30 de agosto de 2014

Materialismo sonhático: o acontecimento-Marina





1. No mesmo dia em que Marina divulgou seu programa de governo, conseguiu ultrapassar Dilma nas projeções das pesquisas de opinião sobre a sucessão presidencial de outubro. Isso se produz em um cenário marcado pelo esgotamento ideológico e eleitoral da oposição que pautou as eleições de 2010 – as tão sonhadas eleições “plebiscitárias” de Luiz Inácio Lula da Silva: aquela entre PSDB e PT, entre modelos neoliberal e de bem-estar social de gestão. Até há poucas semanas, antes do acontecimento-Marina, Campos gozava de boa saúde e Dilma, de uma folga confortável nas pesquisas de opinião. Quando o acidente aéreo vitimou o candidato e o PSB decide por lançar Marina, tudo se altera. Porém, o acontecimento-Marina se explica menos pelo seu conteúdo que pelas condições materiais em que se produz. O fato de que Marina logrou subtrair percentis de intenção de votos tanto ao PT, quanto ao PSDB, como ao teocrático PSC talvez se explique menos por sua plataforma de governo que pelo esgotamento das oposições tradicionais. PT e PSDB insistiriam na cisão. O PT acusa Marina de ser uma “segunda via do PSDB”; este, acusa-a de ser “verde por fora, mas petista por dentro”.

2. Recusando radicalmente a cisão, Marina serve-se de significantes abertos e fluidos: dentre todos, o da “nova política”, signo máximo dessa recusa e golpe que reduz à unidade – sensível pelo eleitorado – a mal calculada insistência na oposição entre PT/PSDB. Há uma fissura sensível na equivalência entre arranjo eleitoral e processo político real – fissura que Marina ocupa habilmente, e que Eduardo Campos não tinha o mesmo talento para desenvolver em direções imprevistas. Aparentemente, duas causas convergem para a vertiginosa ascensão de Marina: (1) a rejeição medular de parcela significativa do eleitorado às alternativas tradicionais e sua oposição (PT/PSDB); (2) sua habilidade de encarnar essa figura que desterra a oposição sem sentido em proveito de significantes tão abertos quanto vazios. Eis aí todo seu infinito enigma, suas desconcertantes contradições, suas promessas e seus perigos: a promessa de uma relação menos predatória com a Natureza e, ao mesmo tempo, o perigo de a promessa ser tragada em um jantar com representantes do Agronegócio. Suas promessas de direitos civis e o perigo de estes serem destruídos por cálculos políticos. A tensa relação entre o fator Marina e o risco fisiologista.

3. Nesses significantes abertos cabem tanto as promessas quanto os perigos. Marina não deve mudar nenhuma estrutura fundamental – portanto, lasciate ogni speranza. Um sinal disso é que, supostamente para honrar acordos previamente firmados por Campos e pelo PSB, Marina tem feito contato com setores do empresariado e do agronegócio aos quais, em outras circunstâncias, talvez não endereçasse qualquer reverência ou atenção. Ao contrário de Aécio e Dilma, Marina tem rejeições setorizadas e começa a trabalhar para revertê-las. Nem toda naïveté sonhática dos mundos e redes que gravitam em torno de Marina bastará para encobrir o fato meramente pragmático de que Marina quer vencer as eleições e, como efeitos de cálculos políticos, fará concessões. Uma vez eleita, fará concessões pela governabilidade. Resta esperar que não sejam nem tão amplas, nem tão desastrosas em relação a direitos fundamentais como foram as concessões de Dilma.

4. Seja como for, um pouco de ceticismo é bem-vindo. Marina é verde por fora e, se eleita, será da cor que convier ao capital, ao empresariado, ao agronegócio e aos bancos. Esse é o limite de Marina – limite que Aécio e Dilma não se importam em reconhecer também para si. Todavia, e para além do fato de que sua ascensão eleitoral meteórica desarranja todo o tabuleiro do cálculo eleitoral, o traço mais positivo do acontecimento-Marina talvez esteja no potencial de colocar em circulação um significante aberto como o da “nova política”. Algo que, embora não signifique nada em si mesmo, mobiliza, no limitado interior de um processo eleitoral, no qual nos ressentimos de não encontrar nada que corresponda aos processos políticos reais, elementos potentes da recusa das manifestações e protestos de 2013/2014. Marina encarna, de alguma maneira, nas urnas, o retorno do que foi recalcado (e reprimido) nas ruas: a nota fundamental e comum que percorria todo o mais recente ciclo de lutas populares no Brasil: uma estética política da recusa e uma multiplicação de pautas e demandas com potencial comum.

5. Nem Marina é a nova política, nem a nova política é apenas um significante vazio. Sequer é preciso inventá-la. A nova política já existe – e fomos testemunhas oculares de sua gênese. Ela continua a circular nos subterrâneos, um pouco como a toupeira revolucionária de Marx, esse autor de um ensaio delirante e real de materialismo sonhático. Trata-se de algo que não pode pertencer a ninguém individualmente. A força de Marina, que também constitui o seu limite, é ser a figura de carne e osso capaz de catalisar o materialismo sonhático de que é feita a nova política que as multidões das ruas inventaram em um processo eleitoral formal. Depende de nós arrancarmos ao real essa força que não pertence a ninguém, mas é capaz de deformar as estruturas que demoramos tanto tempo para recusar. A dose de realidade de que o sonho depende adverte que este é o momento de arrancar todos os compromissos por ampliações de direitos que pudermos de Marina. Esse materialismo sonhático não passa de um outro nome, aberto e iridescente, para a potência política de um desejo comum que, legitimamente, não se pode atribuir a ninguém.

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