Chapação maquínica, alucinação estatística: pensar como o ChatGPT

23 março, 2023




“Chapação. Droga. Será que se trata de uma mera analogia?”
Félix Guattari

    

>_Prompt: Resuma  o texto a seguir em cinco tópicos

Em A falsa promessa do ChatGPT, que apareceu traduzido na Folha de SP, o linguista e libertário estadunidense Noam Chomsky aproveitou a recente e meteórica celebridade do Chat GPT – um LLM (Large Language Model) – para alavancar a sua crítica geral contra a IA.

No afã de denunciar as suas limitações, diferenças e perigos quando comparado ao raciocínio, à capacidade e ao uso humanos da linguagem, Chomsky nos entrega uma denúncia crítica da IA do ponto de vista da biolinguística e da linguística gerativa, e ao mesmo tempo uma peça que prossegue no que Bruno Cava acertadamente chamou de melodrama tecnofóbico.

Uma estranha ambiguidade percorre o texto de Chomsky. A ambiguidade de quem, por um lado, parece ter entendido inteiramente o que é e como funciona um LLM como o ChatGPT; por outro lado, escreve como se tivéssemos o direito de esperar outra coisa dele.

A ambiguidade está em compreender perfeitamente, como intelectual da linguagem que Chomsky de fato é, que um LLM não pensa como um humano. Não tem cérebro, corpo, nem visceralidade – embora se apoie em conjuntos de agenciamentos sociais, técnicos e maquínicos bastante materiais (explico isso nos itens 2 e 3, abaixo).

Se for capaz de aprender, é por causa das bases de dados de treinamento (training datasets) – um aprendizado diverso do humano. Se puder ser chamado de inteligente, é pela capacidade de vasculhar, correlacionar e gerar induções estatísticas a partir de modelagem matemática complexa — hoje, com trilhões de parâmetros — aplicada sobre uma base de dados e informações bem mais vasta do que cérebros humanos seriam capazes de “processar”.

Sobretudo, começamos a descobrir que o seu algoritmo é treinável para um sem-número de tarefas, em uma multiplicidade de mídias, e que os resultados apresentados dependem da capacidade humana de fornecer comandos específicos, precisos e bem individualizados. Sua epistême e  sua ética são dependentes dos inputs — em sentido amplíssimo.

O fato é que o ChatGPT é uma tecnologia de propósito geral. Isso significa que, na medida que começa a ser integrado a uma série de spin-offs utilitários[1], ele aumenta o seu potencial de afetar uma miríade de áreas do mercado de trabalho existente. Curiosamente, tende a afetar e deslocar os trabalhos high-end, mais cognitivos e melhor remunerados. É por essa razão que seu advento e popularização semeiam o pânico entre trabalhadores e parecem exigir políticas empresariais e acadêmicas que limitem seu uso e regulem a sua ética.

Embora Chomsky, Roberts e Watmull tenham compreendido tudo isso como ninguém, ainda assim escreveram “A falsa promessa…” como se pudessem esperar da IA coisa diversa — como um aprendizado e uma inteligência talhados de forma antroponômica; isto é, normativamente humana.

Mesmo tendo lido o texto de Chomsky, fiz o exercício de comandar no prompt do ChatGPT: “Resuma o texto a seguir em cinco tópicos”. O output foi o seguinte:


Textualmente:

  • A inteligência artificial baseada em aprendizado de máquina é motivo de preocupação e otimismo.
  • Programas como o ChatGPT coletam dados, procuram padrões e geram respostas estatisticamente prováveis, mas diferem profundamente do modo como os humanos raciocinam e usam a linguagem.
  • A mente humana é um sistema eficiente e elegante que cria explicações e opera com pequenas quantidades de informação.
  • A gramática da língua é um sistema estupendamente sofisticado de princípios e parâmetros lógicos.
  • Programas de aprendizado de máquina estão presos em uma fase pré-humana ou não-humana da evolução cognitiva e não possuem a capacidade crítica de dizer o que não é o caso e o que poderia e não poderia ser o caso, que são os ingredientes da explicação e da verdadeira inteligência.

Vamos seguir os pontos acima do modo mais inteligente quanto possamos, já que Chomsky nos espreita, e talvez suspeite de que não passemos de um bot irônico e mal-intencionado.

O primeiro ponto exprime uma total platitude. Tudo o que gera otimismo também gera algum grau de preocupação. Nem que seja a preocupação que o otimismo seja frustrado. No caso das tecnologias de IA, o caso é ainda pior. Ninguém está preocupado com um cenário otimista que não se realiza; a preocupação incide sobre as catástrofes ecológica, social e humana que — segundo as antevisões mais cataclísmicas e distópicas — poderiam decorrer da generalização e da pervasividade da IA. A única novidade aqui — notícia velha, aliás — é que podemos até não ter percebido, mas a generalização e a pervasividade da IA já aconteceram. Portanto, zero novidade.

O que há de novo agora são duas coisas. Primeiro, a vertiginosa capacidade de processamento e velocidade na apresentação de resultados progressivamente mais relevantes para os usuários de IA. E segundo, nós estarmos nos dando conta de que tudo isso não é mais do que o resultado do processo de subsunção técnica em curso há anos — qual foi a última vez que você ligou para um SAC qualquer e conseguiu falar com um humano? Caso tenha conseguido não foi sem antes passar por chatbots, não é?


