Dilma: da fome de roer o impossível

04 outubro, 2010


       Isto não é uma declaração de voto. Tampouco, a confissão de uma intenção pessoal. Se posso falar, é para enunciar um desejo selvagem e impessoal. Há diversos motivos razoáveis pelos quais voto, e votarei no segundo turno, em Dilma Rousseff; mas voto em Dilma, sobretudo, como expressão de um desejo que não é o meu, mas um desejo da multidão.
Estamos cansados de debater o razoável; esgotamo-nos no arquipélogo estreito demais da razão. Aqueles que ainda o fazem, não percebem que a política é desejo, e o desejo é sempre uma questão de impossível. Não escrevo a fim de convencer qualquer eleitor de Serra, leitores de Reinaldo Azevedo, ou qualquer eleitor declaradamente “consciente” e ilustrado. A forma como me declaro é a mesma pela qual abandono a mim mesmo: porque política é desejo, só há eleitores inconscientes – há apenas singularidades impessoais, móveis e desejantes.
       Convencimento racional é para os que precisam de uma motivação política palpável para encobrir que aquilo que faz a verdadeira política é o inconsciente; assim, estes escondem, também, que o voto é, sobretudo, uma declaração de amor e de loucura em meio à guerra, uma corajosa fuga das trincheiras, seja qual for a nossa posição.
Não julgo Marina. Ela tem muito a ensinar a um PT que, como dissera Eduardo Viveiros de Castro nessas eleições, não leva a pensar; e política – Viveiros como bom deleuziano o sabe – é pensamento como desejo de engendrar pensamento. Marina pode ser conservadora sob alguns aspectos pontuais - e seu atual partido muito mais intensamente –, mas Marina, verdadeiramente, é uma política que leva a pensar e desperta afectos. Sequer o dilmista mais aferrado, ou o serrista mais convencido, puderam passar ilesos por Marina, porque Marina é, par excellence, um terceiro irredutível.
O segundo turno não representa uma vitória da oposição, mas engendra a marca simbólica deixada por Marina. A marca que imprimiu em nossos corações (dilmistas, serristas, marinistas, pliniistas etc.), o tipo de política e de justiça que o Brasil deseja: política como desejo-pensamento e justiça como afecto.  O que explica a expressiva votação de Marina? Ora, Marina engendrou um devir: um devir todo-mundo...
Minha candidata, Dilma – eleita não por mim, mas pelo desejo que em mim deseja – até agora, só foi capaz de fazer-se uma repetição nua de Lula e de um signo vazio de continuidade e desenvolvimento. Sua vantagem desejante em relação a Serra está em seu apelo ao atual e ao concreto – ainda que, por ora, este tenha permanecido por demais vazio.
Seu embate com Serra não poderá limitar-se à diferença entre dois modelos de gestão e desenvolvimento. Dilma precisa ser a caixa de ressonância do desejo da multidão – e isso nada tem a ver com manipulações midiáticas, mas com a sensibilidade para apanhar os devires e lançar-se sem medo nalguns deles. Dilma tem de esquecer os signos vazios da propaganda e encarnar o que há de real e de comum em nosso desejo.
Dilma e o PT precisam repensar-se, e talvez retornar – mas como convém, diferentemente – ao ano de 2002. A esperança que Lula oferecera não era uma palavra vã, mas concreto, puro e murmurante desejo da multidão. É isso que meu desejo espera também de Dilma: não uma onda vermelha, mas o realismo potente que Serra não pode encampar: o realismo desejante dos famintos que não se saciam da fome de roer o impossível.


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* Incidentalmente, esse texto conversa com "Uma nova política: o que sobrou do primeiro turno", de Flávia Cera. Vale a leitura sob o ponto de vista de uma respeitável eleitora de Marina.



** Eis, em estado puro, um devir: "a fome de roer o impossível".