológicos em que se movem homens e dispositivos. Já não se trata da pura e simples transgressão que, como sabia o próprio Georges Battaile, mantém uma relação essencial com a soberania e a lei; trata-se, antes, de restituir os objetos consagrados pelo rito ao uso comum dos homens. Nesse sentido é que a profanação poderia constituir um contradispositivo capaz de trazer à luz o Ingovernável, o que escapa a todo dispositivo de governamentalidade.


"Todos temos poder nos corpos e fascismo na cabeça".
(Michel Foucault)

3) Os poderes são múltiplos e imanentes. Investem a totalidade do socius e dos corpos individuais, fixam identidades, criam estratificações, e também podem constituir limites imanentes a movediças desterritorializações. Acostumamo-nos a compreender o fascismo como um fenômeno de Estado; no entanto, os poderes não são homogêneos, de forma que mesmo o sujeito seria o resultado mais próprio da operação de um dispositivo governamental, como quisera Tiqqun. O fascismo é uma questão de desejo, de estratificações do desejo, de desarticulações demasiadamente violentas, imprudentes ou suicidas. O fascismo é o momento em que uma linha de fuga se torna uma linha de abolição completa, em que uma máquina de guerra torna-se uma máquina de terror.

 “A libertação não é o fim, mas um começo”.
(Antonio Negri)

4) A emancipação nunca está dada e pronta. Os dispositivos rodeiam os sujeitos. Seus torniquetes os oprimem, mas não necessariamente de fora. Um desejo, demasiadamente humano, pode desejar seu próprio aniquilamento. Por isso, criar um corpo sem órgãos é uma operação ontológica, ética e política, a um só tempo, porque é preciso prudência, é preciso “...(vigiar inclusive em nós mesmos o fascista, e também o suicida e o demente)”, diziam Deleuze e Guattari. Como um produto do desejo – e Wilhelm Reich, bem o sabia –, o fascismo nunca é simplesmente super-estrutural; ele rói os órgãos por baixo, como a sociedade do espetáculo gira no vazio e rói o cinismo e sua essencial relação com a verdade. A nona tese de Debord seria suficiente: “Nas sociedades espetaculares, o verdadeiro torna-se um momento do falso”; na guerra, toda informação reduz-se a contra-informação, mistificação e cinismo.

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Porque estamos em guerra...