O segundo ponto explica como um LLM funciona em termos simples, e demarca o fundo do argumento chomskyano, que se sustenta em uma diferença e em uma hierarquia. Os modelos de LLM, mesmo de aplicação geral como o ChatGPT, “diferem profundamente do modo como os humanos raciocinam e usam a linguagem”. Pensar e falar não são, portanto, a mesma coisa para humanos ou LLMs. E são atividades evidentemente levadas a cabo de forma mais própria e completa por humanos — ponto em que a distinção entre humano e inumano é colocada em termos de hierarquia.

O terceiro e o quarto pontos explicam exatamente a pretensa superioridade da inteligência humana versus a artificial. A nossa inteligência (mas que pretensão essa de dizer “nossa”!) faz muito com pouco. É extremamente eficiente do ponto de vista informacional. Raciocina por nexos de causalidade e produz explicações e hipóteses ousadas e pouco críveis, mas capazes de revolucionar modelos de explicação gerais; e, por fim, nós somos capazes de juízo moral.

Já o pobre ChatGPT até consegue resenhar um texto de Chomsky com razoável precisão, mas seria ineficiente do ponto de vista informacional. Isto é, para fazer pouco, precisa de muito. Não tem a propensão natural, a plasticidade e a elegância dos cérebros infantis que captam lógicas e modelos gramaticais no vento — só por estarem ao relento na língua. Ainda pior, a inteligência da máquina é incapaz de contrafactualidade: inclusive “pode aprender”, como diz Chomsky, “que a terra é plana”.

Então, a rigor, a IA não pensa nem explica. O que ela faz, então? No interior de uma densa nuvem estatística de correlações e palavras, ela procede por indução, ela induz. E, mal de todos os males, tampouco é capaz de inteligência moral — daí exprimir a banalidade do mal, definida precisamente por essa incapacidade moral. Eis o que, para chegarmos ao ponto cinco, escanteia o ChatGPT para o exterior da humanidade. Para onde? Para a condição de uma inteligência pré-humana, não-humana, e sem condições de evoluir no sentido humano, que dirá de ultrapassá-la.


No valid inputs


O ChatGPT implica um evento de percepção, porque faz com que, de repente, todo mundo se dê conta de uma realidade que já se impôs – e todo pensamento regressivo não é mais do que o esperneio que precede a adaptação a uma subsunção que já está em curso.

Um acontecimento que altera a sensibilidade coletiva com relação à tecnologia. Um dia, isso também ocorreu com os ábacos e as calculadoras, com os desktops e telefones celulares e, depois, com os notebooks, smartphones e tablets. Porém, com a diferença de que as tecnologias de aplicação geral apresentam o potencial de alterar nossa ecologia sociotécnica e relacional de uma só vez, em múltiplas frentes, e em níveis de profundidade variáveis. Elas tornam porosa e maleável a rigidez da divisão social do trabalho, e fazem todo mundo temer pelo seu trabalho – o que, no fundo, é só um disfarce do verdadeiro problema: tememos é pela nossa renda!

Neste ponto, ninguém está em condições de vaticinar a irrelevância do que quer que seja; nem mesmo, preguiçosamente apostar na passagem do humano ao papel de “coadjuvante da história” na medida que a IA agora tagarela e nos destitui do que até então nos fazia humanos: a posse de uma faculdade sensível que Aristóteles chamava de lógos.

As perguntas que esse evento de percepção permite fazer são: que regime de verdade advém com a popularização de um LLM como o ChatGPT? (Não um efeito causal da técnica, mas do seu uso e adoção massificados). Que tipo de inteligência ele deveria manifestar? Que modos de raciocinar? – dos quais também participamos em outros ritmos, e com outra abrangência. E em que consistem esses processos informacionais dos quais não podemos participar inteiramente?

Enfim, o que é isso de que já estamos participando? E como isso participa em nós – derrubando, inclusive, a barreira entre “nós” e “eles”? Como esse advento de percepção poderia ajudar a derrubar outras diferenças que nossa cultura aristotélica traduziu em dimorfismos e hierarquias – cultura/natureza, humano/inumano, homem/máquina, lógos/phoné, cidadão/imigrante, trabalhador/desempregado, entre outras?

Tomar uma inteligência e uma linguagem demasiadamente humanas como modelo e esperar que o ChatGPT seja sua maximização é como martelar inputs inválidos no prompt e esperar que dali saia alguma coisa que não seja decepção ou autoengano.

A crítica de Chomsky martela inputs fora de lugar. É por isso que ela consegue ser, ao mesmo tempo, retrospectiva, logocêntrica, antropomórfica e moral. De um só golpe, ela reúne tudo de mais regressivo que o pensamento crítico ocidental já conseguiu conceber num mesmo pacote.

Ao invés de imaginar o agenciamento de dois ou mais tipos de inteligência (como a ciência pura e a engenharia aplicada) como uma composição produtiva, Chomsky os contrapõe e hierarquiza. E se vale de um raciocínio fundacional para fazê-lo: inputs que remetem a um solo antropomórfico, logocêntrico e moral que recua pelo menos ao século IV a.C. – e, como certa vez cantou Caetano Veloso, “sustenta ainda hoje o Ocidente…”.

É o próprio Chomsky quem descreve a biolinguística, e a escola da gramática gerativa, como atualizações “de abordagens que remontam à tradição filosófica aristotélica” (Chomsky, 2017, p. 04). Sua ideia fundamental é a de que a língua é uma função orgânica inata à natureza do cérebro humano.

