19 de março de 2011

Um presente reunido àquilo que ele pode (não)



1. O que pode um instante? - Deleuze tentava responder a essa pergunta em 1968, em Diferença e Repetição. Como compreender o presente como qualquer coisa que difere de si, como singularidade, como diferença em si e para consigo mesmo? A resposta de Deleuze é simples: suscitando devires no presente, suscitando acontecimentos – e Deleuze-Guattari fizeram lembrar – prudentemente, pois nunca sabemos, de início, até onde nos levará uma linha de fuga. Um dos princípios da micropolítica deleuze-guattariana teria sido precisamente este: uma linha de fuga pode suscitar devires ou converter-se em linha de abolição absoluta. Nunca estamos completamente a salvo; portanto, prudência.


2. A salvação não vem. - O erro de toda a política teria sido ter sido atravessada pela teologia. Não há políticas salvíficas: há micropolíticas travando combates-entre e guerras de guerrilha com políticas de estado. Não há políticos messiânicos: políticos são, por definição, os que testemunham que o messias não retornará.


3. Trevas, luz. - Os passos de gigante dados por Agamben ou Negri na direção de reconectar ontologia e política parecem, hoje, longe de lográ-lo. Esse é, ainda, um dos grandes problemas da esquerda contemporânea: passar a ler a realidade das práticas vinculadas à da teoria. A cisão entre teoria e prática é uma das primeiras a cair no crepúsculo da modernidade. Nós, contudo, continuamos a mirar a obscuridade desta e de outros dualismos que nos afetam da mesma forma como a sobrevivência incandescente de uma estrela que há muito se apagou. Sua luz é a prova de que apenas as trevas que as envolvem nos concernem.


4. Uma resposta - Hugo Albuquerque desafiou-me amavelmente com um sintético e bonito texto, “Uma esquerda para o aqui-agora”, em resposta a meu recente “Uma esquerda para depois de amanhã”. Portanto, amavelmente, tal como imagino que devesse dar-se a prática tão política do pensamento ligado à ação entre os amigos na "ágora", ofereço nesse pequeno texto minha resposta às considerações do querido amigo e intercessor.
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 O que significa uma esquerda para depois de amanhã? Minha resposta envolve-se aparentemente em um paradoxo que é preciso compreender: significa uma esquerda como quisera Hugo “para o aqui-e-agora”. Até hoje a esquerda houvera sido, sempre, cronologicamente, uma esquerda para depois de amanhã, incumbida de realizar o absoluto na história. No entanto, o depois de amanhã da esquerda que proponho é tão póstumo e atual quanto o próprio contemporâneo. Se quisermos colocá-lo sob o signo do presente, façamo-lo, mas apenas naquilo que o instante tem de virtual e potente, apenas naquilo que permite a um presente diferir em si e para si mesmo.
Uma esquerda para depois de amanhã, compreendida sob o signo do intempestivo, reúne o presente às potências do futuro. Nesse sentido, a inatualidade esquiva do Neutro barthesiano permite burlar os dualismos, suspendê-los, desativá-los. Só a esse preço poderemos olhar o sintoma no fundo de sua tão atual indeterminação.
A pergunta que nosso amigo comum, Bruno Cava – escritor e editor do Quadrado dos Loucos – propõe é “como devir esquerda?”. Precisamente a pergunta que está no fundo da proposta de Uma esquerda para depois de amanhã. Sinto, mas não me ressinto por isso, que estamos a falar da mesma coisa, e a pergunta que Bruno propõe funciona como uma espécie de catalisador de toda a discussão. A esquerda, como diz Cava, é sempre um devir. Ninguém é essencialmente de esquerda; a esquerda não se submete às políticas de estado, está sempre do lado das políticas minoritárias, da micropolítica, roendo as engrenagens ou, para usar uma expressão de Adorno, apressando os desabamentos.
Em uma esquerda para depois de amanhã, e com relação à suspensão dos dualismos, falo, de fato, da superação do que Bruno chama em seu texto “uma certa esquerda”, não da superação de uma esquerda em devir. Mas reconhecer como a língua e os dualismos podem ser enganadores são, por outro lado, condição necessária para compreender uma esquerda que recolhe o “aqui-e-agora” hugoalbuquerquiano e, cavianamente, coloca-se-o em devir.
Acredito que é só uma esquerda para depois de amanhã (intempestiva, inatual, sempre já em devir) aquela capaz de reunir o presente àquilo que ele pode. Estou certo de que devemos temer aquilo que, em breve, chamaremos de nova esquerda brasileira. Esse novo já surge codificado, sem singularidade, redentor, salvífico, “alternativo”, identificado ou, ao menos, referencializado pelo paradigma.


5. Neutro, potência e poder não... - Uma esquerda para depois de amanhã – aquela que, no presente, o reúne àquilo que ele pode (e o reúne também à sua potência de não) – não é uma esquerda cronologicamente tardia, que só surgiria depois... ela não nos salva nem redime, mas burla, esquiva, cria espaço-tempo, produz pensamento, suscita devires, faz do pensamento a prática mais política de resistência àquilo que, no presente, permanece insuportável.
No interior do Neutro barthesiano, não se anula o conflito ou a polaridade, mas se suspende. A suspensão barthesiana é o que, hoje, torna possível reunir um presente àquilo que ele pode, bem como àquilo que ele pode não... (a relação essencial de toda potência com seu próprio poder não).
A operação de poder empreendida por uma “nova esquerda brasileira”, kassabista e perversa com os signos, não consiste tanto em separar a esquerda daquilo que ela pode, mas em separar a esquerda daquilo que ela pode não. Assim, realizar o Neutro na política já não se trata de um problema. Nunca houve política, ou devir-esquerda, senão em relação com aquilo que reconecta as potência da esquerda com as potências de seu mais próprio poder não. Não se trata de realizar o Neutro na política; a política é que sempre celebrou, como micropolítica, as núpcias entre Neutro e Devir.
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