9 de novembro de 2012

Uma genealogia de "O Anti-Édipo"



É impossível não ler O Anti-Édipo deleuzo-guattariano sem se colocar em xeque a todo instante e sem sentir reverberar ao mesmo tempo no próprio corpo a intensa subversão que implica entrar em contato com os afetos do esquizofrênico - figura-limite, aquela "mais próximo do real", não o farrapo autístico em que as instituições quase sempre o convertem. O discurso sem estrutura, o vomitório de palavras, fatos e de todos os nomes da história. Aos poucos compreendemos que o gesto de Deleuze e Guattari é mais profundamente bergsoniano do que kantiano - embora a introdução à edição italiana de Mil Platôs sugira insistentemente o contrário. Fazer uma síntese das multiplicidades inconscientes, pois sim, mas com que positividade profunda e inaparente dotar essas multiplicidades inconscientes que, em Bergson, se confundem com o "espírito" - palavra bouleversante para qualquer materialista, para qualquer filósofo político, que crê que todo espírito seja ainda demasiadamente metafísico...? E, no entanto, por cada poro do imenso corpo furado antiedipiano sopra um ar bergsonista, uma energia espiritual indomável pela matéria que, por sua vez, não passa da interrupção e do limite atuais de um fluxo virtual incessante, que não para de jorrar (imanência, de manare, "jorrar"). Como então se definem as máquinas desejantes, senão como máquinas de cortes-fluxos arranjadas segundo três sínteses (produção, registro, consumo)? Eis aqui as operações mais físico-política (e, ao mesmo tempo, em um sentido exclusivamente bergsoniano, mais metafísicas) do desejo: profunda repulsão do eu, magmática recusa a adoecer de normalidade:

“[...]há estados mórbidos ou anormais que parecem somar-se à vida normal e enriquecê-la em vez de diminuí-la. Um delírio, uma alucinação, uma ideia fixa são fatos positivos. Consistem na presença, e não mais na ausência, de algo. Parecem introduzir no espírito certas maneiras novas de sentir e de pensar. Para defini-los é preciso considerá-los no que são e no que trazem consigo, em vez de ater-se ao que não são e ao que tiram” (Bergson, H. L'Énergie spirituelle, 1919, em um texto originalmente publicado em 1908).

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