Daí porque é esperado que sua crítica se valha dos inputs logocêntricos, antropomórficos e morais do lógos aristotélico. Isto é, não deveria causar espanto algum que sua crítica à IA manifeste a fé num tipo de inteligência ao mesmo tempo humana e natural que, no entanto, nos separaria numa  esfera – política ou cultural – de todo o resto da natureza. Nem que isso gere uma má compreensão sobre a técnica: o silício pertenceria à ordem da natureza ou da cultura? E as palavras que as IAs geram? A pergunta que importa é se esses inputs chomskyanos ainda convém à realidade e ao que estamos nos tornando.

O logocentrismo, o antropomorfismo e o moralismo do lógos aristotélico exerceram precisamente esta função na nossa cultura técnica: apontar uma diferença, proporcionar uma taxonomia e justificar uma hierarquia. Não apenas uma diferença entre natureza e cultura, mas entre o humano e o inumano. A distinção aristotélica opositiva entre lógos e phoné  (a “voz” animal, que indicava posse das capacidades de experimentar e exprimir apenas a sensibilidade para a dor e o prazer, sem ser capaz de desenvolvê-lo na direção de sentimentos morais ou na forma da inteligência) o testemunham suficientemente.

Nesse mar de diferenças que se tornam classificações e hierarquias, num universo regido por partes que se totalizam governando umas às outras, os objetos técnicos só podem aparecer como algo estranho: nem inteiramente naturais, porque são artefatos artificiais; nem inteiramente humanos, porque a natureza está entre as suas componentes. O objeto técnico é como o Alien: o estranho familiar freudiano que nossa inteligência antropomorfiza em filmes como o E.T.

Além disso, Chomsky parece não escolher bem seus argumentos. Causa estupefação atribuir à IA e ao ChatGPT a banalidade do mal, quando esse conceito – concebido por Hannah Arendt em Eichmann em Jerusalém – servia para descrever as ações de um ser humano que, ao contrário do que todos imaginavam, não tinha qualquer traço monstruoso, exceto o fato de ser assustadoramente normal. Um animal demasiado humano com capacidades morais incorporadas e genéticas como qualquer outro.

Ou, ainda, a afirmação irrisória de que o ChatGPT poderia aprender que a terra é plana. Claro que poderia! E quem o ensinaria, a não ser uns bons punhados de animais antrópicos bem-falantes? Seria preciso lembrar uma humanidade pré-científica que por séculos acreditou no geocentrismo com base em uma correlação desprovida de causalidade (a sucessão de dias  e noites)? Não é um tipo de pensamento bem humano que pensa primeiro por correlações, e depois talvez se esforce metodicamente por discriminar em meio a elas as relações de causalidade?

A indução e o erro não são, também, potenciais inatos, assim como a banalidade do mal grassando entre seres pretensamente morais? E uma das mais importantes linhas da evolução – a que Bergson se referiu em A evolução criadora – não é precisamente a capacidade vital de saltar para fora e para além das determinações biológicas? A biologia só existe como inatismo e determinação, ou também como processo evolutivo no qual a vida se prolonga- no caso humano, cercado de artefatualidades? Quais poderiam ser alguns dos antídotos para esse imenso tédio de uma inteligência inata?

Alucinação estatística e chapação maquínica

Visceral Bodies , Claudia Rafael & Mika Kailes


Meses atrás, me lembro de que alguém mandou o link do ChatGPT com indisfarçável excitação, e disse: “olha que loucura isso aqui!”. A palavra loucura para substantivar o ChatGPT talvez não seja uma escolha fortuita. Nem a excitação delirante que a seguia.

A loucura é o que nos permite perceber que a crítica de Chomsky à IA é retrógrada e mal-colocada. Ela se prende ao que Matteo Pasquinelli e Vladan Joler chamaram de “status ideológico da máquina inteligente”. Isto é, a ideologia que existe em pensar a inteligência algorítmica à imagem e semelhança da cerebral e humana.

A IA não é uma máquina inteligente. É um instrumento de percepção. Ela maximiza o conhecimento, ajuda a perceber padrões e correlações em datasets que cérebros humanos jamais poderiam percorrer sem correr o risco da vertigem, do vômito ou do desmaio. E a IA o faz numa velocidade maior do que o cérebro humano poderia (com o perdão da analogia) “processar”.

Ou seja, modelos de IA implicam um novo regime de verdade que Chomsky só pode perceber como mentira, falsa promessa e perigo moral, uma vez que ele o faz retroagir ao inatismo biológico e ao aristotelismo logocêntrico.

Esse novo regime de verdade é o que Pasquinelli e Joler chamaram, numa divergência conceitual de seu uso técnico, de alucinação estatística. Não se trata de chegar a outputs que não decorrem do dataset de treinamento, a erros evidentes ou a respostas contrafáticas. Não é de uma inadequação entre as coisas e o output que se trata. Mas de compreender que essas máquinas não emulam inteligência, mas percepção.Isto é, os prompts são como janelas para os dados, e os outputs, dispositivos que tornam visíveis e legíveis, por intermediação algorítmica, um vasto conjunto de dados e pontos entre os quais se estabelecem correlações.

