9 de novembro de 2009

O insondável concreto: Berlim e o muro, 20 anos depois



                                
por Murilo Duarte Costa Corrêa


1. Contados de hoje (09.11.2009), vão-se exatamente vinte anos desde a derrubada do muro de Berlim. A Alemanha, ao menos é o que diz a Folha, comemora sua reunificação, embora o povo alemão continue a reconhecer no alemão oriental um sujeito de segunda classe – empobrecido, pouco desenvolvido, “meio-russo”. Contam-se histórias de violações a liberdades fundamentais, mas isso não é precisamente o que interessa mais – não é necessário ter integrado o comunismo soviético para assistir a violações a direitos fundamentais; o Ocidente é bastante pródigo em exemplos quando o assunto é violação às liberdades do cidadão – para citar apenas o fio condutor de uma série de eventos como esse, basta lembrar do financiamento estadunidense dos Golpes de Estado na América Latina, incluindo o Brasil, a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, justamente para conter o avanço do comunismo na América Latina.


2. Interessante como se fala na “queda”: dizer “cai o muro de Berlim” é quase o equivalente a enunciar a lei da gravidade: “cai uma maçã” – puro e simples efeito mecânico: a repressão, como um dom da física, teria como efeito uma resistência naturalizada pela linguagem. Os signos, certamente, naturalizam as imagens de homens e mulheres em pé, sobre o muro. O muro nunca caiu: o capitalismo o ultrapassou. Ao afirmá-lo, não há, de minha parte, qualquer julgamento acerca do valor do capitalismo – muito pelo contrário. Em termos simbólicos, pode-se dizer, aliás, que o Muro de Berlim era o último dique que continha o jorro capitalístico – e o dique não se rompe, nem se quebra, muito menos cai: é ultrapassado, excedido, vazado, pela sempre maior liberalização dos fluxos de desejo, axiomatizados, naturalmente, nas diversas traduções possíveis do corpo-pleno do capital: gozo, consumo, necessidade, conforto, pharmakon, isolamento, imobilidade...


3. Os psicanalistas contemporâneos, a quem respeito muito, embora procure não me limitar a seus pequenos esquemas teóricos que reduzem todo o contato com o real ao simbolizável (uma forma de sustentar a imanência do real em uma experiência negativa - assim, desde o Sócrates do Banquete platônico, desejo é falta), comprazem-se em afirmar que o capitalismo nos empurra para algum lugar, ou que vivemos em um mundo sem-limites. É o caso dos belos livros de Charles Melman (O homem sem gravidade, editora Companhia de Freud) e de Jean-Pierre Lebrun (Um mundo sem limite, também da Companhia de Freud). Eis o que dizem eles: as barreiras foram dissolvidas; o que fazia limite já não nos interdita mais; a decadência do Pai e a decadência da Lei (a marca simbólica que introduz o sujeito na Linguagem e permite-lhe sair do registro do Imaginário para enodar-se em alguma possibilidade simbólica de trabalhar com o Real, inapreensível e impassível de simbolização, por definição), determinam que sejamos empurrados de uma forma de socialidade baseada nas neuroses, como, e.g., a obsessão endêmica nas subjetividades modernas, a outras formas de (des)socialização: a decadência da Lei teria, como por um efeito mecânico, nos lançado na era das subjetivações perversas (o “gozar a qualquer preço”, de Melman), esquizofrênicas (tudo culpa de uma análise foucauldo-deleuzo-lacaniana, segundo Dany-Robert Dufour, A arte de reduzir cabeças), ou mesmo marcada pela depressão, como o sintoma das sociedades contemporâneas (Cf., de Maria Rita Khel, O tempo e o cão).
Isso, contudo, Deleuze e Guattari já disseram: o capitalismo, de início, não empurra para lugar algum; é muito mais uma deriva e uma captura de sentido do que criação de algum novo sentido para a existência, ainda que niilista. A mecânica, muito simplificadamente, reduz-se ao seguinte: o desejo, que antes era codificado e territorializado no socius, é liberalizado como um fluxo capitalístico. Isso, de longe, não implica uma maior liberdade ao desejo, uma vez que a desterritorialização capitalística nunca é absoluta – todo alisamento feito a um espaço, logo é convertido em um estriamento; assim, o capitalismo afasta limites, mas tem um limite muito discernível, que não se confunde com o processo esquizofrênico: a axiomatização contínua dos fluxos do desejo, relativamente liberalizados. Desterritorializações a que se seguem reterritorializações que já não se dão no corpo do socius, mas, sim, no corpo pleno do capital.
Assim, enquanto os psicanalistas contemporâneos investigam a queda de referenciais, suas descrições substanciais têm nos servido, e muito, para abstrair dos referenciais lacanianos e pensar quais são as novas axiomáticas capitalísticas. Nisso, a clínica auxilia demasiadamente – mas apenas nisso. Para compreender o fenômeno como um todo, é necessário perder de vista a ideia da decadência de referenciais, da dissolução dos limites ou da crítica: o capitalismo não vai apenas até aí; como diziam Deleuze e Guattari, o capitalista libera os fluxos de desejo com uma mão e os axiomatiza com a outra (O anti-Édipo, Assírio e Alvim).


4. E que tem isso a ver com a naturalização da queda do muro de Berlim? Ora, não há uma doçura no desejo de liberdade? Na força empregada na quebra? Nos grupelhos que se amontoam sobre o concreto, e nos solidários escaladores do muro? O ultrapassamento do muro de Berlim é o insondável: nada há, nele, de concreto, senão a destruição das utopias, uma das realizações finais do capitalismo. A utopia socialista, assim como o capitalismo de mercado, não passa de uma paixão triste. Apenas substituímos uma por outra. Simplesmente liberalizamos os fluxos do desejo aqui, para tê-los recodificado ali, logo adiante no consumo, no mercado, na Mãe-mercado – a supridora das necessidades.


5. Essa desinscrição do desejo em relação ao socius possui, porém, implicações políticas. Entre esquerda e direita, entre socialismo e capitalismo – isso, Agamben mostra bem (Mezzi senza fine, Bollati Borlanghieri), são duas categorias progressivamente esfumadas e atualmente tornadas indiscerníveis; mais que isso, são bordadas sobre o mesmo canevás biopolítico. Sobre o muro, tomou-se uma única decisão – o fascismo do desejo já havia tomado por nós, por eles – “a quem entregarei minha vida?”. Eis a naturalização da queda do muro de Berlim. O que ela esconde: que toda opção acerca dos modos de vida e dos modelos políticos disponíveis (esquerda / direita; soberania / norma), importam, no fundo, uma simples substituição do universal capaz de, axiomatizando nosso desejo, politizar, finalmente, a doçura natural da vida. O golpe final dessa politização foi justamente a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão (Cf. Agamben, Mezzi senza fine), tão comumente invocada para defender a opção global pela hegemonia e pelo totalitarismo político dos modelos pós-democráticos e espetaculares capitalistas. De sua parte, os direitos do homem e do cidadão, e seu participação na consagração da biopolítica, por intermédio da politização da doçura natural da vida, são assunto para mais tarde. Por enquanto, permaneçamos suspensos – sobre o insondável concreto da biopolítica, cuja maior realização foi o capitalismo, que, em si mesmo, não é capaz de ultrapassar-se; entre nós, há apenas mais um muro por detrás de cada muro.