Neste estágio de desenvolvimento (em estágios futuros, não sabemos), é como se ganhássemos um novo órgão perceptivo, com capacidades inéditas, e que pode alterar não só a percepção de um meio, como também a autocompreensão de um corpo-intelecto, e interferir na ecologia sensível que o constitui. Como um telescópico, um microscópio, um binóculo noturno ou um bom e velho par de óculos alteram um conjunto de percepções, ecologias e relações que um corpo-intelecto mantém com os outros e seu entorno. Eles são próteses de percepção, como um aparelho auditivo torna relativamente audível o que de outra forma seria inaudível.

Não há problema algum em dizer que as IAs não pensam, mas reconhecem padrões. É precisamente isso que não as deixa ser seres oraculares, ou cérebros metafísicos, mas as torna instrumentos de conhecimento – ainda que alucinatórios – porque a imagem que nos dão da  realidade é distorcida, como a que nossos olhos, óculos, microscópios ou telescópicos fornecem também o são.

O grande debate sobre os vieses, em que a política dos algoritmos parece emborcar, ganha novas proporções quando entendemos os algoritmos como instrumentos de percepção e conhecimento – e não como máquinas inteligentes ou criativas.  O que explica a presença algorítmica de vieses não é a falta de aptidão maquínica para a crítica moral, como quer Chomsky. Como a política de Maquiavel e a norma jurídica de Kelsen, um par de óculos ou a IA não são instrumentos morais ou imorais, mas amorais. E isso, por duas  razões, ao menos.

Primeira, porque dados brutos não existem. Eles são extraídos dos funcionamentos das nossas sociedades, das suas divisões, dimorfismos e hierarquias. Os dados marinam nos nossos preconceitos cognitivos. De modo que não são os algoritmos que são racistas, xenófobos ou misóginos, mas os funcionamentos sociais que originaram a vastidão de dados apodrecidos com os quais eles foram treinados. E nós, hipócritas com capacidade moral inata, não gostamos de ver a imagem refletida que os algoritmos tornam visíveis. Detestamos perceber que as polícias sejam racistas, que as empresas sejam misóginas ou que os Estados sejam xenófobos. Mas se forem males banais, nossa hipocrisia de animais aparelhados para a moral dá de ombros e diz: “tudo bem…”.

Segunda, porque existe um imenso trabalho humano (gratuito e periférico, mas também remunerado e metropolitano) que vai ser integrado à modelagem matemática dos algoritmos. Então, não podemos esperar deles mais ou menos moralidade do que nossas formações sociais são capazes.

E isso nada tem a ver com qualquer aptidão inata e biológica à moralidade, mas com o fato de que as sociedades  sempre foram as megamáquinas mais antigas e mais inteligentes em extorquir e habituar comportamentos por repetição, reiteração e sistemas mais ou menos difusos de punição-recompensa. Nós, e os indivíduos que nós pensamos ser, não passamos de adictos sociais.

Mas a alucinação estatística também se liga a uma outra coisa. Uma curtição, um thrill, uma pira. Foi Félix Guattari quem, nos anos 1980, sugeriu o termo chapação maquínica. Disse que com as tecnologias acontecem as mesmas coisas que com os esportes de aventura, shows de música, os primeiros encontros, o sexo, o chocolate, o álcool e outras drogas lícitas e não lícitas (por mero ilegalismo).

Como em tudo na vida, existem good trips e bad trips. E o mais recente texto de Noam Chomsky é, provavelmente, fruto do segundo gênero. Uma bad trip de uma inteligência desperta demais. Não deveria espantar que Chomsky se diga, pessoalmente, um conservador quando o assunto são drogas: o texto de Chomsky mostra que ele não sabe chapar.

A partir de uma definição ampliada da droga, Guattari chamou de chapação maquínica “todos os mecanismos de produção de subjetividade maquínica, tudo o que contribui para o sentimento de pertencer a algo, de ser de algum lugar; e também de se esquecer. […] É o funcionamento do conjunto que é gratificante” (Guattari, 2022, p. 191 [Os anos de inverno, 1980-1985]). As pessoas chapam o tempo todo e por toda a parte: na empresa, na Igreja, na balada, nas suas tribos, fazendo tatuagens, curtindo uma viagem, lendo poesia e filosofia, escrevendo uma tese, assistindo reality shows ou documentários sobre cutelaria moderna.

A chapação atua no sistema dopaminérgico, e a dopamina é um neurotransmissor produzido pelo sistema mesolímbico, ligado aos circuitos de recompensa. Ela é o que produz aquela sensação de prazer e bem-estar que se segue de ter alcançado um objetivo, uma meta ou realizado alguma coisa existencialmente significativa.

O Guattari dos anos 1980 já havia entendido alguma coisa do que estávamos em vias de nos tornar. Ele descrevia a monomania dos videogames dos adolescentes, o zapping televisivo dos trabalhadores esgotados, o esqui alpino dos turistas que desciam colinas verticais, como chapações com efeitos em aspectos existenciais. Tudo estava ligado, ao menos na cultura do Ocidente, a um retorno ao sentimento de individualidade. No seu vocabulário, e no de Deleuze, a uma reterritorialização subjetiva. Uma espécie de compensação pela sensação de estar esquartejado mecanicamente, despedaçado como divíduos ligados p2p numa rede infinita de outras subjetividades.

O que os neurofisiologistas descobririam algumas décadas mais tarde, é que as nossas chapações maquínicas se tornaram mais pesadas. Não apenas as redes sociais atuam no sistema dopaminérgico, mas elas são desenhadas para ativar o sistema de reforço e de recompensa, e assim intensificar as interações.

Esta não é uma economia atencional, mas uma neuroeconomia dopaminérgica: quanto mais presença online, mais posts; quanto mais posts, mais likes e interações; quanto mais likes e interações, mais recompensas; e quanto mais recompensas mais o ciclo é reiniciado, recalibrado, repetido, desviado para novos objetos que proliferam de novos investimentos. O engajamento é a medida de todas as coisas, e as redes são poços virtualmente infinitos de dopamina.

Mas também é o próprio Guattari quem diz que nada disso deve parecer assombroso – embora envolva perigos. As  chapações podem ter valor de  refúgio: “As pessoas se subjetivam, refazem para si territórios existenciais com suas chapações” (Idem, p. 194). E disso não sai muita coisa além do velho sentimento de individualidade que nos aborrece – mas cuja perda nos parece aterradora.

Há a possibilidade de a chapação ir longe demais e dar origem a uma implosão subjetiva: Van Gogh, Artaud, os jovens japoneses que se suicidam no trabalho. A vida vai sendo arrastada por um processo de singularização que não pode estancar, precisa virar processo. Senão, é o beco sem saída, o buraco-negro, um caos destrutivo sem redenção informe. É o “desmoronamento lamentável”, ou a chapação que se revela obsoleta.

E há a criação de universos inauditos: “As formações subjetivas preparadas pelas chapações podem dar um novo impulso ao movimento ou, ao contrário, fazê-lo morrer lentamente. Por trás de tudo isso existem possibilidades de  criação de mudanças de vida, de revoluções científicas, econômicas e até mesmo estéticas. Novos horizontes ou nada. […] promover o reino de singularidades mutantes, novas minorias”(Idem, p. 194-195).

É mais provável que o que nos aguarda seja um envolvimento das três linhas que Guattari descreve: haverá desmoronamentos lamentáveis, buracos-negros, caos destrutivo; mas também ilhas de privilégio cuja moeda será o valor de refúgio, e um impulso em movimentos e grupos de usuários que ainda sequer existem, ou se autocompreendem, como tais.

O complexo é o seu emaranhamento: os desmoronamentos podem servir aos movimentos, enquanto os movimentos podem servir à circulação sacana dos valores de refúgio, dos clubes mais ou menos privados. É dessa constelação esquizo, que nos assombra com suas possibilidades maníaca e paranoide, que precisamos fazer sair um novo mundo, uma nova ecologia de relações baseada nas lutas pela dissolução de todos os dimorfismos hierarquizantes. Essa é a questão política da tecnologia e da ética dos inputs que o Chat-GPT torna pensáveis, a contrapelo dos tecno-otimismos e os tecnopessimismos – que, ao que tudo indica, já têm seus outputs all-figured out de antemão.

[1] Um deles é o new Bing, da Microsoft, que integra o chatGPT ao buscador e o incorpora no navegador Microsoft Edge. Outro são as extensões para o navegador Google Chrome, oferecidas nas stores por vários desenvolvedores autônomos, que integra o ChatGPT ao buscador Google. Por padrão, o ChatGPT não tem acesso à Internet, e deṕende de atualizações constantes para que novos eventos sejam incorporados à base de dados. As iniciativas da Microsoft e da Alphabet potencializam o chatGPT dando-lhe acesso à Web – o que significa tentar reduzir o delay da espera por atualizações tendencialmente a zero. Mas já há um sem-número de extensões que mobilizam o ChatGPT para as mais diversas tarefas: escrever tweets, e-mails,  mensagens de redes sociais; coleções de modelos de prompts etc. Essas opções estão disponíveis como extensões ou add-ons na maior parte dos navegadores de Internet.

"Habita la rabia": o 8M em Santiago do Chile

09 março, 2023



 

8 de março de 2023. Estou em Santiago do Chile. Sigo maravilhado pelos dias secos de sol que fazem neste quase-começo de outono. Mais ainda pela forma como as montanhas andinas parecem envolver a cidade num abraço deitado e distante.


Saindo da Plaza de Armas, cuja noite cães, carabineros, prostitutxs e transeuntes ocupam, ando na direção de La Moneda e caio na Gen. O’Higgins - uma arterial imensa que irriga a cidade de veios menores por onde, dias antes, eu ouvia o barulho dos carros, ônibus, peatones, motos e bicicletas motorizadas criarem densos coágulos urbanos.


Ao longo dessa avenida, o comércio ambulante frenético vende de tudo, e disputa os pesos de cada pedestre no grito. Livros descansam sobre tecidos quadriculados, dispostos no chão como pequenos sebos portáteis; maquiagens, roupas, bugigangas, traquitanas, bebidas e comestíveis, fármacos controlados e não controlados, podem ser comprados over the counter por quem quer que passe. Ninguém quer saber. Ninguém se importa. São 5,6 milhões de habitantes, sem contar os cães das ruas, os gatos das praças, os lagartos dos cerros e os papagainhos rasteiros que se encontram num parque homônimo (O'Higgins).


Vejo a Biblioteca Nacional fechando suas portas, e também a entrada do Cerro Santa Lucía - que subi no dia anterior. Paro para perguntar a uma ambulante sobre um mural dos anos 1970. Queria saber se era mesmo Gabriela Mistral quem aparece retratada como uma entidade xamânica entre o passado imemorial, o presente industrial e os outros futuros possíveis. Ela me diz que este mural está aí desde sempre, desde que era ninã, e confirma o rosto de Mistral - que, a exemplo de muitas outras fotos, raramente foi capturada sorrindo.



Enquanto falamos, vejo carabineros - os policiais de Santiago - fechando a Gen. O’Higgins e algumas ruas adjacentes. Digo  gracias, hasta pronto, que todo le pase lindo à vendedora que me falava de Mistral, e ando um pouco mais, no sentido do Museu e do Centro Cultural que ostenta seu nome. Muita gente - principalmente mulheres predominantemente jovens - se acumula embaixo das árvores pelo caminho. São 16h30, faz 30 graus, e brotam mundaréis de gente oferecendo aguita, aguita helá para aplacar o calor. Todo ambulante tem um ritornelo.


Ouço um rumor indiscernível - vindo da direção do museu do qual me aproximo -, um vozerio de mulheres, uns poucos gritos distintos em meio a um zum-zum-zum de fundo -, tiro uma foto que me soa como um diapasão. No meio-fio, alguém escreveu em roxo: habita la rabia. De súbito, penso no Brasil. Nos grupos de Zap. Na proliferação de fotos e gifs animados de rosas e parabéns que mais cedo meu celular mostrou.

 




E umas poucas centenas de passos à frente, passo por um bloco de algumas dezenas de secundaristas. Uniformizadas de um jeito que me lembra o grupo musical RBD (Rebelde), elas gritam sem parar num vai-e-vem interminável ao longo de uns 500 ou 600 metros da O’Higgins. 


No es no. Consigo ouvir sua raiva. Algumas vão com os uniformes decompostos. Outras, com os rostos cobertos com bandanas ora verdes, ora roxas, levando as insígnias dos feminismos latinoamericanos. Outras, ainda, cobrem os rostos com bandanas negras ou se mascaram como luchadoras


Não têm mais do que 14 ou 16 anos de idade, berram e fumam - tabaco e maconha -, e estão cheias de raiva. Algumas escalam pontos de ônibus. Penduram faixas e bandeiras. Sentam-se sobre as marquises. Absolutamente imóveis, outras preparam a sua marcha.




No museu, muita coisa acontece em paralelo. Enquanto atos culturais se desenvolvem nos vãos-livres, algumas meninas pintam um imenso painel de fundo roxo do lado de fora, e mulheres do colectivo hilos, sob a insígnia sangre de mi sangre, tricotam um imenso emaranhado de fios vermelhos. O que elas fazem me lembram True Rouge (1997) do artista plástico brasileiro Tunga. Mais tarde elas sairiam em marcha com sua imensa colcha levada por inúmeras mãos, para a rua. Algumas ambulantes gritam com homens ambulantes, que berram sua merchandise: ¡Callate! ¡Es un acto cultural!






Ao longo da O’Higgins, vende-se mesmo de tudo. E algo do que se vende dá o tom da marcha: há commodities de manifestações, como camisetas, lenços e ecobags temáticas, mas o que me chama a atenção sãos os chaveiros nas formas (fisicamente eficientes, imagino) de socos-ingleses e punhais. 


O que impressiona é que não há qualquer espaço para o romantismo violento que me faz lembrar do que Sérgio Buarque de Hollanda um dia chamou cordialidade - que, se é um traço do Brasil, também poderia ser das relações de gênero que se processam nele.


Nem rosas, nem parabéns coisa nenhuma. Na Gen. O’Higgins, ninguém vende flores, mas commodities, drinks variados, drogas recreativas e artefatos portáteis de autodefesa - de mulheres para mulheres. 


No 8M de Santiago, apesar do clima calmo, positivo e divertido - porque há música de todo tipo, discotecagem, arte, painéis, pintura corporal, maquiagem com glitter, tambores etc. -, tudo se passa como se o corpo fosse  finalmente convidado a habitar a raiva.

 

O 8M assume, então, um tom de luta, de protesto, de ato profundamente corpóreo e material. Campo de provas físico, ele é a afirmação da porrada sem cordialidade nenhuma. E as secundaristas da geração Z - oxalá nos ajudem a salvar-nos da nossa covardia e caretice (embora isso seja tarefa nossa, e apenas nossa) - puxam a fila. 


Enquanto isso, as mulheres de coletivos como hilos tecem as tramas transgeracionais e transversais ao longo das quais as lutas se transformam ao passar de uma geração a outra - na esperança, talvez, de que a juventude do presente possa caminhar as trilhas que as gerações anteriores talvez não tenham podido caminhar minimamente, ou até o fim, conforme o seu desejo.


Se exerço o estranho direito de dizer algo do que senti enquanto mulheres de todas as idades e orientações sexuais preparavam seu ato e sua marcha a céu aberto, é apenas por ter circulado junto aos afetos que esses corpos (outrxs do meu, por acaso e por dom) produzem e fazem circular. É isso o que me impele a falar de uma luta que não é minha - como infinitas outras, que tampouco o são -, mas com cujas aberturas e transversais os afetos que definem meu corpo (poder de afetar e ser afetado, dizia o velho Espinosa) pode compor. É isso, e nada mais que isso: no fervilhar dos corpos, ouvir o convite para habitar a raiva.


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mdcc

De 1 a 10: artigos e ensaios de 2022

29 dezembro, 2022

 


Carxs amigxs,

Abaixo vocês encontram uma "retrospectiva 2022": os dez artigos e ensaios que foram publicados neste 2022 que está terminando, produtos do nosso trabalho com xs colegas do Labtesp/UEPG. 

Ótima leitura! ;-)




4. Abecedário de Riobaldo, sobre o livro de Renan Porto, na (Des)trocos: revista de pensamento radical (UFMG);

5. A economia política do autor e do usuário: hipóteses sobre o capitalismo de plataforma, com Joao Guilherme Pereira Chaves, na Lugar Comum (UFRJ);

6. A cidadania governamentalizada: um estudo de caso das Unidades Paraná Seguro em Curitiba, com Karoline Coelho de Andrade e Souza, no Caderno CRH (UFBA);

7. Um outro devir-negro do mundo: neoliberalismo e lutas antirracistas, com Paloma Machado Graf, na (Des)trocos: revista de pensamento radical (UFMG);


9. O enigma da produtividade do direito: performativos, algoritmos, palavras-de-ordem, na Revista da Faculdade de Direito da UERJ (para o dossiê "Pragmatismos");

10. Nudos y líneas de la vida: insistencias inumanas, sobre Locura y colonialidad, de Daniel Fränkel, na Revista Symbolum (Universidad Autónoma de Tlaxcala, México).

O que é o pós-estruturalismo?

06 dezembro, 2022

 
 
Neste vídeo, dirigido aos alunos da disciplina de Epistemologia das Ciências Sociais do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais Aplicadas da UEPG, propomos uma introdução ao Pós-estruturalismo Francês, com foco especial em Foucault e Deleuze. 
 
Aqui vocês encontram um texto mais aprofundado sobre a relação Foucault - Deleuze, o problema do poder e do desejo: https://www.academia.edu/38993597/COR... 
 
Academia.Edu (Textos & Livros) http://uepg.academia.edu/MuriloCorrêa

On the vanishing of ecologies: Latour and global destinies imagined from Brazil

10 outubro, 2022


"Be not the one who debunks but the one who assembles, not the one who lifts the rugs from under the feet of the naive believers but the one who offers arenas in which to gather.”   

Bruno Latour



When a crucial figure to the worldly ecological practices such as Bruno Latour disappears, it may be a signal that ecologies are also disappearing a little. This partial vanishing of ecological resistances is especially felt in Brazil, a country haunted by the near possibility of a second presidential mandate of the Bolsonaro’s militia/family.

    I would not like to, and will not, though, make an obituary of this text; neither am I willing to sketch a short piece collecting the thousand reasons why we in Brazil - and moreover worldwide - should feel that we are all doomed.

Otherwise, I recall that Baruch Spinoza rightly wrote that “A free man thinks of nothing less than of death; and his wisdom is a meditation not on death but on life.” If so, someone’s disappearance always points toward the necessity of a collective effort for relaunching the potency of what Gilles Deleuze, at the threshold of his own disappearance, once called a life

On the other hand, the emergence of neo-fascisms here and there all over the globe calls for a reassembling of collective thinking, feeling and acting towards this meditation on life in-between the death sentences organized by the current power's imagination. The recent Giorgia Melloni’s election in Italy was nothing but the last - and most probably, not the least - push coming from this ferocious wave, tearing everything down around the globe.

One may be asking by now what links Latour’s disappearance with Brazil’s neo-fascism? The answer might lie in the fact that the crossing-over of these two events may help diagnose the danger we are currently in, as well as avoid the mistake of imagining that “what is left” of left-wing parties in Brazil still embodies a genuine political alternative to bolsonarism. It does not, and there is no news (either good or bad) in saying that. 

While we struggle with the metaphysical dualisms of all-set political imagination in the will to stress the insistence of progressive social forces, the far-right literally gains terrain and dissolves every center and left-wings remaining alternatives. Realizing it just shifts the domain where the struggles must situate themselves from now on; and even if the struggles may pass through Brasilia, most certainly they do not rest confined to Brazil’s apparent center of political power, for they are everywhere dispersed, just waiting for ecologies to transversely assemble them.

Brazil is facing the possible re-election of a President whose Administration was responsible for 11% of the global covid-related deaths, when Brazil responds for no more than 3% of the global population (Rede Brasil Atual, 2020) [1]. It is crucial to recall that most of those victims were poor, black, brown, and indigenous people living in every part of the Brazilian territory. As if this amount of tragedy was not sufficient, Bolsonaro’s Administration is also responsible for a 56,6% increase in Brazilian Amazon rainforest deforestation since his government began in 2019 (IPAM, 2022) [2].

Surprisingly or not, as I type these words, I read online that voting polls have just diagnosed an increase in the intentions of Brazilian voters for Bolsonaro, precisely in the areas of augmenting deforestation (Folha de São Paulo, 2022) [3]. How can we understand the conundrum we are all in?

All of that represents no more than two life-menacing local threads linked to the global circulation of flows of information and affects, defining a much more concerning crisis than that one Brazil’s social and political landscape seems to embody with precedence.

What this scenario can make it clearer for everyone is that Brazil’s election accounts for the vanishing of ecologies in a double sense, both regarding life. The first one, concerns the obvious tearing apart of Amazon rainforest, and with it, its bio, social and ethnodiversity. It regards life and its modes, life in the movement of extending transversal lines between land, plants, animals, humans and non-humans, the varying array of usages and techniques, as well as multiple ways of being, doing and relating with one another. When miners or wood extraction industries make a move to kill the Forest, they are vanishing with all the possible ecologies embedded in it.

The second concerns a crisis of subjectivity which is underlined by the more broadened crisis of ecologies. This crisis is fed-back by the disappearing of life, heterogeneous social fields and ethnodiversities, and feed-forward the urban and rural areas with the subjective components and flows of beliefs allowing the deforestation to go unceasingly on.

This crisis seems to have a particular character, though. It is marked by a conundrum that links freedom and death, in which freedom is expressed and experienced in a fascist way of living - a way that is sustained by the exercise of a power of unequally and broadly distributing death around oneself. Bolsonaro’s assassin obsession with arming the civil population is a perfect metonymy for that. This kind of power works everywhere, drilling from the cities to the Forests, as well as the rural areas dynamised by agro-industrial technologies and pesticides poisoning the soils and the waters underneath. 

The social networks work as one of the logistical modals intensifying the viralization of neofascist components of subjectivity. They are also the stage for the mimic-battle of fascists against supposed progressive social forces. It is not a battle of people, and it is less a civil war. What takes place everywhere is a molecular war, where flows of subjectivity, belief and affect - incapable of creating constructive and collective alternatives - confront each other with a variable intensity of political violence, and reassemble their resented sensitivity around catalyzing leaders.

 The conundrum is that the molecular online war effectively makes something. It casts a paradoxical (anti)ecology of concepts and subjectivities that neutralizes and restrain the deployment of ecologies of the environment. And, at least in Brazil, it works everywhere. I am not saying that online social media determine anything. What I am saying is that it is a privileged mixed-semiotic terrain where ecologies and subjectivity couples, composing and decomposing themselves.

The neo-fascist is one plural, mutant and malleable kind of catching-phrase of subjectivities, prepared and intensified online, that is able to produce real and governmental effects. I recall that in the worst period of the pandemics, Bolsonaro’s discourses against vaccines coupled with the proliferation of WhatsApp and Telegram negationist groups, gaining terrain in the social field and giving rise to Anti Vax movements in Brazil - a country globally known for its historically successful vaccination policies.

Everything, even the Brazilian “what-is-left” of the left-wing, make it sound as if we must face a social and political landscape ever-already imprisoned by far right-wing axioms. In Brazil, agribusiness and extractive industries became the model for making capital and surplus for the State's finances and shareholders. Its predominance leaves the impression that there are less and less political spaces akin to what Bruno Latour would call, and advocate for, a Parliament of Things. 

Family and Christian-related religions are engulfing every other possibility of belief, and dissolving the modern frontiers between the theological and the epistemic domains. It does not mean, as a certain Italian philosopher would say, that Medicine or the Sciences have become a new secular religion. What happens is precisely the opposite: religion is dissolving the sciences in a post-modern and pseudo-democratic way Bruno Latour has never imagined, desired or vouched for.

The vanishing of ecologies is getting us to constitute an increasingly more Moralist Parliament of Men and Women (not rare, both of them white, heterosexual, christian-alike and conservative-family-morals-alike) deciding on commodities over life; on deforestation of modes of being and living over what the Brazilian thinker Barbara Szaniecki (2020; 2022) [4] has been calling the “Forestation” of urban spaces, rural areas, forests and, I would add along with Félix Guattari, concepts and subjectivity.

Directing beliefs to the Skies under the form of Christian Faith casts the religious dimension of the ecological conundrum of subjective fluxes we are facing. It calls us to reopen Faith towards the world; to redirect social fluxes of belief and creation down-to-the-Earth, such as the religions of African origin tend to do. Along with, we may try to redirect those subjective fluxes toward the ecologies of openings merged into Amerindian cosmologies. They fabulate a world that already works like a Parliament of Things, in which ecology, human and nonhuman beings take place and are let be.

Our real dilemma is not that there are no progressive alternatives awaiting for a political subjectivity to appear and inscribe itself in it. Our dilemma consists in the lack of positing a consistent ecology of the environment, the subjectivity and the concepts, capable of disassembling death and freedom from the ecumenism of the far-right. 

Our challenge is not limited to stopping the vanishing of ecologies, all over the globe, but to produce the vanishing of the particular ecology of destruction that today answers by the name of the far-right. As counterintuitive as it may sound, we will fail  if we don’t start regaining our own terrain, and relearning how to grow our own ecologies. That is, reassembling freedom and death by ourselves and down-to-the-Earth, in terms of a life 

   

[4].Szaniecki, B. (2020). « A » comme Amérique, Amazonie et abeilles. Multitudes, 81, 169-174. https://doi.org/10.3917/mult.081.0169 . The portuguese reader may consider consulting the Brazilian version issued by Lugar Comum: https://revistas.ufrj.br/index.php/lc/article/view/40885. See also: Szaniecki, B. (2022). Reassembling People, Redesigning Forests, Reforesting Democracy. In Proceedings of the Participatory Design Conference 2022 - Volume 2 (PDC '22). Association for Computing Machinery, New York, NY, USA, 20–24. https://doi.org/10.1145/3537797.3537803 


Murilo Duarte Costa Corrêa 

Associate Professor of Political Theory

State University of Ponta Grossa, Brazil

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